Gustav Meyrink: O Golem

Em Praga, na virada do século XX, um homem troca de chapéu com um desconhecido e perde, com esse gesto banal, o fio que o ligava a si mesmo. Esse é o ponto de partida de O Golem (1915), o único romance que Gustav Meyrink publicaria antes de se tornar uma figura central da literatura ocultista europeia.

Não é um romance de terror. A criatura de argila que lhe dá nome aparece poucas vezes e, quando surge, é difusa — uma luz que percorre as ruelas, uma presença sem contorno. O que Meyrink construiu, ao longo de anos de serialização (1913–1914) e revisão, é uma arqueologia da alma: uma obra em que a cidade, os personagens e a própria narrativa funcionam como camadas de um único e instável ser interior.

O narrador e o sonho

A estrutura do livro é, ela mesma, uma demonstração de sua tese central. Existe um narrador sem nome que, ao adormecer, desliza para dentro de um sonho e passa a ser Athanasius Pernath — entalhador de pedras preciosas, restaurador de arte e morador de um quarto em ruínas no gueto de Praga de três décadas antes.

O chapéu trocado, que abre o livro, funciona como emblema: a identidade é um objeto que pode ser posto e retirado, ou perdido em uma rua qualquer. Pernath vive mergulhado em amnésia; não recorda sua origem nem sabe ao certo quem era antes. Seu nome carrega, em grego, o sentido de “imortal” — um sinal de que sua busca não é biográfica, mas ontológica. A narrativa que se segue é elíptica, com fragmentos de sonho sobrepondo-se a encontros que talvez sejam reais. Meyrink não separa os dois planos, usando essa dissolução como método para que o leitor experimente a mesma desorientação de Pernath.

A criatura e o coletivo

O Golem da lenda — o ser de argila animado pelo Rabi Loew para proteger os judeus de Praga — não é, no romance, um monstro perseguidor. Meyrink o convoca como figura do inconsciente coletivo. Diz-se que a criatura reaparece no gueto a cada 33 anos, percorrendo as ruas sem destino e sem palavra.

Essa periodicidade é menos sobrenatural do que psíquica: o Golem materializa a massa de sofrimento, medo e desejo acumulado por gerações de habitantes. É a memória da comunidade tomando forma — uma forma que ninguém pode controlar porque ninguém a criou de maneira consciente. Como descreve a leitura do romance: “O Golem não aterroriza por ser forte. Aterroriza por ser familiar — é o que a comunidade depositou nele sem saber”.

Essa interpretação aproxima Meyrink de conceitos que a psicologia de profundidade viria a sistematizar. O romance foi publicado no mesmo período em que Freud e Jung elaboravam as noções de inconsciente e de sombra. Embora Meyrink trabalhasse a partir de fontes esotéricas — a Cabala, a alquimia e o Tarô —, suas intuições convergem para a ideia do Golem como a sombra coletiva: o que o grupo sabe sobre si, mas recusa a reconhecer.

O gueto como psique

Meyrink escreveu o romance enquanto o gueto histórico de Praga estava sendo demolido. A Finis Ghetto, a liquidação do bairro judeu medieval, era um projeto urbanístico que apagava uma ordem espacial de séculos. Essa demolição atravessa o texto de maneira oblíqua: o gueto descrito é um labirinto de vielas sem saída, porões escuros e janelas que não levam a nenhum exterior reconhecível.

O espaço não é decorativo; ele espelha o estado psíquico dos personagens. As ruelas tortuosas e as câmaras subterrâneas que Pernath descobre funcionam como um mapa interior. Descer ao porão é descer ao passado não processado; perder-se nas ruelas é perder-se no labirinto da própria memória. A cidade e a alma são uma mesma coisa, escritas em materiais diferentes.

