O Discurso de Martin Kimani

Discurso de Martin Kimani, embaixador do Quênia à ONU, na sessão de emergência do Conselho de Segurança da ONU sobre a situação na Ucrânia em 22 de fevereiro de 2022.

Encontramo-nos esta noite à beira de um grande conflito na Ucrânia. A diplomacia que pedimos em 17 de fevereiro está falhando. A integridade territorial e a soberania da Ucrânia estão sendo violadas. A Carta das Nações Unidas[1] continua a murchar sob o ataque implacável dos poderosos. Em um momento ela é invocada com reverência pelos mesmos países que depois lhe dão as costas em busca de objetivos diametralmente opostos à paz e segurança internacionais.

Nas duas últimas reuniões sobre a situação na Ucrânia e o aumento das forças da Federação Russa, o Quênia pediu uma chance à diplomacia. Nosso clamor não foi atendido. E, mais importante, a exigência da Carta para que os Estados resolvam suas disputas internacionais por meios pacíficos de tal maneira que a paz, a segurança e a justiça internacionais não sejam ameaçadas foi profundamente prejudicada.

Hoje, a ameaça ou uso da força contra a integridade territorial e a independência política da Ucrânia foi efetivada. O Quênia está seriamente preocupado com o anúncio feito pela Federação Russa de reconhecer as regiões de Donetsk e Luhansk da Ucrânia como estados independentes. Em nossa visão ponderada, esta ação e anúncio viola a integridade territorial da Ucrânia.

Não negamos que possa haver sérias preocupações de segurança nessas regiões. Mas eles não podem justificar o reconhecimento de hoje dessas regiões como estados independentes – não quando existem várias vias diplomáticas disponíveis e em andamento que têm a capacidade de oferecer soluções pacíficas.

Essa situação ecoa nossa história. O Quênia e quase todos os países africanos nasceram com o fim do império. Nossas fronteiras não eram de nosso próprio desenho. Elas foram desenhadas nas distantes metrópoles coloniais de Londres, Paris e Lisboa, sem se importar com as nações antigas que ficaram separadas.

Hoje, além da fronteira de cada país africano, vivem nossos compatriotas com quem compartilhamos profundos laços históricos, culturais e linguísticos. Na independência, se tivéssemos escolhido perseguir Estados com base na homogeneidade étnica, racial ou religiosa, ainda estaríamos travando guerras sangrentas muitas décadas depois.

Em vez disso, concordamos em nos contentar com as fronteiras que herdamos, mas ainda buscaríamos a integração política, econômica e legal do continente. Em vez de formar nações que sempre olharam para trás na história com um saudosismo perigoso, escolhemos esperar uma grandeza que nenhuma de nossas muitas nações e povos jamais conheceu. Escolhemos seguir as regras da Organização da Unidade Africana e a Carta das Nações Unidas, não porque nossas fronteiras nos satisfaziam, mas porque queríamos algo maior, forjado na paz.

Acreditamos que todos os estados formados a partir de impérios que ruíram ou recuaram têm muitos povos neles que anseiam por integração com povos de estados vizinhos. Isso é normal e compreensível. Afinal, quem não quer unir-se a seus irmãos e estabelecer com eles propósitos comuns? No entanto, o Quênia rejeita que tal anseio seja alcançado pela força. Devemos completar nossa recuperação das cinzas dos impérios mortos de uma forma que não nos volte a mergulhar em novas formas de dominação e opressão.

Rejeitamos o irredentismo e o expansionismo em qualquer base, incluindo fatores raciais, étnicos, religiosos ou culturais. Nós o rejeitamos novamente hoje. O Quênia registra sua forte preocupação e oposição ao reconhecimento de Donetsk e Luhansk como estados independentes. Além disso, condenamos veementemente a tendência nas últimas décadas de Estados poderosos, incluindo membros deste Conselho de Segurança, violarem o direito internacional com desprezo.

O multilateralismo está em seu leito de morte esta noite. Foi assaltado hoje como tem sido por outros estados poderosos no passado recente. Apelamos a todos os membros para apoiarem o Secretário-Geral ao pedir-lhe que nos una ao padrão que defende o multilateralismo. Apelamos também a que exerça os seus bons ofícios para ajudar as partes interessadas a resolver esta situação por meios pacíficos.

Permita-me concluir, Sr. Presidente, reafirmando o respeito do Quênia pela integridade territorial da Ucrânia dentro de suas fronteiras internacionalmente reconhecidas.


[1] A Carta das Nações Unidas é o tratado multilateral que estabeleceu as Nações Unidas, redigido em 1941 e colocado em vigor em 1945.

Fonte: https://www.americanrhetoric.com/speeches/martinkimaniunitednationsrussiaukraine.htm

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