As dimensões da religião: Ninian Smart

Definir religião sempre foi uma tarefa escorregadia. Algumas tradições se expressam em formulações altamente abstratas; outras, em narrativas fundacionais, códigos de conduta ou complexas performances rituais. Há, além disso, experiências subjetivas, arte sacra, instituições, mitos e sistemas jurídicos. Como captar esse fenômeno múltiplo sem reduzi-lo a um único aspecto — crença, prática, experiência — ou dissolvê-lo em uma abstração vazia?

O historiador das religiões escocês Ninian Smart (1927–2001) propôs uma resposta para esse dilema ao formular um modelo multidimensional. Como referencial analítico, Smart delineou um método fenomenológico e estrutural destinado a mapear, comparar e compreender tradições religiosas e até mesmo ideologias seculares. Seu foco não era determinar “o que é” religião em si, mas estabelecer como ela se manifesta em diferentes níveis da experiência humana.

Smart criticava abordagens que privilegiavam uma única dimensão — crença para os teólogos, ritual para os antropólogos ou experiência para os fenomenólogos clássicos. Toda religião, argumentava ele, é um composto de camadas interdependentes. Assim, formulou inicialmente seis dimensões, que mais tarde se tornaram sete ao reconhecer a centralidade dos elementos materiais.

Não se trata de uma tipologia rígida ou de um teste para julgar tradições “completas” ou “incompletas”. São eixos analíticos que permitem capturar a espessura da vida religiosa e identificar onde as tradições convergem, divergem ou enfatizam aspectos diferentes.

Ninian smart. Sete dimensões da religião.

As sete dimensões

1. Dimensão prática e ritual

A religião, antes de tudo, faz-se. Ritos moldam a experiência da comunidade ao estabelecer padrões corporificados de devoção, memória e transformação.

Essa dimensão abrange não apenas orações, liturgias e peregrinações, mas também ritos de passagem, jejuns e festivais. O salat muçulmano, a missa católica, a puja hindu ou a meditação zen são exemplos paradigmáticos da ação ritualizada que liga o devoto ao sagrado e à comunidade.

2. Dimensão experiencial e emocional

Nenhuma tradição vive apenas de fórmulas. No núcleo das religiões repousam vivências subjetivas — intensas ou sutis, individuais ou coletivas.

Smart reconhecia que sentimentos de temor, reverência, paz, êxtase ou iluminação sustentam a vitalidade religiosa mais profundamente do que dogmas. As epifanias místicas — de Buda sob a árvore Bodhi aos relatos de Teresa d’Ávila — são momentos fundadores que irradiam significado para toda a tradição.

3. Dimensão narrativa ou mítica

Experiências e rituais só fazem sentido quando enquadrados por narrativas.

O mito, aqui, não significa ficção, mas história sagrada dotada de verdade paradigmática. São narrativas sobre a criação, o destino humano, o cosmos e os grandes personagens: o Gênesis hebraico, os épicos hindus, as vidas anteriores do Buda. Elas fornecem um horizonte interpretativo que orienta a vida individual e coletiva.

4. Dimensão doutrinal e filosófica

A religião também pensa.

Essa dimensão transforma narrativas em conceitos, interpretações e sistemas teológicos. Trata-se do domínio em que credos são formulados, controvérsias são dirimidas e a ortodoxia é estabelecida — dos concílios cristãos às escolas filosófico-religiosas indianas ou budistas. As Quatro Nobres Verdades ou a doutrina da Trindade exemplificam essa formalização intelectual.

5. Dimensão ética e legal

Da reflexão emerge uma prática moral.

Esta dimensão traduz crenças e cosmologias em normas concretas de conduta — a Halakhah judaica, a Sharia islâmica, o Vinaya budista, o Sermão da Montanha. Assim, regula-se a relação com o divino, o próximo e a sociedade, permitindo que valores religiosos se encarnem na vida cotidiana.

6. Dimensão Social e Institucional

Nenhuma religião é puramente interior.

A dimensão social examina a organização da comunidade, a autoridade religiosa, as instituições e práticas de coesão. Desde a Ummah islâmica até as igrejas cristãs, sanghas budistas e comunidades judaicas, essa dimensão mostra como a religião molda identidades coletivas, produz lideranças e sustenta estruturas de transmissão.

