
Há propriedades que parecem destinadas a abrigar apenas sucessões de proprietários. Outras, porém, tornam-se recipientes de ideias — e, por vezes, de ideias que pretendem reorganizar a própria realidade. O lugar que viria a ser chamado Peace Haven, em Long Island, pertence a esta segunda categoria: um espaço onde arquitetura, crença e espetáculo social convergiram numa experiência singular do século XX.
Antes de adquirir o nome pacificador que o tornaria célebre, o imóvel — outrora parte do universo patrimonial da elite industrial americana — passou por diferentes mãos até ser comprado, em 1938, por James Bernard Schafer. Com esse gesto, a propriedade deixou de ser apenas um resíduo material da chamada Era Dourada para tornar-se laboratório de uma ambição metafísica: produzir, mediante disciplina mental e controle simbólico do ambiente, uma nova forma de existência humana.
Schafer, fundador da Royal Fraternity of Master Metaphysicians, não se apresentava como profeta, mas como “mensageiro”. A escolha do título não é trivial. O mensageiro não cria a verdade: transmite-a. Mas, como toda tradição hermenêutica nos ensina, quem transmite também interpreta — e quem interpreta organiza o mundo.
A propriedade como sistema de crença
A aquisição do antigo domínio aristocrático transformou a propriedade em retiro espiritual, centro pedagógico e palco de rituais sociais. O acesso não era livre: exigia a compra de uma “fellowship”, cujo valor cresceu rapidamente, como se a verdade metafísica obedecesse à lógica da inflação.
A confraria alegava raízes nos anos 1920 e uma expansão notável na década seguinte, reunindo milhares de adeptos, em sua maioria mulheres de meia-idade. Um círculo masculino interno, denominado “The Storks”, dedicava-se a confeccionar enxovais para gestantes necessitadas — um detalhe que, retrospectivamente, parece antecipar o episódio que daria notoriedade internacional ao grupo.
A organização expandia sua presença física. Tentou adquirir a mansão Pepperidge Hall. Comprou um edifício construído por Jay Gould na West 57th Street para transformá-lo em auditório. Assumiu um teatro e o rebatizou como Radiant Center, onde encenava peças metafísicas. O movimento funcionava, simultaneamente, como religião, empresa imobiliária, companhia teatral e sistema pedagógico.
Não surpreende que observadores contemporâneos descrevessem sua doutrina como uma mistura de rosacrucianismo, ciência cristã, cura pela fé, psicologia popular e esoterismo europeu associado a autores como Éliphas Lévi. Um sistema sincrético não é apenas um conjunto de ideias: é um método de apropriação simbólica do mundo.
O experimento da imortalidade
Em 1939, Schafer anunciou o que considerava a demonstração empírica de sua filosofia: a criação de um ser humano imortal.
A criança escolhida foi Jean Gauntt, entregue aos cuidados do grupo por sua mãe, Catherine Gauntt, que não possuía recursos para criá-la. A menina ficaria conhecida como Baby Jean.
A hipótese metafísica era rigorosamente comportamental: a mortalidade não seria condição biológica, mas efeito de condicionamento mental. Se uma mente nunca fosse exposta às ideias de doença, decadência ou morte, não internalizaria esses estados.
Assim, o ambiente tornou-se instrumento ontológico. A criança foi instalada em berçário privado, vigiada continuamente. Nenhuma palavra negativa poderia ser pronunciada em sua presença. A alimentação consistia numa dieta vegetal específica, chamada “eternity diet”. Substâncias estimulantes ou condimentadas estavam excluídas. O vocabulário do entorno foi cuidadosamente filtrado, como se a linguagem fosse uma tecnologia fisiológica.
A justificativa teórica combinava duas fontes distintas: o versículo paulino “o último inimigo a ser destruído é a morte” e a doutrina de Mary Baker Eddy, segundo a qual a morte deve ser superada, não aceita.
O objetivo final era político e escatológico: a criança tornar-se-ia líder imortal da fraternidade.
Economia simbólica e economia monetária
A organização prosperou financeiramente. Certificados de filiação eram vendidos como instrumentos de participação espiritual. Doações menores eram aceitas como “ofertas de amor”. Crianças podiam ingressar numa “cosmic network” mediante selos postais.
Alguns documentos financeiros eram emitidos em nome do “Banco Inesgotável do Infinito na Mente Universal”, datados no “Agora Eterno” e pagáveis em “Ideias e Tudo o que se Deseja”.
Quando solicitou isenção fiscal como instituição religiosa, o tribunal concluiu que o único elemento possivelmente religioso era a arrecadação de fundos.
A ruptura
O experimento durou quinze meses.
Pressões legais, processos por fraude e exigências da família levaram ao retorno da criança aos pais em dezembro de 1940. Pouco depois, surgiram acusações criminais, inclusive de grande furto. Entre os bens associados à criança havia um anel de diamante avaliado em valor considerável — um detalhe que transforma a imortalidade em questão patrimonial.
