Iris Marion Young: justiça vivida

A filósofa e cientista política Iris Marion Young (1949-2006) incorporou em sua vida conceitos sagazes e resiliência pessoal. É uma autora cujo impacto na vida política, direito e filosofia causou um choque tão grande do qual somente agora começamos a dar-nos conta.

Viveu o que ensinou

Nasceu em Nova York na era do milagre econômico do pós-guerra, mas sua infância sofrida a levou a desmascarar os sistemas de poder e opressão. Young examinou criticamente o estado de bem-estar burocrático que havia maltratado sua própria mãe. Os serviços sociais impunham requisitos e expectativas irrealistas à sua mãe, especialmente após a morte de seu marido. Empobrecidos, Young e seus irmãos foram postos em lares adotivos provisórios.

Conseguiu estudar Queens College, depois um mestrado e doutorado em Filosofia pela Pennsylvania State University em 1974. Seu impacto se estendeu por instituições de prestígio como Worcester Polytechnic Institute, Miami University e, finalmente, a University of Chicago. Por fim, aos 57 anos, o câncer tirou-lhe sua vida. Contudo, sua obra continua a provocar as conversas sobre justiça e desigualdade.

A interação entre experiência e pensamento

Suas situações vividas lançaram as bases para sua análise dos papéis de gênero na vida familiar. A partir disso, elucidou as normas sociais que perpetuam a desigualdade.

Como parte da primeira onda de mulheres acadêmicas em Filosofia e Ciência Política, a jornada de Young considerou a exploração da dinâmica do poder através da fenomenologia e do corpo. Seu ensaio Throwing Like a Girl (1980) demonstra como as normas de gênero moldam as interações espaciais e os movimentos corporais desde a infância. Produziu sua fusão única de anedotas pessoais e profundas reflexões teóricas para estimular a “atirar uma bola feito uma garota”.

O impacto de Young reverberou por toda parte, com suas teorias de justiça influenciando discussões sobre democratização, justiça e terrorismo. Sumarizou as Cinco Faces da Opressão, delineadas em seu Rethinking Power (1992), vividas pelas pessoas oprimidas: marginalização, impotência, dominação cultural e violência. Com esses conceitos debateu governos autoritários e a intrincada interação entre teoria política, ações governamentais e relacionamentos individuais.

Contribuições ao Direito e à Ética

Sua magnum opus, Justice and the Politics of Difference (1990), questionou a noção de que “direitos são coisas”. Em vez disso, demonstra como os direitos consistem em relacionamentos intrincados influenciados pela interação entre o estado e seus sujeitos. O apelo de Young por uma perspectiva de justiça social remodelou como a justiça é compreendida e buscada. Sua defesa enfatizou a necessidade de investigar não apenas a distribuição de bens sociais, mas também as estruturas sociais e normas culturais que geram desigualdade.

O conceito de injustiça estrutural de Young enfoca as dimensões sistêmicas e institucionais da desigualdade e da opressão. A filósofa argumentou que muitas formas de injustiça não são simplesmente o resultado de ações ou intenções individuais, mas estão profundamente enraizadas nas estruturas sociais e políticas. A injustiça estrutural abrange não apenas atos explícitos de discriminação, mas também as formas pelas quais as instituições, políticas e normas perpetuam as desigualdades. Lidar com a injustiça estrutural requer transformar esses sistemas para criar uma sociedade mais justa e equitativa.

Para obter justiça seria necessário reconhecer as diferenças. Os grupos sociais não seriam apenas coleções de indivíduos, mas são formados com base em experiências, identidades e relacionamentos compartilhados. Desse modo, reconhecer e valorizar as diferenças dentro da sociedade é fundamental para a criação de um mundo mais justo e inclusivo. Young criticou a ideia dominante de um “sujeito universal” que ignora as diversas experiências de grupos marginalizados. Em vez disso, defendeu uma política de diferença que reconheça e respeite as perspectivas e lutas únicas de vários grupos sociais, como mulheres, pessoas de cor, indivíduos LGBTQ+ e pessoas com deficiência. Essa abordagem visava desafiar as estruturas de poder existentes e criar uma sociedade mais equitativa.

