Em 1741, em Leipzig, apareceu anonimamente um livro latino de título enigmático: Nicolai Klimii Iter Subterraneum. O autor era Ludvig Holberg (1684–1754) — já célebre como dramaturgo e professor de metafísica em Copenhague — mas seu nome não figurava na folha de rosto. A omissão não era casual. A Dinamarca-Noruega vivia sob o reinado absolutista de Christian VI (1730–1746), período marcado pelo pietismo luterano rigoroso, pela vigilância moral e pela censura estatal. Publicar uma sátira que ironizava dogmas religiosos, intolerância confessional, papéis de gênero e estruturas de poder poderia ser considerado subversivo. Leipzig oferecia distância geográfica e relativa segurança política.
A escolha do latim — numa época em que o romance já prosperava nas línguas vernáculas — foi igualmente estratégica. Holberg visava um público erudito europeu e buscava circulação internacional. O resultado foi notável: entre 1741 e 1742 surgiram traduções quase simultâneas para dinamarquês, alemão, francês, holandês e inglês. O romance tornou-se um fenômeno editorial transnacional do Iluminismo escandinavo. Como argumenta Thomas Velle (2018), trata-se de um texto “nascido traduzido”, concebido desde o início para viajar entre línguas e culturas.
Mas a ambição cosmopolita não é apenas editorial. Ela estrutura o próprio romance, que opera na intersecção de múltiplos gêneros: viagem imaginária, sátira menipeia, romance utópico e distópico, e proto-ficção científica.

A descida: cosmologia e ficção científica nascente
O protagonista, Niels Klim, é um recém-graduado — pobre — em teologia pela Universidade de Copenhague, residente em Bergen, Noruega, no ano de 1664. Movido por curiosidade geológica, desce a uma caverna no Monte Fløyen. O gesto científico conduz ao acidente fantástico: ele atravessa a crosta terrestre.
Klim descobre que a Terra é oca. No interior há um sol central; ao seu redor orbita um planeta, Nazar. Diferentemente das descidas mitológicas — Orfeu ou Dante — Holberg oferece uma cosmologia fisicamente coerente, ainda que fantástica. Há mecânica planetária, órbitas, estrutura cósmica racionalizada. Nesse aspecto, o romance alinha-se a Kepler (Somnium) e Cyrano de Bergerac, antecipando desenvolvimentos da ficção científica do século XIX. A hipótese da Terra Oca deixa de ser mero artifício alegórico e torna-se cenário funcional.
Potu: lentidão, igualdade e anti-dogmatismo
Ao chegar a Nazar, Klim é capturado pelos habitantes de Potu: árvores sencientes e móveis. São racionais, deliberativas, inclinadas à filosofia. Sua ética funda-se na moderação, na lentidão e na fidelidade à própria natureza (sui-similis). A rapidez de Klim em aprender a língua local é interpretada não como inteligência, mas como superficialidade — “juízo obtuso e miserável”. Pensar depressa é pensar mal.
A capital chama-se Potu — inversão de “Utopia” — gesto que inscreve o livro na linhagem de Thomas More (1516), Francis Bacon (Nova Atlântida, 1627) e Jonathan Swift (Gulliver’s Travels, 1726). Holberg adota o dispositivo da viagem imaginária para construir crítica social, mas o faz sob o registro da sátira menipeia: alternância de prosa e versos, diálogos filosóficos, ambiguidade irônica que mina a autoridade do discurso sério por meio do riso e da fantasia.
A sociedade potuana é uma monarquia esclarecida fundada na razão, na moderação e numa meritocracia radical. O acesso aos cargos públicos depende de certificados emitidos pelos Karatti, inspetores que avaliam “virtude e habilidade”, não sexo. A igualdade de gênero é prática institucional, não mera abstração.
Quando Klim, ofendido por essa organização, peticiona ao rei para remover mulheres do serviço público, a proposta é rejeitada como tola e perigosa. O príncipe declara ser irracional desqualificar metade da população do Estado. Trata-se de um dos argumentos mais progressistas do início do século XVIII — antecipando em mais de meio século a defesa iluminista de Mary Wollstonecraft (Vindication of the Rights of Woman, 1792). Holberg sustenta que virtudes tidas como “masculinas” — razão, coragem — são construções sociais. Se mulheres parecem menos racionais, a causa é educação deficiente, não natureza.
Potu também encena uma crítica religiosa incisiva. Discussões sobre a natureza divina são proibidas; é vedado explicar metafisicamente os livros sagrados. Metafísicos fanáticos são internados em hospitais psiquiátricos e submetidos a sangrias terapêuticas. A sátira é transparente: guerras religiosas europeias, perseguição a hereges, ortodoxias sectárias. A lentidão deliberativa dos Potuanos simboliza anti-dogmatismo iluminista; a pressa de Klim, preconceito.
Como punição por sua proposta misógina, Klim é exilado para o “Firmamento”, a superfície interna da crosta terrestre.
Martinia: moda, bolhas e “project-makers”
No Firmamento, Klim encontra Martinia, uma república de macacos obcecada por moda, novidade superficial e especulação — os project-makers. Ele inventa a peruca e desencadeia uma dinâmica social reveladora: ao restringir o uso aos nobres, cria corrida por títulos; ao democratizar o acessório, provoca saturação e perda de valor. A narrativa funciona como alegoria precoce de bolhas especulativas e crises financeiras, antecipando reflexões que só ganhariam formulação sistemática com Adam Smith (A Riqueza das Nações, 1776).
A economia política de Holberg satiriza o consumo conspícuo e valoriza o trabalho produtivo. A sociedade de Martinia é uma distopia da moda, um espelho caricatural da cultura europeia emergente.
