
A transição do particularismo boasiano para o neoevolucionismo e a ecologia cultural ocorreu entre as décadas de 1930 e 1950. Esse movimento reagiu à ênfase boasiana nos traços históricos singulares e recolocou a evolução cultural no centro da teoria antropológica. O foco principal recaiu sobre as formulações de Leslie White e Julian Steward.
O neoevolucionismo representou uma retomada das teorias evolucionistas do século XIX. Leslie White recuperou ideias associadas a Edward Burnett Tylor e Lewis Henry Morgan, defendendo que a cultura evolui de formas simples para formas complexas. Sua teoria formulou a chamada “Lei Básica da Evolução”: a cultura evolui à medida que aumenta a quantidade de energia aproveitada per capita por ano, ou conforme cresce a eficiência da tecnologia usada para explorar essa energia.
White sintetizou essa relação na equação:
C=ET
Nessa fórmula, “C” representa a cultura, “E” corresponde à energia aproveitada por pessoa ao longo do ano, e “T” indica a tecnologia, entendida como a eficiência dos instrumentos utilizados. A teoria de White adotava um forte determinismo tecnológico. A tecnologia aparecia como força motriz primária da cultura. Ela determinaria a estrutura social, que, por sua vez, condicionaria a ideologia, incluindo mito, religião e filosofia.
White também distinguiu estágios de aproveitamento energético. O primeiro estágio baseava-se na força humana e correspondia às sociedades caçadoras-coletoras. O segundo estava ligado à domesticação e à agricultura, formas de exploração da energia solar por meio de plantas e animais. O terceiro estágio envolvia combustíveis fósseis e energia nuclear, incluindo vapor, combustão interna e energia atômica.
Além disso, White propôs a “culturologia”, uma nova ciência voltada ao estudo da cultura como sistema autônomo, dotado de leis próprias e independente da psicologia ou da biologia humana.
Julian Steward afastou-se das leis universais formuladas por White e concentrou-se na maneira pela qual ambientes específicos moldam culturas específicas. Sua teoria da evolução multilinear rejeitava modelos unilineares e universais. Steward argumentava que as culturas não percorrem um único caminho evolutivo. Elas seguem trajetórias multilineares definidas pelas adaptações ambientais.
A ecologia cultural tornou-se o eixo de sua abordagem. Steward definia esse campo como o estudo da interação entre cultura e ambiente. Sua hipótese central sustentava que ambientes semelhantes tendem a produzir soluções tecnológicas e instituições sociais semelhantes.
Outro conceito central foi o de “núcleo cultural”. O núcleo cultural corresponde ao conjunto de elementos mais diretamente relacionados às atividades de subsistência e aos arranjos econômicos. Esse núcleo determinaria os padrões sociais e políticos de cada sociedade.
No plano metodológico, Steward formulou a teoria hidráulica ou teoria da irrigação. Ele comparou civilizações complexas do Egito, da Mesopotâmia, do México e do Peru. Seu modelo descrevia o seguinte processo:
- Ambientes áridos geram necessidade de irrigação.
- A irrigação exige organização de trabalho em larga escala.
- Essa organização favorece o surgimento de Estados centralizados e burocráticos.
Steward também analisou diferentes níveis de integração sociocultural. As culturas representariam distintos níveis de integração conforme suas formas de adaptação ao nicho ecológico específico em que se desenvolvem.
Steward distinguiu três formas principais de compreender a mudança cultural:
| Tipo | Proponentes | Definição |
|---|---|---|
| Unilinear | Tylor e Morgan | As culturas passam por estágios fixos e universais, como selvageria, barbárie e civilização. |
| Universal | Leslie White | A análise concentra-se na Cultura como totalidade. A evolução mede-se pela captura de energia. |
| Multilinear | Julian Steward | A análise concentra-se em culturas específicas e busca regularidades nos modos de adaptação a ambientes semelhantes. |
Outros autores também contribuíram para o neoevolucionismo. Vere Gordon Childe, influenciado pelo marxismo, concentrou-se na Revolução Neolítica. Ele argumentava que a capacidade de produzir excedente alimentar levou a mudanças tecnológicas, crescimento populacional e formação de classes sociais. Alexander Lesser destacou-se como defensor precoce da evolução cultural, ainda no final da década de 1930. Para ele, a evolução cultural correspondia a um processo de “descendência com modificação”, semelhante à evolução orgânica.
Os princípios centrais do neoevolucionismo podem ser organizados em quatro pontos:
- Energia e eficiência: a evolução é diretamente proporcional à capacidade de uma cultura de explorar energia.
- Adaptação ambiental: a cultura funciona como instrumento de adaptação às condições tecnoambientais.
- Materialismo: fatores tecnológicos e ambientais atuam como forças principais, enquanto a personalidade individual perde centralidade analítica.
- Natureza sistêmica: a cultura constitui um sistema integrado de três níveis.
