A gravura Flammarion

Uma das mais icônicas ilustrações da visão de mundo medieval é uma obra da modernidade.

O autor desta gravura é desconhecido. No entanto, apareceu pela primeira vez no livro L’atmosphère: météorologie Populaire (1888), do astrônomo francês Camille Flammarion (1842–1925).

Aparece no capítulo intitulado A forma do céu. A legenda diz “um missionário da Idade Média conta que encontrou o lugar onde o céu e a terra se tocam…”.

Na gravura, um homem ajoelhado, com trajes de peregrino — uma longa túnica, carregando um cajado na mão esquerda e de pé na beira da terra — atravessa a abóbada celeste. Sua cabeça, os ombros e o braço direito cruzam o firmamento estrelado do céu e vê além dele um mundo fantástico de nuvens, fogos e sóis. Aparecem os ofanim, a roda dentro de uma roda, conforme descrito em uma visão do profeta bíblico Ezequiel 1:15-21.

O sol e a lua estão sob a abóbada terrestre, ou o firmamento. Uma árvore solitária (a árvore da vida?) está atrás do peregrino. No fundo da Terra, vemos várias cidades às margens de lagos.

Para além da abóbada, há vários sóis, camadas de esferas cristalinas, uma possível representação da esfera empírea, além do mencionado ofanim. Notoriamente não aparece a esfera Primum Mobile, a última camada móvel do universo, sinalizando a limitação da perspectiva humana.

Essa ilustração, ainda que do século XIX, resume a cosmovisão dominante no Ocidente cristão até a modernidade. Era uma síntese dos pensamentos de Aristóteles de Ptolomeu com interpretações tardias da Bíblia, além de relatos de viagens astrais. A terra não seria exatamente um planeta (o termo hebraico eretz não dava nome ao nosso planeta, mas significava terra firme ou solo), mas o centro do universo aonde todos os objetos se direcionariam. Várias camadas sólidas concêntricas serviriam de trilhos ou tinham em si encrustadas os astros. A raqqia, o termo hebraico para abóbada ou firmamento, não era o céu, mas um domo metálico ou cristalino que separava nosso céu visível dos céus superiores.

Havia outras cosmologias pré-modernas, como a de Cosmas Indicopleustes, mas essa gravura de Flammarion representa bem a perspectiva dominante por um milênio até a revolução copernicana.

Flammarion sabia bem retratar concisamente ideias científicas. Trabalhou no Observatório Juvissy, ao sul de Paris, também escreveu vários livros sobre ciência popular. Durante sua juventude, foi aprendiz de gravador de impressão. Por isso, é provável que tenha feito ou supervisionado a gravura para esta ilustração. Erroneamente chamada de xilogravura, trata-se na verdade de uma gravação burilada em madeira.

Atualizado em 17 de janeiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é antropólogo e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2023)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2023)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Camille Flammarion e a pluralidade dos mundos habitados. Ensaios e Notas, 2023. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2023/01/15/flammarion/. Acesso em: 17 jan. 2026.

4 comentários em “A gravura Flammarion

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