Quama: colonialismo e tirania
Em Quama vivem os Quamitas, únicos humanoides do subsolo. Habitam um estado de natureza próximo ao ideal do “bom selvagem”. É aqui que a narrativa assume tonalidade sombria.
Klim introduz pólvora e armas de fogo. Organiza exército, conquista territórios, funda a “Quinta Monarquia” — proclamando superioridade sobre os impérios Assírio, Persa, Grego e Romano. A tecnologia torna-se instrumento de violência. O “civilizador” revela-se tirano cruel, assassinando rivais — como o príncipe Timuso — e oprimindo povos conquistados.
A alegoria do colonialismo é direta. Holberg desmonta a retórica civilizatória que, séculos depois, Kipling chamaria de “fardo do homem branco”. A missão imperial aparece como projeto de poder egoísta. A queda é inevitável: rebelião, fuga, nova queda por fenda geológica, ejeção à superfície de Bergen.
Doze anos se passaram. Por falar quamitano, Klim é confundido com o Judeu Errante. O prefeito Abelin o acolhe e registra seu relato — num “Suplemento de Abelin” que atesta a veracidade do manuscrito, mas cuja seriedade é evidentemente paródica. A autoridade documental é subvertida.
Klim termina os dias como humilde sacristão e diretor de escola (college principal) em Bergen. Vive em silêncio, mas assombrado pela nostalgia do poder perdido. O herói colonial retorna não glorificado, mas diminuído; a civilização que impôs revela-se mais bárbara do que a suposta selvageria dos Quamitas.
Metaficção e pedagogia do leitor
Holberg emprega dispositivos narrativos sofisticados. O narrador é não confiável: vaidoso, preconceituoso, frequentemente ridicularizado. Sua ofensa à “matrona” árvore e seu choque com a igualdade de gênero expõem suas limitações culturais. O leitor é compelido a julgá-lo, não a identificarse com ele.
O texto alterna entre historia (verdade factual) e fabula (ficção moral), tematizando constantemente sua própria ficcionalidade. Essa oscilação constitui uma pedagogia crítica: o romance ensina a desconfiar de autoridades — inclusive da autoridade narrativa. Segundo Velle, não se trata de exemplo tardio de gêneros estabelecidos, mas de obra que questiona continuamente sua própria autoridade genérica, instaurando uma “tradição transgenérica” metaficcional.
Em comparação com Swift, cuja misantropia culmina na rejeição da humanidade por Gulliver, Holberg preserva moderação. A correção moral advém da autoconsciência, não do desprezo absoluto.
Tensões do Iluminismo escandinavo
No contexto do Iluminismo escandinavo, o romance encarna múltiplas tensões:
- Cosmopolitismo vs. identidade nacional: escrito em latim por autor dinamarquês-norueguês, publicado na Alemanha, traduzido para várias línguas vernáculas.
- Razão vs. fantasia: elementos fantásticos a serviço de argumentos racionalistas.
- Crítica vs. conservação: ataque a dogmas religiosos e sociais dentro da moldura de uma monarquia esclarecida moderada (Potu).
Intelectualmente, a obra situa-se entre a Revolução Científica (Newton, Kepler) e o Alto Iluminismo (Voltaire, Rousseau). O romance funciona como laboratório filosófico empirista: múltiplas sociedades subterrâneas operam como experimentos comparativos — antecipando práticas da antropologia cultural e ecoando o empirismo de Locke.
Contribuições à História das Ideias
- Igualdade de gênero: argumento racional contra a exclusão feminina do espaço público; precede Wollstonecraft.
- Relativismo cultural: sociedades apresentadas como experimentos filosóficos comparativos.
- Crítica ao colonialismo: desmontagem da narrativa civilizatória e antecipação de críticas pós-coloniais.
- Epistemologia: ênfase na dúvida metódica, no anti-dogmatismo e na valorização da experiência.
- Economia política: sátira às bolhas especulativas e reflexão sobre valor e trabalho produtivo.
Nicolai Klimii Iter Subterraneum é obra singular do Iluminismo europeu. Publicado anonimamente sob regime absolutista pietista, escrito em latim para circular além das fronteiras nacionais, estruturado como viagem imaginária, sátira menipeia e proto-ficção científica, o romance utiliza a fantasia especulativa para interrogar as certezas de seu tempo.
Mediante da queda, ascensão e nova queda de Niels Klim, Holberg propõe uma pedagogia da tolerância, da autoconsciência crítica e da moderação. Intolerância religiosa, desigualdade de gênero, colonialismo, especulação econômica e abuso de poder político são examinados sob a luz de um sol subterrâneo — metáfora luminosa para o exame racional das paixões humanas.
SAIBA MAIS
GUNDERSEN, Karin. Den gamle retorikken og Holberg: Niels Klim. Edda, Oslo, 1987.
DAMGAARD, Bodil. Niels Klim i vår tid: Holberg i nye bilder. Numer: tidsskrift for tegning, illustrasjon og bokkunst, [s. l.], 2014.
ALBERTSEN, Leif Ludwig. Niels Klim 1789: med billeder af Abildgaard.
VELLE, Thomas. Ludvig Holberg’s Mobile Novel Niels Klim’s Travels Underground (1741-1745): A Functionalistic Approach to its Place in European Literary History. 2018. Dissertação (Doutorado em Literatura) – Ghent University, Bélgica, 2018. Disponível em: https://biblio.ugent.be/publication/8561408.
Atualizado em 11 de fevereiro de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
Como citar esse texto no formato ABNT:
- Citação com autor incluído no texto: Alves (2021)
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. A jornada subterrânea de Niels Klim. Ensaios e Notas, 2021. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2021/02/11/a-jornada-subterranea-de-niels-klim/. Acesso em: 11 fev. 2026.

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