Esses três níveis eram definidos da seguinte forma:
- Nível tecnológico: instrumentos e técnicas, considerados a base do sistema.
- Nível sociológico: sistemas de parentesco e estruturas políticas.
- Nível ideológico: crenças e símbolos.
Críticas
As abordagens neoevolucionistas e ecológicas receberam críticas metodológicas, epistemológicas, políticas e históricas. Parte dessas críticas veio da antropologia boasiana, parte do marxismo, da antropologia simbólica, do pós-estruturalismo e da antropologia pós-colonial. Apesar das diferenças entre Leslie White e Julian Steward, muitas objeções atingem ambos.
Uma das críticas mais recorrentes dirige-se ao determinismo material e tecnológico. White atribuía à tecnologia o papel de força motriz da cultura. A estrutura social derivaria da base tecnológica, e a ideologia surgiria como consequência secundária. Muitos antropólogos consideraram essa formulação excessivamente reducionista. Ela tenderia a explicar religião, moralidade, simbolismo, parentesco e política como simples efeitos da infraestrutura material.
Autores ligados à antropologia interpretativa, como Clifford Geertz, argumentaram que cultura não pode ser reduzida a adaptação material ou eficiência energética. Geertz insistia que símbolos, significados e interpretações possuem relativa autonomia e exigem análise própria. A religião, por exemplo, não seria apenas reflexo das condições tecnológicas.
Outra crítica importante envolveu o retorno implícito de hierarquias evolucionistas. Embora White e Steward rejeitassem o evolucionismo racial do século XIX, muitos críticos afirmaram que suas teorias preservavam uma ideia linear de “avanço”. O aumento da capacidade energética aparecia frequentemente associado a maior complexidade e desenvolvimento. Isso permitia interpretações nas quais sociedades industriais seriam vistas como mais “evoluídas” do que sociedades caçadoras-coletoras.
Essa crítica tornou-se especialmente forte na antropologia pós-colonial. Autores influenciados por Edward Said e Talal Asad observaram que modelos evolucionistas frequentemente reproduziam perspectivas eurocêntricas. A história europeia acabava funcionando como parâmetro implícito para medir outras sociedades.
A ecologia cultural de Steward também foi criticada por seu ambientalismo. Embora menos rígido que White, Steward frequentemente explicava instituições sociais a partir da adaptação ecológica. Muitos autores consideraram essa abordagem limitada, pois sociedades inseridas em ambientes semelhantes podem produzir formas culturais muito diferentes. A relação entre ambiente e cultura não seria mecânica.
Além disso, críticos apontaram dificuldades empíricas nas comparações ecológicas. Ambientes semelhantes não geram necessariamente as mesmas instituições. Fatores históricos, guerras, migrações, religião, comércio e contingências políticas podem alterar profundamente os resultados culturais.
A teoria hidráulica de Steward recebeu objeções específicas. O modelo segundo o qual irrigação leva à centralização estatal foi considerado excessivamente geral. Pesquisas arqueológicas posteriores mostraram casos de sistemas de irrigação sem burocracias centralizadas e Estados complexos que surgiram sem grandes sistemas hidráulicos.
A crítica histórica também teve peso. Os neoevolucionistas procuravam leis gerais da evolução cultural. Muitos antropólogos passaram a considerar esse objetivo problemático. Influenciados por tradições historicistas e fenomenológicas, defenderam que cada sociedade possui trajetória singular demais para caber em modelos amplos de desenvolvimento.
A antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss apresentou outra linha de objeção. Lévi-Strauss criticava explicações centradas na tecnologia e na adaptação. Para ele, a mente humana opera por estruturas simbólicas universais que não podem ser explicadas apenas por condições materiais. Sistemas de parentesco, mitos e classificações obedeceriam a lógicas estruturais próprias.
Marxistas também criticaram White e Steward, embora compartilhassem certo materialismo. Muitos consideravam o neoevolucionismo politicamente fraco e economicamente simplificado. A ênfase em energia e adaptação deixaria em segundo plano relações de exploração, luta de classes, colonialismo e modos de produção. Autores marxistas argumentavam que mudanças históricas dependem de conflitos sociais concretos, não apenas de eficiência tecnológica.
Outra objeção importante envolveu o conceito de cultura como sistema integrado. White via cultura como entidade relativamente autônoma, governada por leis próprias. Críticos posteriores afirmaram que essa concepção reifica a cultura, tratando-a como objeto homogêneo e coerente. Na prática, sociedades apresentam conflitos internos, disputas simbólicas, contradições e múltiplas vozes.
A partir das décadas de 1970 e 1980, antropólogos pós-modernos passaram a desconfiar de “grandes narrativas” explicativas. Modelos gerais de evolução cultural foram vistos como excessivamente totalizantes. A ideia de descobrir leis universais da história humana perdeu prestígio em muitos setores da disciplina.
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