Bronisław Malinowski publicou Magic, Science and Religion em 1954, reunindo ensaios escritos ao longo de sua carreira como antropólogo de campo. A obra parte de uma constatação aparentemente simples: não existe povo humano, por mais rudimentar que seja sua organização social, sem alguma forma de magia, religião e conhecimento empírico. Essa afirmação, porém, carregava uma consequência teórica profunda. Ela exigia que a antropologia abandonasse a ideia, então corrente, de que as sociedades “primitivas” viviam mergulhadas exclusivamente no misticismo, incapazes de observação racional do mundo.
Malinowski chegou a essa conclusão depois de anos de pesquisa nas ilhas Trobriand, arquipélago da Melanésia, onde conviveu com pescadores, agricultores e artesãos. Ali, observou que os nativos distinguiam com clareza dois domínios: o sagrado, governado pelo rito e pela crença, e o profano, regido pela experiência e pela técnica. Um agricultor trobriandês sabia selecionar as sementes, calcular o tempo de cada etapa do cultivo e reconhecer a qualidade do solo. Esse saber não era mágico. Era prático, transmitido e testado ao longo de gerações. A magia entrava em cena apenas onde o conhecimento técnico acabava: nas pragas inesperadas, nas secas imprevisíveis, nos caprichos do clima. A linha divisória entre os dois domínios era traçada, precisamente, pelo limite da competência humana.
Uma analogia ajuda a entender essa distinção. Imagine dois pescadores: um trabalha num lago interior, onde conhece cada metro do fundo, o comportamento dos peixes e as correntes de água. O outro sai ao mar aberto, onde tempestades chegam sem aviso e os cardumes aparecem ou desaparecem sem razão aparente. O primeiro prescinde de rituais; o segundo os pratica com fervor. Malinowski documentou exatamente esse contraste nas Trobriand. A pesca na lagoa interna, segura e previsível, não gerava magia. A pesca no mar aberto, cheia de perigo e incerteza, era acompanhada de extensos rituais para garantir proteção e bons resultados. A magia não substituía a perícia; ela cobria o que a perícia não alcançava.
Essa observação situava Malinowski em oposição direta a Lucien Lévy-Bruhl, que sustentava ser o pensamento primitivo fundamentalmente “pré-lógico”, incapaz de raciocínio consistente e de abstração. Para Malinowski, essa posição era empírica e filosoficamente insustentável. Os trobriandeses construíam canoas com precisão técnica notável, ajustavam a largura do outrigger segundo princípios hidrodinâmicos que sabiam articular verbalmente e orientavam expedições marítimas por meio de constelações e coordenadas mentais. Esse não era o comportamento de uma mente dominada pelo misticismo. Era, em forma rudimentar, o mesmo impulso que produz a ciência.
O problema, então, não era se os povos não ocidentais possuíam razão; evidentemente possuíam. O problema era entender por que, ao lado de um conhecimento empírico robusto, sustentavam práticas mágicas. A resposta de Malinowski é funcionalista: a magia existe porque supre uma necessidade psicológica real. Quando o esforço humano se depara com o imprevisível, quando a técnica não basta e o resultado permanece incerto, o organismo humano reage com tensão emocional intensa. A magia ritualiza essa tensão. Ela oferece ao homem uma série de atos e crenças prontos que lhe permitem agir com confiança mesmo diante do incontrolável. Malinowski a definiu como a ritualização do otimismo humano: a afirmação de que a esperança pode vencer o medo e que o desejo tem poder sobre o acaso.
Essa função psicológica distingue a magia da ciência. Ambas têm objetivos práticos e desenvolvem técnicas específicas, mas seus fundamentos diferem. A ciência nasce da experiência, é corrigida pela observação e aberta à comunidade; a magia nasce da tradição, é impermeável à refutação e transmitida em linhagens restritas. A ciência busca leis naturais; a magia pressupõe uma força mística e impessoal, chamada mana pelos melanésios, wakan pelos dakotas, orenda pelos iroqueses. O que Malinowski ressalta é que essas duas esferas coexistem sem se misturar na prática cotidiana. O nativo que invoca a magia sobre sua canoa sabe que a canoa precisa, antes de tudo, ser bem construída.
A religião ocupa um lugar distinto nesse esquema. Enquanto a magia é uma arte prática com fins definidos — curar uma doença, garantir uma colheita, vencer uma batalha — a religião é uma forma de relação com o sobrenatural que tem valor em si mesma. Os rituais religiosos não são meios para objetivos externos; são, eles próprios, o fim. O luto pelos mortos, as cerimônias de iniciação, o culto aos ancestrais: todos expressam e fortalecem atitudes mentais coletivas como a reverência à tradição, a coragem diante da morte e a solidariedade do grupo. A religião cumpre, portanto, uma função social que a magia não tem.
