O mito do Hino Agushaya ou “Ea e Saltu”, diferente da célebre Descida de Inana, não se concentra no submundo, mas na tensão entre conflito, sombra e integração da natureza agressiva de uma deusa. Essa composição apresenta uma narrativa singular sobre a forma como a agressão, quando isolada, ameaça romper a ordem divina. O poema, estruturado em duas tábuas, descreve uma Inana cujo aspecto puramente guerreiro provoca perturbação, pois sua natureza marcial e agressiva aparece como desmedida ou desequilibrada. A existência de tal excesso recorda uma correnteza fora do leito que, ao escapar do curso habitual, ameaça devastar o terreno ao redor antes que algum agente externo consiga redirecioná-la. Nesse cenário, Ea, deus da sabedoria, das artes e da magia, intervém sem confrontá-la diretamente. Ele molda, a partir da sujeira de suas unhas, uma figura que funciona como duplo ou imagem espelhada da agressão de Inana e atribui a essa criação o nome de Saltu, termo que significa “discórdia”.
A narrativa descreve o embate entre Saltu e Inana. Saltu representa a projeção da agressividade da deusa, aquilo que se encontra negativo ou não integrado em sua personalidade e que assume forma externa. A luta entre ambas simboliza o confronto de Inana com seu próprio eu sombrio. Ao final, Inana derrota ou integra Saltu e, após esse desfecho, Ea institui uma festa anual, o Agushaya, para celebrar o caráter guerreiro da deusa, agora equilibrado e reconhecido como aspecto legítimo, embora controlado, de seu poder.
O poema, segundo sua ortografia, foi composto no período paleo-babilônico, durante os anos prósperos do final do reinado de Hammurabi, entre 1792 e 1750 antes da era cristã. Ele emprega um dialeto literário artificial do acádio, reservado à poesia sofisticada. A crítica especializada sugere que a obra talvez tenha sido escrita para celebrar uma época de paz que sucedia um período de conflito. Ea, o deus sábio que soluciona problemas pela inteligência, representa o ideal de um Estado estável e próspero. Inana, por sua vez, encarna a força marcial necessária ao país, mas agora controlada. A composição possui singularidade teológica, pois raramente a literatura mesopotâmica apresenta uma deusa combatendo sua própria duplicata para alcançar equilíbrio interior. Destaca-se ainda o fato de que a vitória pertence à própria Inana, mesmo quando Ea desencadeia o processo.
As duas tábuas que preservam essa narrativa, de proveniência desconhecida, foram publicadas pela primeira vez em 1913 por H. Zimmern, que apresentou o texto cuneiforme. Em 1916, P. V. Scheil publicou estudo e tradução subsequentes. A reconstrução posterior foi conduzida por B. Gronemberg em sua tese sobre dialetos literários paleo-babilônicos, e outra edição importante foi elaborada por Benjamin Foster em 1977. A versão frequentemente citada em análises modernas provém da tradução francesa de Jean Bottéro e Samuel Noah Kramer publicada em 1993. Atualmente, um pouco mais da metade da composição completa em duas tábuas está preservada e traduzida, o que permite compreensão coerente, ainda que incompleta, da narrativa.

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