O grupo entrou em colapso financeiro. A propriedade foi executada e vendida. Schafer declarou culpa em 1942 e foi enviado à prisão de Sing Sing. O antigo retiro metafísico acabaria integrado ao campus do Dowling College.
Depois da queda
Após a libertação, Schafer fundou uma escola por correspondência dedicada à metafísica e editou uma revista especializada. Nunca recuperou a influência anterior.
Em 26 de abril de 1955, ele e sua esposa foram encontrados mortos em um carro, vítimas de envenenamento por monóxido de carbono. A nota deixada ao lado deles continha instruções detalhadas para que a filha continuasse administrando a escola. Era como se a transmissão institucional fosse mais importante que a sobrevivência biológica.
O destino da imortalidade
Relatos posteriores indicam que Jean Gauntt viveu vida comum, casou-se, teve filhos e evitou comentar sua infância extraordinária.
Talvez esse seja o desfecho mais revelador. O projeto de produzir um ser imortal terminou produzindo apenas um episódio histórico — e, como frequentemente ocorre, a história sobreviveu melhor que a promessa metafísica.
Peace Haven permanece, assim, como um artefato interpretativo da modernidade: um lugar onde riqueza herdada, esoterismo popular, espetáculo midiático e imaginação científica se combinaram numa tentativa de domesticar o único fenômeno que sempre resistiu à administração humana. A morte.
E, como qualquer leitor atento de sistemas simbólicos suspeitaria desde o início, ela continuou funcionando perfeitamente.
Questões metafísicas
Essa linhagem de “mente sobre a matéria” traça uma evolução direta da cura mental do século XIX até a espiritualidade digital contemporânea, ancorada na convicção de que o pensamento é uma força causal. Tudo começou com Phineas Quimby, que postulou que a doença era um erro mental, uma semente mais tarde formalizada como sistema religioso por Mary Baker Eddy através da Ciência Cristã. Essa corrente do Novo Pensamento ramificou-se para uma ala mais secularizada e psicológica. Em um canto, pastores reformados como Norman Vincent Peale (que fundiu teologia com psiquiatria) e Robert H. Schuller (o arquiteto do “pensamento de possibilidade”) deslocaram o foco da cura física para o sucesso social e profissional. Essa roupagem teológica foi absorvida pelo movimento Word of Faith (Confissão Positiva) e teologia da prosperidade, que espiritualizaram a prosperidade como um direito divino ativado pela “palavra declarada” ou “manifestar” os anseios. Paralelamente a esse trilho religioso, a tradição dos manuais de sucesso — liderada por Napoleon Hill — despiu a divindade tradicional em favor de uma “força de hábito cósmica”, lógica que culminou na comoditização viral do livro e movimento The Secret (O Segredo). Ganhou roupagens profissionalizada com coaches. Hoje, a práxis moderna de “manifestar” representa o estágio final dessa evolução: um ritual descentralizado e estetizado onde o “mensageiro” não é mais um profeta, mas o próprio indivíduo utilizando a intencionalidade como uma tecnologia literal para reorganizar a realidade.
Sob a ótica da ciência cognitiva da religião, o experimento de James Schafer explorou a capacidade humana de processar conceitos “minimamente contraintuitivos”, desafiando a percepção biológica da morte ao tratá-la como um erro de processamento mental. Ao criar um ambiente de isolamento linguístico e dietético para a “Bebê Jean”, o grupo utilizou mecanismos de sinalização onerosa e vigilância cognitiva para reforçar a coesão do grupo, tentando “hackear” a arquitetura mental que aceita a finitude como regra, substituindo-a por um sistema simbólico onde o tempo e a decadência seriam suspensos pela disciplina do pensamento.
Já sob a perspectiva da religião vivida, o movimento se manifestou não apenas em dogmas, mas em práticas materiais e aspirações sociais da classe média americana pós-Depressão. A transformação de mansões da Era Dourada em centros metafísicos e a criação de redes de caridade (como os “Storks”) mostram como a crença era experimentada através do status, da domesticidade e do consumo. A “imortalidade” não era apenas uma teoria, mas algo “vivido” por meio de dietas específicas, rituais teatrais e uma economia própria. Nela, objetos físicos — como o valioso anel de diamante da criança — serviam como âncoras tangíveis para uma promessa de transcendência espiritual e financeira.
SAIBA MAIS
https://hoaxes.org/archive/permalink/jean_gauntt_the_immortal_baby
Atualizado em 16 de fevereiro de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
Como citar esse texto no formato ABNT:
- Citação com autor incluído no texto: Alves (2020)
- Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2020)
Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. O menino imortal e os metafísicos de Nova Iorque. Ensaios e Notas, 2020. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2020/02/16/o-menino-imortal-e-os-metafisicos-de-nova-iorque/. Acesso em: 16 fev. 2026.

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