Malinowski também se engajou com as teorias de seus predecessores. Edward Tylor havia proposto que a religião primitiva se originava no animismo: a tendência humana de atribuir alma a todos os seres, a partir de reflexões sobre sonhos e visões. Sir James Frazer, em The Golden Bough, havia distinguido a magia da religião pelo critério do controle direto versus a súplica a forças superiores. Émile Durkheim havia identificado o sagrado com o social, argumentando que a força do totem era, em última análise, a força da coletividade sobre o indivíduo. Malinowski reconheceu o valor de cada uma dessas perspectivas, mas apontou os limites de todas. Tylor tornava o homem primitivo excessivamente contemplativo e racional; Frazer projetava categorias ocidentais sobre culturas que as articulavam de forma diferente; Durkheim dissolvia a experiência individual numa abstração sociológica que o dado etnográfico não sustentava.
A crítica mais persistente ao trabalho de Malinowski veio precisamente dessa tensão entre observação particular e teoria geral. Toda a sua pesquisa de campo foi realizada nas Trobriand, e as generalizações que extraiu dali nem sempre se confirmaram em outras culturas. Stanley Tambiah, em obra de 1990, argumentou que a tripartição entre magia, ciência e religião refletia preocupações ocidentais e não necessariamente realidades indígenas. Murray e Rosalie Wax sustentaram, em artigo de 1963 na Current Anthropology, que a caracterização invejavelmente negativa da magia nas ciências sociais herdava uma hostilidade judaico-cristã ao fenômeno mágico, hostilidade que nada tinha de universal. A magia, para esses críticos, não seria uma pseudociência nem uma religião inferior; seria uma visão de mundo com lógica própria.
A linguagem de Malinowski também envelheceu mal. Termos como “selvagem” e “primitivo” atravessam o texto com uma naturalidade que hoje é impossível ignorar. Eles revelam o horizonte colonial dentro do qual a antropologia nasceu, horizonte que o próprio Malinowski nunca abandonou inteiramente, apesar de sua metodologia inovadora. Passar meses vivendo entre os trobriandeses, aprender sua língua, participar de suas atividades cotidianas — isso representou uma ruptura com o antropólogo de gabinete que tirava conclusões de relatos de viajantes. Mas a ruptura metodológica não apagou os pressupostos teóricos que hierarquizavam culturas.
O que resta, passadas décadas e muitas críticas, é considerável. A percepção de que nenhuma sociedade humana é inteiramente “mística” ou inteiramente “racional”, de que magia e técnica podem coexistir sem contradição do ponto de vista nativo, de que a religião tem funções sociais irredutíveis ao erro cognitivo — tudo isso permanece relevante. A ciência cognitiva da religião retomou, em termos contemporâneos, a intuição central de Malinowski: os rituais mágicos funcionam como estratégias de administração da ansiedade em situações de incerteza. Essa linha de pesquisa dá nova vida a um argumento formulado no início do século XX a partir de ilhas do Pacífico.
Ler Malinowski hoje exige, portanto, duas atitudes simultâneas. É preciso reconhecer os limites de sua época e de seu lugar de enunciação. É preciso, igualmente, reconhecer o que ele viu com clareza: que a magia não é o oposto da razão, mas o seu complemento nos lugares onde ela não chega.
SAIBA MAIS
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
FRAZER, James George. The golden bough: a study in magic and religion. New York: Macmillan, 1922.
MALINOWSKI, Bronisław. Magic, science and religion: and other essays. Garden City: Doubleday, 1954. 274 p.
TAMBIAH, Stanley Jeyaraja. Magic, science, religion, and the scope of rationality. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. 187 p.
TYLOR, Edward Burnett. Primitive culture: researches into the development of mythology, philosophy, religion, art, and custom. London: John Murray, 1871. 2 v.
WAX, Murray; WAX, Rosalie. The notion of magic. Current Anthropology, Chicago, v. 4, n. 5, p. 495-518, dez. 1963.
TALMONT-KAMINSKI, Konrad; XYGALATAS, Dimitris; McCORKLE, William W. Malinowski’s magic and Skinner’s superstition: reconciling explanations of magical practices. In: XYGALATAS, Dimitris; McCORKLE, William W. (ed.). Mental culture: classical social theory and the cognitive science of religion. Durham: Acumen Publishing, 2013. p. 98-109.
Atualizado em 23 de março de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é antropólogo, pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University.
Como citar esse texto no formato ABNT:
- Citação com autor incluído no texto: Alves (2021)
- Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2021)
Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Malinowski: mágica, ciência e religião. Ensaios e Notas, 2021. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2021/01/23/malinowski-magica-ciencia-e-religiao/. Acesso em: 23 mar. 2026.

Deixe uma resposta