7. Dimensão material

Smart incluiu mais tarde a dimensão material, reconhecendo o papel decisivo da materialidade na vida religiosa: templos, ícones, relíquias, objetos rituais, paisagens sagradas, arte sacra.

A materialidade não é mero adorno: ela corporifica crenças. Catedrais góticas revelam visões teológicas; mesquitas ornamentadas refletem uma estética sacralizada; rios e montanhas, como o Ganges ou o Fuji, tornam-se lugares de acesso ao sagrado.

A inclusão desta dimensão restitui à religião seu caráter sensorial, espacial e estético, frequentemente negligenciado por análises demasiado racionalistas.

O alcance analítico do modelo

Comparação estrutural. O modelo permite comparar tradições não por elementos isolados, mas por dimensões inteiras. Por exemplo, é possível cotejar a dimensão ritual do Xintoísmo com a do Protestantismo, ou a dimensão ética do Judaísmo Ortodoxo com a do Confucionismo.

Identificação de ênfases. Algumas tradições privilegiam uma dimensão específica. O Theravada, por exemplo, valoriza a experiência meditativa e a elaboração doutrinal; já o Judaísmo enfatiza a prática ritual e o arcabouço ético-legal.

Aplicação a ideologias seculares. Smart propunha aplicar o modelo também a ideologias e movimentos seculares — nacionalismo, marxismo, certos movimentos políticos. Cada um deles demonstra doutrinas, mitos fundadores, rituais cívicos, símbolos materiais e instituições.

Comparação com outras abordagens

O esquema de Smart, majoritariamente fenomenológico, distingue-se de outras abordagens clássicas e contemporâneas das ciências da religião.

Estudos comparativos clássicos. Enquanto comparações tradicionais isolavam temas específicos, Smart ofereceu um mapa holístico que permite cotejar tradições em múltiplos registros simultâneos. Os comparativistas tendiam a utilizar as religiões abraâmicas como padrão de medida comparativa — enfocando especialmente aspectos de crença, algo que pode não ser relevante em outras religiões, como o Xintoísmo. Já a abordagem multidimensional de Smart fornece um parâmetro mais equilibrado.

Ciências cognitivas da religião (CSR). A CSR é um paradigma recente que visa explicar os mecanismos mentais que produzem crenças e práticas religiosas. Smart, ao contrário, descreve as formas culturais já cristalizadas. Se a CSR investiga o “como” (processos cognitivos), Smart examina o “o quê” e o “por quê” da perspectiva do crente.

Religião vivida. A abordagem da religião vivida privilegia as práticas cotidianas, improvisações e negociações individuais. Smart, por sua vez, mapeia a estrutura ideal das tradições. Ou seja, a religião vivida é uma perspectiva micro, de baixo para cima, enquanto as dimensões de Smart constituem uma perspectiva macro e dedutiva.

Enquanto o modelo das dimensões funciona como a planta arquitetônica da religião, a religião vivida analisa como as pessoas realmente habitam o edifício.

A ponderar

Ninian Smart proporcionou uma cartografia robusta e não reducionista da religião. Seu modelo captura a pluralidade de manifestações religiosas sem diluí-las em definições estreitas. Ele permite observar, comparar e interpretar tradições de maneira abrangente, reconhecendo sua coerência interna, suas tensões e suas ênfases.

Em um campo frequentemente dividido entre reducionismos psicológicos, sociológicos ou dogmáticos, Smart oferece um arcabouço que devolve às religiões sua complexidade própria — intelectual, afetiva, estética, social e material. É uma ferramenta que continua útil para qualquer estudioso que deseje compreender não apenas as crenças, mas o vasto ecossistema de práticas, experiências, símbolos e instituições que compõem a vida religiosa.

Saiba Mais

FLOOD, Gavin. Beyond Phenomenology: Rethinking the Study of Religion. London: Cassell, 1999.

KING, Ursula. “Historical and Phenomenological Approaches to the Study of Religion.” In The Routledge Companion to the Study of Religion, org. John R. Hinnells, 113–132. London: Routledge, 2005.

SMART, Ninian. Dimensions of the Sacred: An Anatomy of the World’s Beliefs. London: Fontana Press, 1996.

SMART, Ninian. The World’s Religions. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

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Atualizado em 16 de fevereiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


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  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2023)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2023)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. As dimensões da religião: Ninian Smart. Ensaios e Notas, 2023. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2023/02/16/as-dimensoes-da-religiao-ninian-smart/. Acesso em: 16 fev. 2026.

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