Os personagens como funções

Os habitantes do gueto que cercam Pernath representam facetas de um único processo, funcionando mais como princípios em tensão do que como caracteres realistas:

  • Schemajah Hillel: o sábio judeu que conduz a iniciação de Pernath. Representa a orientação espiritual e o conhecimento assimilado no tempo certo.
  • Aaron Wassertrum: o negociante de sucata e antagonista. Representa a vontade de poder e a ganância sem dimensão interior — a antítese do caminho de Pernath.
  • Rosina: uma jovem que personifica a sexualidade não domesticada, uma força que circula pelo texto sem se deixar capturar por códigos morais.
  • Miriam Hillel: filha de Hillel, representa um ideal de pureza e o destino da jornada espiritual.
  • Innocence Charousek: um estudante obcecado pelo ódio e pela vingança. Ele é a vontade destrutiva operando com eficiência, mas limitada pela negação.
  • Amadeus Laponder: um sonâmbulo que canaliza vozes alheias, tornando visível a tese de que as almas são porosas e o indivíduo é apenas uma condensação temporária de algo mais amplo.

A trama como iniciação

A trama segue o esquema de uma iniciação esotérica. Pernath é convocado por um estranho para restaurar um livro antigo e acaba envolvido em intrigas e vinganças. Ele desce a câmaras subterrâneas, é preso injustamente e emerge transformado.

O modelo organizacional é o da Cabala: descida ao submundo, confronto com o duplo de si mesmo e ressurgimento como “outro”. Cada encontro de Pernath é um aspecto de seu próprio psiquismo. O próprio Golem é reconhecido por ele com um estremecimento de familiaridade: não há monstro externo, há apenas projeção.

Destino, livre-arbítrio e a herança gnóstica

O livro explora a tensão entre fatalismo e agência. Os personagens parecem aprisionados em ciclos de culpa e reencarnação, uma visão que deriva do gnosticismo: a matéria como prisão e a libertação ocorrendo pelo reconhecimento de verdades latentes. A amnésia de Pernath é a condição do homem comum, que repete padrões cujas origens não alcança. A jornada é, portanto, uma busca pelas estruturas do ser.

Estilo e linguagem

Inserido no expressionismo literário, Meyrink utiliza uma prosa densa e concentrada. As cenas oníricas escorregam para a realidade sem aviso, exigindo que o leitor trabalhe para distinguir os planos. Essa desorientação é proposital e faz parte do conteúdo da obra.

O sucesso foi imediato, vendendo mais de 200 mil cópias na época. Grandes nomes como H.P. Lovecraft e Jorge Luis Borges citaram a obra como referência. A influência de Meyrink na ficção especulativa do século XX é vasta, desde a estrutura de sonhos sobrepostos até o uso do espaço urbano como espelho da mente.

As adaptações cinematográficas do mito do Golem — em especial a série de filmes expressionistas de Paul Wegener,
com destaque para Der Golem, wie er in die Welt kam (1920) — derivam da lenda, e não diretamente do romance
de Meyrink. O livro foi adaptado para o cinema em 1979 e para o teatro em 2013. A demolição do gueto judaico de
Praga, que fornece o pano de fundo histórico da obra, ocorreu entre 1895 e 1913 — durante o período em que
Meyrink vivia na cidade e concebia o romance.

O despertar e a pergunta que fica

No final, o narrador acorda e o sonho de Pernath termina — ou talvez Pernath fosse o sonho. Ao visitar o local onde o gueto existia, o narrador encontra Pernath e Miriam na vida real, mas eles não o reconhecem. O homem que viveu o sonho agora habita o “fora”, enquanto o narrador permanece exilado de sua experiência mais profunda.

Meyrink não oferece respostas fáceis. O romance encerra questionando a natureza do “eu” e o que sobrevive quando a memória desaparece. O Golem permanece como a resposta possível: uma forma que carregamos sem saber, moldada por séculos de existências que vieram antes de nós.

Atualizado em 17 de fevereiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2021)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2021)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Gustav Meyrink: O Golem. Ensaios e Notas, 2021. Disponível em:

Gustav Meyrink: O Golem
. Acesso em: 17 fev. 2026.

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