Antifonte: lei e natureza

O orador e político Antifonte, o Sofista, figura do século V a.C., pertenceu ao círculo sofístico ateniense. Seus fragmentos indicam que pensava na tensão entre lei humana (nomos) e natureza (physis). Sua obra nos dá a entender que pensava de forma sistemática sobre ética, política e conhecimento, durante uma época de uma Atenas em crise.

Uma questão central na pesquisa moderna foi o chamado “problema de Antifonte”. Discutiu-se se o sofista foi distinto de Antifonte de Ramnunte, orador ático e líder oligárquico. A posição majoritária sustentou a distinção entre dois indivíduos. O sofista teria sido um pensador itinerante, voltado à filosofia natural e à ética, enquanto o orador atuou como logógrafo e político. Uma posição minoritária defendeu a identidade entre ambos. O principal critério de distinção residiu no contraste entre as implicações igualitárias e libertárias dos fragmentos sofísticos e a atuação política do Antifonte de Ramnunte, associado ao golpe oligárquico de 411 a.C.

A atividade de Antifonte situou-se no final do século V a.C., aproximadamente entre 480 e 411 a.C. Seus escritos perderam-se na Antiguidade Tardia, como ocorreu com muitos pré-socráticos. Houve uma redescoberta de fragmentos em papiros, sobretudo os de Oxirrinco, nos séculos XIX e XX.. Três textos principais sobreviveram em estado fragmentário: Sobre a Verdade, Sobre a Concórdia e Político.

Em Sobre a Verdade, Antifonte examinou a oposição entre natureza e convenção. No fragmento 44, do papiro de Oxirrinco, diz que muitas normas jurídicas eram hostis à natureza. Escreveu: “a maioria das coisas que são legalmente justas são… contrárias à natureza. Por lei, foi estabelecido o que os olhos devem ver… o que a língua deve falar… o que as mãos devem fazer.” A lei impunha limites ao que a natureza permitia e exigia o que ela recusava. Ele distinguiu entre justiça legal e justiça natural. A primeira favorecia a pólis, a segunda favorecia o indivíduo. Transgredir a lei gerava vergonha quando descoberto, enquanto violar a natureza produzia dano em qualquer circunstância.

Antifonte também contribuiu para a matemática ao tentar a quadratura do círculo por meio da inscrição de polígonos com número crescente de lados, procedimento que antecipou o método de exaustão posteriormente associado a Arquimedes.

Em Sobre a Concórdia, o foco deslocou-se da oposição entre natureza e lei para a psicologia política. O texto destacou a necessidade de autocontrole e harmonia como condições de estabilidade. Sem incentivar a afirmação irrestrita dos impulsos naturais, propôs moderação em um contexto marcado pelas tensões da Guerra do Peloponeso. Em Político, do qual restaram poucos fragmentos, o tema foi a liderança. O tratado provavelmente examinou qualidades necessárias ao governo eficaz e pode ter refletido sobre as falhas da democracia ateniense.

A atribuição de um tratado sobre interpretação de sonhos permaneceu incerta. Alguns estudiosos o associaram ao sofista, outros a um terceiro autor homônimo. Estemanual prático interpretou sonhos não como mensagens divinas, mas como reflexos do estado físico ou das atividades cotidianas do sonhador.

Durante longo tempo, um fragmento político preservado por Jâmblico foi atribuído a Antifonte. A pesquisa recente rejeitou essa atribuição. O texto passou a ser conhecido como Anonymus Iamblichi e foi reconhecido como obra sofística relevante sobre virtude, justiça e origem da lei, distinta dos fragmentos de Antifonte.

A filosofia de Antifonte inseriu-se no debate entre nomos e physis. A natureza representou necessidade, espontaneidade e liberdade. A busca por prazer e autopreservação apareceu como traço universal. A lei representou convenção humana e funcionou como limite artificial acordado pela sociedade. Antifonte sustentou que gregos e bárbaros compartilhavam as mesmas necessidades e capacidades naturais, o que implicou uma forma inicial de universalismo. Seria pioneiro e não fundamentar a ética em mandamento divino, mas em condições naturais da vida humana. Não tratou a lei como expressão da natureza, senão como construção que podia contrariá-la.

