Foi uma obra de polêmica profética. O livro The Economic Consequences of the Peace (1919), de John Maynard Keynes, atacou o Tratado de Versalhes por criar uma “paz cartaginesa”, um acordo concebido para incapacitar economicamente a Alemanha. Keynes argumentava que essa política arruinaria toda a Europa. Sua análise de economia internacional, transformou Keynes em uma celebridade e contribuiu para moldar a opinião pública contra o tratado.

O economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946) participou da Conferência de Paz de Paris como principal representante do Tesouro britânico. Em junho de 1919, renunciou ao cargo por frustração, pois acreditava que os termos que estavam sendo negociados conduziriam a uma catástrofe. The Economic Consequences of the Peace foi escrito rapidamente nos meses seguintes, canalizando sua raiva e seu desespero.
O argumento central de Keynes era que o tratado não constituía um acordo de paz enraizado. O tratado seria um instrumento de vingança que destruiria a delicada estrutura econômica da Europa. Advertiu que, com o tempo, o tratado desestabilizaria a Europa. Ao exigir reparações impossíveis de serem pagas, empobreceria a Alemanha e, por consequência, incapacitaria o restante do continente, que dependia de uma economia alemã funcional. Keynes também alertou que o colapso econômico resultante e o sofrimento em massa levariam ao extremismo político. Acertou, infelizmente. Previu que o desespero e a radicalização política decorrentes dessa situação poderiam ameaçar a própria civilização.
O livro retratou de modo pouco lisonjeiros o grande trio da conferência, a quem Keynes atribuiu a responsabilidade pelos fracassos do tratado. Georges Clemenceau, da França, era um velho cínico cujo único objetivo era esmagar a Alemanha e assegurar a predominância francesa, demonstrando pouco interesse pela recuperação econômica europeia. David Lloyd George, da Grã-Bretanha, aparece como um operador político mais preocupado em alcançar um acordo que causasse boa impressão em seu país do que em construir uma paz justa e sustentável. Woodrow Wilson, dos Estados Unidos, era o idealista, porém inflexível e superado pelos acontecimentos, incapaz de converter sua autoridade moral em uma paz prática compatível com seus elevados princípios.
O livro foi um sucesso imediato. Sua prosa vívida e suas previsões contundentes ajudaram a consolidar a visão popular de que o Tratado de Versalhes havia sido desastroso. O alerta de que o tratado conduziria a outra guerra pareceu profético após 1939.
Embora a influência do livro seja incontestável, vale notar Keynes exagerou o peso econômico das reparações, cuja cifra final sequer havia sido estabelecida até 1921, e subestimou a capacidade real de pagamento da Alemanha. Há de se admitir que o atuor demonstrou menos compreensão do que poderia pelas restrições políticas e de segurança enfrentadas pelos negociadores. Ainda assim, a conferência fracassou em criar uma paz estável, como os tratados da União Europeia.
SAIBA MAIS
KEYNES, John Maynard. As consequências econômicas da paz. EdUnB, 2002.

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