Toulmin: os seis elementos de uma argumentação

Um argumento válido deve ter alguns elementos para transmitir um conhecimento com um raciocínio completo. São eles a alegação, o fundamento, algum qualificador, a evidência, alguma resposta e a justificativa.

Alegação ou tese

A alegação ou tese é o ponto principal. Busca mudar a forma como uma audiência pensa ou age.

Normalmente ocorre na forma de uma afirmativa “Sabe-se que chove bastante em março em São Paulo”.

Fundamento ou motivo

O fundamento ou motivo serve como base para a alegação. Normalmente, é precedido por um “porque” implícito: “Sabe-se que chove bastante em março em São Paulo porque registros meterológicos confirmam uma média de precipitação alta”.

Qualificador

O qualificador são restrições de situação, circunstâncias, limites de dados ou contextos. Os qualificadores lógicos (“algum, nenhum, todos”) aparecem aqui, mas por vezes há outros qualificadores.

Muito dos últimos cinquenta anos indica que chove bastante em março em São Paulo porque registros meterológicos confirmam uma média de precipitação alta”.

Substanciação, apoio ou evidência

A substanciação, apoio ou evidência ligam a alegação a uma base factual, ideológica ou axiológica comprovadas. Na substanciação é importante creditar a fonte.

“Muito dos últimos cinquenta anos indica que chove bastante em março em São Paulo porque registros meterológicos confirmam uma média de precipitação alta por volta de 200 mm, segundo o INMET.”

Refutação, reconhecimento ou resposta

Reconhece outras posições alternativas e as limitações do próprio argumento. Responde às possíveis objeções e limitações do argumento.

“Muito dos últimos cinquenta anos indica que chove bastante em março em São Paulo porque registros meterológicos confirmam uma média de precipitação alta por volta de 200 mm, segundo o INMET, apesar de outros institutos terem encontrados médias diferentes. Há ainda diferenças espaciais na cidade, com maior precipitação na Zona Sul. Além disso, não argumentamos aqui que março seja o mês mais chuvoso, o qual é janeiro.”

Justificativa ou motivação

A justificativa é a integração lógica entre a substanciação e a alegação. Muitos deixam a justificativa de lado, esperando que seja óbvia à audiência. Apesar de haver uma considerável parte de raciocínio tácito, é dever do interlocutor fazer a ponte entre evidência e alegação. Infelizmente, em argumentação jurídica, em textos científicos e nas decisões da administração pública frequentemente faltam a justificativa.

“Muito dos últimos cinquenta anos indica que chove bastante em março em São Paulo porque registros meterológicos confirmam uma média de precipitação alta por volta de 200 mm, segundo o INMET, apesar de outros institutos terem encontrados médias diferentes. Há ainda diferenças espaciais na cidade, com maior precipitação na Zona Sul. Além disso, não argumentamos aqui que março seja o mês mais chuvoso, o qual é janeiro. A média de precipitação para março manteve-se constante nos registros dos últimos 50 anos e nas escalas pluviométricas convencionadas é que acima de 100 mm pode caracterizar-se como um clima chuvoso.”

Note a diferença entre motivo (fundamento) e motivação (justificativa).

Empregos do modelo

Os três primeiros elementos — alegação, fundamento e justificativa — seriam essenciais nos argumentos práticos, enquanto os remanescentes — qualificador, apoio e refutação — constituem elementos complementares para alguns argumentos.

O modelo de argumentação de Toulmin serve para a comunicação científica quanto para a argumentação jurídica. O curioso é que seu propósito original seria oferecer um estrutura sólida para a argumentação em ética.

A nova retórica em contexto

Nos meados do século XX houve um renovo interesse pela retórica. Essa nova retórica teve como expoentes foram Chaïm Perelman, Lucie Olbrechts-Tyteca e Kenneth Burke, além de Robert Alexy e Manuel Atienza na argumentação jurídica. São projetos distintos (e até mesmo conflitantes), mas em comum valorizam a retórica por seu caráter epistêmico. Desse modo, a retórica não seria mais um instrumental de persuasão ou comunicação, mas um meio do processar informações (como a lógica) para alcançar o conhecimento.

Dentro dessa tendência o filósofo britânico Stephen Toulmin (1922-2009) mapeou as estruturas da argumentação. Seu objetivo era reviver a casuística ou a ética do caso. Assim, Toulmin (2003, 1979) encontrou um meio termo entre os extremos do absolutismo e do relativismo tanto em ética quanto na busca pelo conhecimento.

SAIBA MAIS

Karbach, Joan. “Using Toulmin’s model of argumentation.” Journal of Teaching Writing 6.1 (1987): 81-92.

Toulmin, Stephen; Rieke, Richard D.; Janik, Allan. An introduction to reasoning. Macmillan, 1979.

Toulmin, Stephen. The uses of argument. Cambridge: Cambridge University Press, 2003 [1948; 1958].

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