Humanos: primatas aquáticos?

Nos anais da antropologia fantástica há a teoria marginal de que os humanos evoluíram de um habitat original aquático.

Nomenclatura: Homo aquaticus. Homo litoralis.

A teoria também é chamada em português de hipótese do macaco aquático. Porém, macaco não é uma boa tradução para os grandes primatas, aos quais caberia melhor a designação símios. Portanto, hipótese do símio aquático.

Devaneios teóricos

Max Westenhöfer (1871 –1957) era o típico erudito alemão. O patologista pupilo de um dos pioneiros da antropologia alemã, Rudolf Virchow, sentia-se confiante para dar seus palpites sobre a origem da humanidade. Depois de uma malfadada estada no Chile, Westenhöfer começou a disseminar suas ideias com base na anatomia. Em 1942 publicou-as em poucas páginas de seu livro. Descartou a proximidade filogenética entre humanos com outros primatas atuais. Antes, os humanos evoluíram dos anfíbios e salamandras. (Algo que explica o semblante de Innsmouth, cá com meus botões lovecraftianos).

De modo independente, o quase contemporâneo de Westenhöfer, o biólogo marinho Alister Hardy (1896 – 1985), notou a semelhança da gordura subcutânea humano e os mamíferos marinhos. Ambientes lacustres, pantanosos e ribeirinhos seriam ideais, mas não se descartaria um passado marítimo.

Impressões do popular livro The Naked Ape (1967) de Desmond Morris deu lenha para a hipótese. A ideia acabou encampada por uma antropóloga nos anos 1970, Elaine Morgan (1920 – 2013), mas sem maior tração entre seus pares. Recentemente, o divulgador científico David Attenborough retomou a hipótese.

Pontos a ponderar

  • Gordura subcutânea. Em comum com os mamíferos aquáticos (baleias, golfinhos, focas e peixes-boi), o ser humano é o único mamífero terrestre a ter um tecido adiposo subcutâneo pronunciado (camada de gordura) que também tem efeito isolante de calor. Para ter uma ideia, a camada de gordura de outros primatas parecem com a parte de cima de nossas mãos: bastante tecido conjuntivo, tendões e pouca gordura entre a pele e o músculo. Levando em conta que somos os menos peludos primadas, alguma forma de reter calor tivemos que desenvolver.
  • Perda de pelos corporais. As variantes humanas e a adaptação de grupos clinais estáveis em zonas determinadas contradizem a interpretação de que essa característica tenha origens em um passado aquático.
  • Reflexo de mergulho em bebês humanos. Temos de admitir que somos os melhores nadadores entre os primatas. Todavia, nada extraodinário para uma espécie gestada por nove meses em um meio líquido e que explora meios aquáticos.
  • Sindactilia. Uma suposta incidência vestigial de uma membrana entre os dedos das mãos e dos pés. A ausência de outras características secundárias de animas aquáticos, como as guelras do personagem de Kevin Costner no sofrível filme Waterworld (1995), invalida a origem em um atavismo dessas membranas.
  • Exostose. Pequenos ossos que se formal no canal do ouvido entre pessoas com excessiva exposição à água em mergulhos e natação. Vários fósseis de primatas possuem tais ossinhos.

Quanta bobagem, mas tem algo de verdade?

Não. É mera pseudociência ou hipóteses descartadas (o próprio Westenhöfer descartou suas especulações). Não há registro fósseis para espécies antecessoras humanas com características aquáticas. Contudo, a descoberta de vários fósseis de primatas em sedimentos de origem aquáticas demonstra que houve sim espécies bem ambientadas em locais úmidos. Ainda hoje temos espécies, como os fofos macacos japoneses, com uma preferência pela água.

Há sim um gosto marcante da nossa espécie por ambientes aquáticos. E isso pode ter deixado um legado evolutivo.

Em uma defesa de mestrado em antropologia em 2001, Algis Kuliukas discutiu a hipótese de um símeo vadeador. Os grandes símios — gorilas, orangotangos e chimpanzés — andam eretos ao atravessar águas rasas. O bipedalismo dos hominídeos poderia tem raízes nisso. Em 2017 o pesquisador Allan Krill propôs a hipótese de Bioko ou do símio semi-aquático. Algum antecessor humano e próximo dos chimpanzés desenvolveu hábitos parcialmente aquáticos na África ocidental. Rhys-Evans, um cirurgião de pescoço e cabeça e pesquisador universitário, notou também a existência de exostose nos registros fósseis da humanidade. As hipóteses desses pesquisadores possuem ainda várias críticas e não tiveram uma ampla aceitação entre antropólogos.

SAIBA MAIS

Morgan, Elaine The Descent of Woman. 1972.

Morgan, Elaine. The aquatic ape. Scarborough House, 1982.

Morgan, Elaine. The naked darwinist. Leeds: Eildon Press, 2008.

Rhys-Evans, Peter. The waterside ape: An alternative account of human evolution. CRC Press, 2019.

https://www.the-scientist.com/reading-frames/did-human-evolution-include-a-semi-aquatic-phase–67306

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