
Quase todos os casos documentados de cultura em espécies não humanas giram em torno de três eixos principais: o uso de ferramentas, a aquisição de alimento e formas sofisticadas de comunicação. Em chimpanzés, por exemplo, observam‑se martelos de pedra para quebrar nozes, galhos preparados para extrair mel e esponjas de folhas usadas para beber água. Esses comportamentos que variam entre populações e persistem independentemente de diferenças genéticas ou ecológicas imediatas. Em outros primatas, cetáceos, aves e até peixes, a transmissão social de padrões comportamentais já havia sido amplamente registrada. Mas, em 2004, um estudo trouxe à luz algo de ordem diferente. Hove auma transformação na própria atmosfera social de um grupo quando sua estrutura social passou por mudanças repentinas.
Em uma tropa de babuínos‑oliva (Papio anubis), conhecida como Forest Troop, observada desde 1978 nas savanas do Quênia por Robert Sapolsky, uma mudança demográfica alterou parâmetros de comportamento. E essa mudança foi replicada em outra população.
No meio da década de 1980, uma epidemia de tuberculose, provavelmente contraída em lixões próximos a acampamentos humanos, dizimou boa parte dos machos mais agressivos e dominantes da tropa. A mortalidade foi seletiva. Os indivíduos mais combativos, que monopolizavam o acesso à comida e às fêmeas com violência frequente, foram os mais afetados. A cena lembrava uma fogueira que, ao consumir apenas a madeira mais seca, deixava intacto o material que queimava mais devagar.
O resultado foi inesperado. Com a redução drástica do número de machos agressivos, a estrutura social da tropa mudou. Os machos remanescentes passaram a exibir comportamentos mais pacíficos. Tal comportamento foi notado quando, anos depois, houve uma assimilação de novos machos migrantes, que normalmente traziam consigo o estilo hierárquico típico da espécie. As agressões diminuíram, as ameaças tornaram‑se menos frequentes e aumentou o tempo dedicado ao grooming mútuo, ao contato físico afetuoso e à tolerância entre indivíduos de diferentes patentes. Os machos de alta hierarquia passaram a tolerar melhor a proximidade dos subordinados, e estes, por sua vez, mostraram menos sinais de estresse crônico.
O mais notável, porém, é que essa cultura pacífica não desapareceu com a morte dos machos originais. Em 1993, nenhum dos machos adultos presentes na época da epidemia ainda vivia na tropa, pois os machos babuínos emigram ao atingir a maturidade sexual. Mesmo assim, a nova geração de migrantes adotou o mesmo estilo comportamental mais relaxado e afiliativo. A atmosfera da tropa permaneceu distinta da de tropas vizinhas controle, mais hierárquicas e agressivas.
Sapolsky e sua colaboradora Lisa Share documentaram ainda os correlatos fisiológicos dessa transformação. Os machos da Forest Troop apresentavam níveis basais de cortisol, o principal hormônio do estresse, mais baixos. Ocorriam respostas endócrinas ao estresse mais moderadas e maior recuperação após eventos estressantes. Em contraste com o padrão clássico observado em babuínos, nos quais os subordinados sofrem estresse crônico elevado, na Forest Troop até os indivíduos de menor patente pareciam viver em um ambiente social menos tóxico. A fisiologia reprodutiva e imunológica refletia essa maior tranquilidade coletiva.
Definida, de modo análogo à noção aplicada aos humanos, como padrões comportamentais compartilhados por uma população, independentes de fatores genéticos ou ecológicos imediatos e que persistem para além de seus criadores originais, essa transformação podia ser descrita como cultura. Ela não envolvia ferramentas nem técnicas de coleta de alimentos. Era algo mais sutil. A mudança na personalidade coletiva da tropa, na forma como o poder era exercido e na qualidade das relações sociais.
Os mecanismos exatos de transmissão ainda são discutidos. É possível que as fêmeas, que permanecem na tropa natal, tenham desempenhado papel central ao reforçar comportamentos afiliativos e ao selecionar socialmente os machos mais tolerantes. Ou que os próprios machos migrantes tenham aprendido rapidamente as novas normas ao observar interações menos hostis e recompensadoras. Seja como for, o caso da Forest Troop permanece um dos exemplos mais fascinantes de que a cultura, em primatas não humanos, pode transcender o mero uso de objetos. A cultura passa atingir o nível das relações sociais e do clima emocional de um grupo.
Como em tantas descobertas incômodas da etologia, esse caso levanta questões que vão além da biologia dos babuínos. Se uma simples alteração demográfica pode reconfigurar, de forma estruturante, a agressividade e o estresse de uma sociedade complexa, até que ponto nossos próprios arranjos sociais, hierarquias, tolerância ou violência coletiva são fixos por natureza ou maleáveis por tradição? A Forest Troop sugere que, mesmo entre primatas, a atmosfera social não seria um reflexo automático da biologia individual. Vemos aí uma construção coletiva que se transmite e se perpetua.
Saiba mais
SAPOLSKY, Robert M.; SHARE, Lisa J. A pacific culture among wild baboons: its emergence and transmission. PLoS Biology, v. 2, n. 4, e106, 2004. Disponível em: https://journals.plos.org/plosbiology/article?id=10.1371/journal.pbio.0020106. Acesso em: 6 abr. 2026.
SAPOLSKY, Robert M. Stress, social status, and reproductive physiology in free-living baboons. In: CREWS, David (Ed.). Psychobiology of reproductive behavior: an evolutionary perspective. Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1987. p. 291-322.
SAPOLSKY, Robert M. A primate’s memoir: love, death and baboons in East Africa. London: Random House, 2001.
KROEBER, Alfred L.; KLUCKHOHN, Clyde. Culture: a critical review of concepts and definitions. Cambridge: Peabody Museum, 1952.
WHITEN, Andrew et al. Cultures in chimpanzees. Nature, v. 399, p. 682-685, 1999.

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