Buber: Eu-Tu

Martin Buber (1878–1965) foi um filósofo judeu nascido em Viena, Áustria. Sua obra filosófica Ich und Du (Eu e Tu), foi publicada em 1923 pela Verlag Lambert Schneider, em Leipzig. No livro, Buber discorre sobre dois modos fundamentais da existência humana: Eu-Tu e Eu-Isso. Buber ultrapassa o individualismo para enfatizar as relações entre os seres.

O livro é relativamente breve. Buber próprio o descreveu como tendo cerca de cem páginas. A edição inglesa de Ronald Gregor Smith, de 1937, contém 135 páginas. Contudo, obra impactou a filosofia da religião, o existencialismo, na educação, a psicologia e o pensamento judaico.

O livro está organizado em três seções, compostas por aforismos dispostos sem progressão linear. A primeira seção explora a psicologia do engajamento individual com o mundo, apresentando a distinção entre Eu-Tu e Eu-Isso. Buber afirma a primazia da relação sobre a substância. O mundo do Isso é necessário, mas insuficiente.

A segunda seção examina as consequências sociais da predominância do modo Eu-Isso. Buber trata da relação com a natureza, com os seres humanos e com os seres espirituais. Neste contexto, “seres espirituais” refere-se a formas, obras de arte e ideias, não a entidades sobrenaturais como anjos ou espíritos. A seção inclui uma discussão extensa sobre amor, amizade, arte e ética. Buber critica a “experiência religiosa” entendida como uma relação Eu-Isso, na qual Deus se torna objeto de experiência. Em contraste, apresenta Deus como o Tu Eterno.

A terceira seção desenvolve a ideia de Deus como o Tu Eterno. Examina a relação entre Eu-Tu e Eu-Isso na história e aborda o retorno lento e vacilante ao diálogo. A integração de ambos os modos aponta para a comunidade autêntica. Ao longo de toda a obra, Buber utiliza formas hifenizadas (Eu-Tu, Eu-Isso) para indicar que se tratam de unidades relacionais, termos inseparáveis.

Buber estende a relação Eu-Tu a Deus. Deus é o “Tu Eterno”, que jamais se torna um Isso. A relação com Deus não se baseia em crença, dogma ou prova. Deus é interpelado em um encontro direto e mútuo, por meio da oração, da adoração e da ação. Toda relação autêntica de Eu-Tu, seja com uma árvore, uma pessoa ou uma obra de arte, aponta ultimamente para Deus, o Tu por natureza. Buber rejeita o panteísmo, que identifica Deus com a natureza, e o teísmo tradicional, que trata Deus como um objeto separado de crença. Deus não está nem dentro nem fora do mundo. Ele é encontrado na relação dialógica. A “religião” de Buber não é credal, mas relacional. Buber é crítico da institucionalização religiosa quando esta substitui a relação viva pelo dogma, mas não rejeita categoricamente as Escrituras, o clero ou o ritual como meios que podem auxiliar no caminho do encontro.

A recepção inicial da obra não foi boa. Predominantemente, foi acolhida com indiferença ou incompreensão. Na época, Buber era relativamente desconhecido fora dos círculos judaicos de língua alemã. A obra foi redescoberta após a Segunda Guerra Mundial. Com a tradução inglesa de 1937, passou a ser lida, na década de 1950, como um clássico da filosofia existencialista e da filosofia da religião.

A influência da obra alcançou diversos campos. Na filosofia, influenciou Emmanuel Levinas, especialmente em sua ética do rosto; Gabriel Marcel, em sua reflexão sobre a intersubjetividade; e Maurice Friedman, tradutor e estudioso de Buber. Na teologia, exerceu influência sobre Karl Barth e Paul Tillich. Barth era um teólogo reformado associado à teologia dialética enquanto Tillich era um teólogo luterano existencialista. Ambos incorporaram elementos da filosofia do diálogo de Buber, embora não façam parte de um movimento propriamente “teológico dialógico”. Na educação, influenciou Paulo Freire e sua pedagogia dialógica, embora com diferenças significativas. Freire fundamentou seu conceito de diálogo na teoria crítica marxista e na libertação política, enquanto o diálogo de Buber é existencial e ontológico. Na psicologia, influenciou Carl Rogers, particularmente na terapia centrada no cliente. Rogers e Buber mantiveram um diálogo em 1957 na Universidade de Michigan, no qual emergiram divergências notáveis. Rogers enfatizava uma relação terapêutica mais igualitária, enquanto Buber sustentava que um desequilíbrio de poder inerente existe entre terapeuta e cliente. No pensamento judaico, ecoou nas obras posteriores de Buber, entre elas The Way of Response (1966), uma coletânea de seleções de seus escritos organizada por Nahum Glatzer.

SAIBA MAIS

BUBER, Martin et al. The Martin Buber Reader: Essential Writings. New York: Palgrave Macmillan, 2002.

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