O teatro de Molière, pseudônimo de Jean-Baptiste Poquelin, foi o auge classicismo francês do século XVII, sob a proteção de Louis XIV. Nesse época de centralização política, pela hegemonia católica e pela vida cortesã, a comédia assumiu uma função que ultrapassou o entretenimento. Tornou-se forma de exame moral. Molière escreveu, encenou e atuou em suas peças. Sua prática integrou texto e palco, como se cada obra fosse testada diante do público.
Sua comédia retomou tradições antigas, mas concentrou-se nos costumes contemporâneos. O riso funcionou como instrumento de análise. Em vez de corrigir diretamente, expôs. Como um espelho ligeiramente curvo, suas peças não deformam ao acaso; acentuam linhas para tornar visível o que, no cotidiano, passa despercebido.
L’École des femmes (1662) marcou um momento decisivo. Nela, Arnolphe tenta controlar o destino de Agnès, educada para ser ignorante e obediente. O plano fracassa quando ela descobre o amor por conta própria. A peça questiona o controle masculino e a educação restritiva. Ao tratar do casamento, revela tensões entre autoridade e liberdade. O sucesso imediato veio acompanhado de críticas, sinal de que o tema tocava nervos expostos.
Tartufo (1664, revisto em 1669) desloca o foco para a hipocrisia religiosa. Tartufo infiltra-se na casa de Orgon e constrói uma imagem de devoção. Aos poucos, sua impostura emerge. Ele tenta seduzir Elmire e manipula o anfitrião. A família divide-se entre confiança e suspeita. Quando a verdade aparece, o dano já está feito. A peça enfrentou censura severa, o que indica a proximidade entre sua crítica e estruturas reais de poder.
Don Juan (1665) apresenta um libertino que rejeita normas sociais e religiosas. O protagonista seduz e abandona. Seus diálogos com Leporelo revelam ambiguidade constante. O criado critica, hesita, contradiz-se. Don Juan formula uma teoria do amor baseada na multiplicidade e na recusa da fidelidade. O personagem não busca coerência moral; busca intensidade. A peça amplia o conflito entre desejo individual e ordem social.
O Misantropo (1666) introduz um tom mais contido. Alceste recusa a hipocrisia e exige sinceridade absoluta. Ama Celimene, que se move com facilidade no jogo social. O conflito entre ambos expõe a tensão entre verdade e convivência. Filinte propõe moderação. Para ele, a vida social exige tolerância. Alceste, incapaz de ceder, afasta-se. A peça não resolve o dilema. Ela o sustenta, como uma balança que não encontra equilíbrio.
O Avarento (1668) concentra-se em um vício específico. Harpagon subordina tudo ao dinheiro. Relações familiares tornam-se secundárias. O enredo gira em torno de sua obsessão por uma caixa de moedas. O exagero produz riso, mas também desconforto. A avareza não aparece como traço isolado, mas como força que reorganiza toda a vida do personagem.
O Burguês Fidalgo (1670) examina a ascensão social. Monsieur Jourdain busca tornar-se nobre. Aprende dança, filosofia e etiqueta, sem compreender o sentido dessas práticas. Sua ignorância não impede sua ambição. A peça satiriza tanto o desejo de ascensão quanto os códigos da aristocracia. O resultado é uma comédia de imitação, em que o personagem tenta habitar um papel que não domina.
As Mulheres Sábias (1672) volta-se para o meio intelectual. Um grupo de mulheres cultiva linguagem refinada e interesses eruditos, muitas vezes desconectados da vida prática. A peça critica o excesso de afetação e o uso do saber como distinção social. Ao mesmo tempo, levanta uma questão incômoda. Até que ponto a crítica recai sobre o conhecimento ou sobre sua encenação?
O Doente Imaginário (1673) encerra esse percurso. Argan acredita estar constantemente enfermo e submete-se a tratamentos inúteis. Planeja o casamento da filha com um médico para garantir cuidados contínuos. A peça satiriza práticas médicas e o medo da doença. Há uma ironia adicional. Molière, doente, atuou no papel principal e morreu pouco depois. A fronteira entre representação e vida torna-se tênue.
Essas oito peças delineiam um projeto coerente. Cada uma focaliza um aspecto do comportamento humano: controle, hipocrisia, desejo, sinceridade, avareza, ambição, pretensão intelectual, medo. Em conjunto, formam um quadro articulado. Molière não oferece soluções. Ele apresenta situações em que valores entram em conflito.
Seu teatro permanece atual porque trata de disposições recorrentes. Mudam os contextos, persistem os tipos. O espectador reconhece esses traços em outros tempos e lugares. O riso, nesse sentido, não dissolve a crítica. Ele a torna suportável e, por isso mesmo, mais penetrante.

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