Política e justiça

Em seu livro Inclusion and Democracy (2000), Young desenvolveu uma teoria da democracia comunicativa que enfatizou a importância de criar espaços para grupos marginalizados participarem da tomada de decisões políticas.

Junto de outros pensadores comunitaristas, defendeu a conexão social e comunidade como elementos-chave para a criação de uma sociedade justa. Nessa perspectiva, os indivíduos precisam ter um sentimento de pertencimento e conexão para participar plenamente dos processos democráticos.

Fez uma transição de suas raízes no feminismo socialista para um cosmopolitismo, Young (2007) ampliou sua crítica para uma comunidade política global. Seu trabalho ofereceu pontos de vista inovadores sobre conceitos como liberdade, democracia, justiça, violência e opressão, ao se envolver com o pós-estruturalismo. Aborda as complexidades das questões globais modernas através de uma lente de cooperação e justiça transnacional. Revisita os ideais otimistas de colaboração transnacional para a paz e a equidade no final do século XX. Inspirado por reivindicações indígenas, Young desenvolve um novo conceito de autodeterminação compatível com instituições globais robustas. Ela defende um mundo onde a intervenção armada seria rara e multilateral, sugerindo um modelo de aplicação da lei em vez de guerra. Rejeitando respostas tanto cosmopolitas quanto nacionalistas, Young propõe uma noção distinta de responsabilidade, enraizada na participação em sociedades interconectadas. Através de uma análise clara e exemplos concretos, Young examina as complexidades da justiça global e responsabilidade, fazendo uma contribuição valiosa para a filosofia política contemporânea.

Legado contextualizado de Iris Marion Young

Em meio às divisões sociais de hoje, o legado de Young continua a fornecer uma lúcida crítica. Sua jornada da adversidade à eminência acadêmica exemplifica o potencial transformador das experiências pessoais. O trabalho de Young ressoa com aqueles que lutam por justiça. Seu legado ressalta que a compreensão genuína surge quando exploramos a justiça em diversos contextos. 

SAIBA MAIS

Young, Iris Marion. Justice and the Politics of Difference. Princeton University Press, 1990.

Young, Iris Marion. Throwing Like a Girl and Other Essays in Feminist Philosophy and Social Theory. Indiana University Press, 1990.

Young, Iris Marion. “Five Faces of Oppression.” In Rethinking Power, edited by Thomas E. Wartenberg, SUNY Press, 1992. Em português: Young, I. M. (2021). Cinco faces da opressão. Direito Público18(97). https://doi.org/10.11117/rdp.v18i97.5405

Young, Iris Marion. Intersecting Voices: Dilemmas of Gender, Political Philosophy, and Policy. Princeton University Press, 1997.

Young, Iris Marion. Inclusion and Democracy. Oxford University Press, 2000.

Young, Iris Marion. Global Challenges. War, Self-Determination and Responsibility for Justice. Polity Press, 2007.

Young, Iris Marion. “Desafios ativistas à democracia deliberativa.” Revista Brasileira de Ciência Política (2014): 187-212. https://doi.org/10.1590/S0103-33522014000100008

Young, Iris Marion. “Representação política, identidade e minorias.” Lua Nova: Revista de Cultura e Política (2006): 139-190. https://doi.org/10.1590/S0102-64452006000200006

Young, Iris Marion. “O ideal da imparcialidade e o público cívico.” Revista Brasileira de Ciência Política (2012): 169-203.

Atualizado em 26 de janeiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é antropólogo e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2023)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2023)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Iris Marion Young: justiça vivida. Ensaios e Notas, 2023. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2023/08/08/iris-marion-young-justica-vivida/. Acesso em: 26 jan. 2026.

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