Edgar Morin: Os setes saberes necessários à educação do futuro

Edgar Morin, pseudônimo de Edgar Nahoum, emprega a teoria da complexidade para pensar a educação necessária para o futuro. O pensador social e filósofo estruturou sua trajetória acadêmica com uma perspectiva da transdisciplinaridade. Formado em Direito, História e Geografia, e com incursões na filosofia e epistemologia, sua obra ultrapassa os trinta volumes. Pesquisador emérito do CNRS, Morin compreende o real não como uma soma de partes isoladas, mas como uma teia indissociável de relações.

Sua magnum opus é O Método (La Méthode), uma construção monumental de seis volumes escrita ao longo de três décadas e meia. Nela, Morin estabelece uma transformação epistemológica que questiona o fechamento ideológico das ciências. Contudo, é em sua proposta educacional que o pensamento complexo encontra sua aplicação mais urgente. Em sua obra Os sete saberes necessários à educação do futuro, escrita a convite da Unesco, Morin condensa as diretrizes para um ensino que seja capaz de formar cidadãos aptos a lidar com um mundo incerto, globalizado e interconectado.

O primeiro desses saberes refere-se à necessidade de um conhecimento capaz de criticar a si mesmo. Morin alerta para as “cegueiras do conhecimento”. Isto é, o erro e a ilusão. A educação tradicional transmite informações, mas raramente ensina o que significa, de fato, conhecer, ignorando as inclinações mentais e culturais que nos conduzem à distorção da realidade. Paralelamente, o segundo saber exige o discernimento da informação pertinente. Em uma era de saturação de dados, é imperativo que o espírito humano saiba situar informações fragmentadas em seu contexto global, apreendendo a relação recíproca entre as partes e o todo.

A terceira e a quarta diretrizes focam na condição humana e na identidade terrena. Morin defende que a humanidade é una e diversa, mas as disciplinas acadêmicas desintegraram essa unidade complexa que é física, biológica e social. Reconhecer nossa pátria comum, a Terra, é fundamental para desenvolver um sentimento de pertença planetária, iniciado historicamente pelas grandes navegações e intensificado pela revolução tecnológica. Essa consciência é o único antídoto contra os riscos de um destino comum ameaçado.

Os saberes finais abordam a gestão do imprevisto e a convivência ética. Enfrentar as incertezas é um imperativo em um século que viu cair impérios e verdades absolutas; a educação deve ensinar estratégias para navegar em “oceanos de incertezas”. Além disso, ensinar a compreensão mútua surge como o meio e o fim da comunicação humana, combatendo o egoísmo, o racismo e a xenofobia. Por fim, Morin propõe uma ética do gênero humano, baseada na natureza trinitária “indivíduo-sociedade-espécie”. Esta ética exige uma democracia real, que aceite antagonismos e diversidades, culminando na efetivação de uma cidadania terrestre. Para Morin, a educação não se reduz a um acúmulo de saberes parciais. A educação é um processo de construir uma configuração ao sistema complexo que responda às interrogações vitais da humanidade.

SAIBA MAIS

MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.

MORIN, Edgar. O método 1: A natureza da natureza. Porto Alegre: Sulina, 2002.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.

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