Os fragmentos preservados ilustraram essas posições. Em um deles, afirmou que viver como justo é obedecer as leis da cidade onde vive. A justiça foi definida em termos convencionais e pragmáticos. Em outro, escreveu: As leis, quando obedecidas, são uma salvaguarda para os justos, mas, quando transgredidas, representam um prejuízo para o transgressor.” A lei apareceu como instrumento de proteção mútua. Em um terceiro, declarou: A vida é como uma breve vigília… na qual, tendo erguido os olhos para a luz, damos lugar a outros que nos sucedem.” vida foi descrita de modo breve e finito. Daí se explica uma visão materialista e trágica da existência.

A recepção moderna de Antifonte consolidou-se por meio de edições críticas. A obra organizada por Gerard J. Pendrick reuniu os fragmentos gregos com tradução inglesa e comentário detalhado. A coleção de André Laks e Glenn Most apresentou reconstruções atualizadas dos papiros na série Loeb. Estudos complementares discutiram sua identidade e seu lugar no movimento sofístico. Michael Gagarin defendeu a tese de um único Antifonte. W. K. C. Guthrie ofereceu uma síntese clássica dos sofistas, com atenção ao seu pensamento.

SAIBA MAIS

ANTIFONTE. Testemunhos, fragmentos, discursos. Tradução de Maria Cecília de Miranda Nogueira Coelho. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2015. 208 p. (Coleção Folha Grandes Nomes do Pensamento, v. 23).

https://www.loebclassics.com/view/antiphon-fragments/1941/pb_LCL308.305.xml

Fontes primárias

Xenofonte, Memorabilia 1.6, apresenta o diálogo famoso entre Sócrates e “Antifonte o sofista”, confirmando-o como rival sofístico.
Hermógenes, Sobre os Estilos (Peri Ideon 399–400 Rabe = 87A2 DK), discute diferenças estilísticas entre orador e sofista no século II d.C.
Dídimo (século I a.C.) distingue os “muitos Antifontes”, identificando dois com atividade sofística.

Citações diversas

Aristóteles, Física 185a, discute tentativa de Antifonte de quadrar o círculo com triângulos inscritos.
Platão, Teeteto 161c, menciona ironicamente A Verdade (Ἀλήθεια).
Estobeu preserva fragmentos como Fr. 50 DK (justiça vs. natureza); Galeno cita Sobre a Concórdia e possivelmente Verdade.

Simplicius (Comentário à Física de Aristóteles 9.273) menciona “Antifonte, o Sofista” uma vez, no século VI d.C.
A Suda (século X) tem entrada sobre Antifonte com detalhes biográficos, apesar de confusões.
Harpooração (século II d.C.) cita 99 vezes Antifonte, misturando obras retóricas e sofísticas; Pollux (século II) cita ~50 vezes, incluindo Sobre a Verdade.

Evidências papirológicas e latinas

P.Oxy. XI 1364 (século III d.C.), descoberto no início do século XX, contém fragmentos substanciais do Livro 1 de Sobre a Verdade.
Cícero, De Divinatione 1.39, 1.116, 2.144, discute interpretação de sonhos por Antifonte, definindo profecia como “conjectura do homem prudente” (hominis prudentis coniectura).

Título GregoLatim/InglêsStatus
Περὶ ἈληθείαςSobre a VerdadeObra principal; fragmentos papirológicos substanciais.
Περὶ ὉμονοίαςSobre a ConcórdiaFragmentos em Estobeu e outros.
ΠολιτικόςO EstadistaFragmentos sobrevivem.
Περὶ Κρίσεως ὈνείρωνSobre Interpretação de SonhosAtestado na Suda; discutido por Cícero.
Τέχνη ἈλυπίαςA Arte de Evitar a DorAgora atribuída ao sofista, não ao orador.

Edições críticas modernas

Diels-Kranz (DK), Die Fragmente der Vorsokratiker, vol. II, entrada 87 (DK 87), é a coleção padrão de fragmentos e testemunhos.

Pendrick (2002), Antiphon the Sophist: The Fragments (Cambridge), com textos completos, tradução e comentário

Atualizado em 14 de abril de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2019)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2019)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Antifonte: lei e natureza. Ensaios e Notas, 2019. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2019/04/11/antifonte-lei-e-natureza/. Acesso em: 14 abr. 2026.

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