A coletânea Writing Culture, coletânea organizada por Clifford e Marcus, surgiu de um seminário avançado realizado em 1984 no School of American Research, em Santa Fe. O encontro reuniu etnógrafos experientes, uma crítica literária e um historiador da disciplina, todos envolvidos em análises rigorosas da escrita etnográfica. A reunião ocorreu em meio a uma crise profunda. Antropólogos lidavam com críticas pós-coloniais que questionavam a legitimidade de pesquisadores ocidentais ao falar em nome de outros povos. A disciplina também enfrentava as consequências históricas do colonialismo, enquanto teorias literárias e discursivas ofereciam novas ferramentas de análise. O seminário buscou reposicionar a etnografia no cruzamento entre história social, antropologia interpretativa, literatura de viagem, teoria do discurso e crítica textual. Os participantes apresentavam textos, discutiam coletivamente e revisavam seus argumentos. Do processo nasceu o volume publicado em 1986. Ele se tornou referência do chamado giro pós-moderno.
A recepção foi intensa porque o livro indicava um ponto de inflexão. Writing Culture tratou a etnografia como prática envolvida numa crise política e epistemológica. Autores ocidentais já não descreviam povos distantes com autoridade incontestada. A própria produção de representações culturais aparecia como processo contingente, histórico e sujeito a disputa. A obra revelou que narrativas etnográficas eram construções e dependiam de escolhas de linguagem. Esse diagnóstico impulsionou a virada reflexiva, ao exigir que pesquisadores examinassem sua posição e a parcialidade de seus relatos. O impacto ultrapassou os limites da antropologia. O livro ofereceu um modelo para a leitura crítica de textos de não ficção e convocou autores de várias áreas a reconsiderar as poéticas e as políticas da invenção cultural. Houve controvérsias. Parte da comunidade viu nessas teses uma ameaça a padrões empíricos. Stephen Tyler, um dos colaboradores, foi alvo de críticas severas. A longevidade da obra, no entanto, ficou evidente na edição comemorativa lançada em 2010.
James Clifford abriu o volume com a ideia de que toda verdade etnográfica era parcial. Usou a imagem de uma testemunha Cree que se recusava a jurar dizer a verdade completa, afirmando apenas o que sabia. A metáfora sustentou o argumento de que relatos culturais dependiam de processos de escrita situados historicamente. Clifford propôs o abandono do ideal de transparência em favor de uma atenção maior aos mecanismos que moldavam a construção narrativa.
Mary Louise Pratt investigou a literatura de viagem como gênero formador de convenções etnográficas. Ela descreveu modos de estabelecer autoridade, como o recurso a cenas de descoberta e presença direta. Destacou ainda o conceito de texto autoetnográfico, em que povos colonizados se dirigiam aos colonizadores. Essa noção influenciou debates posteriores.
Vincent Crapanzano recorreu ao mito de Hermes, mensageiro e trickster, para ilustrar o dilema do intérprete. Mostrou, por meio de leituras minuciosas, como descrições etnográficas mascaravam interpretações provisórias. A crítica a Clifford Geertz concentrou-se na ausência de evidências claras para certas atribuições de subjetividade aos nativos. Assim, ficou evidente que estratégias retóricas ocultavam a presença mediadora do autor.
Renato Rosaldo comparou o etnógrafo ao inquisidor ao examinar a relação entre pesquisa de campo, poder e violência. A imagem clássica de Evans-Pritchard na porta de sua tenda serviu de contraponto para revelar o quanto narrativas aparentavam neutralidade, apesar de experiências marcadas por conflitos e tensões. O campo não era um cenário ordenado, e sim um ambiente com fricções parecidas com a rigidez de um interrogatório.
Em outro capítulo, Clifford analisou a força da alegoria. Ele argumentou que textos etnográficos comunicavam duas tramas: a descrição de uma cultura específica e um comentário implícito sobre temas amplos como crise, deslocamento ou transformação. Mesmo obras que afirmavam neutralidade mantinham esquemas alegóricos.
Stephen Tyler defendeu a necessidade de uma etnografia pós-moderna que abandonasse a pretensão de representar outros. Para ele, o foco deveria recair sobre a criação de um discurso cooperativo capaz de provocar o leitor. A etnografia, nesse sentido, deveria intensificar o estranhamento e resistir à leitura imediata, como um objeto que, ao ser visto pela primeira vez, exige mudança de perspectiva.
Talal Asad examinou a genealogia do conceito de tradução cultural na antropologia britânica. Mostrou que a noção emergiu de relações assimétricas entre pesquisadores ocidentais e povos colonizados. A tradução nunca foi simétrica. Ela dependia de estruturas de poder que atribuíam autoridade a determinados intérpretes. Ao analisar autores como Evans-Pritchard, Asad evidenciou como certos limites do conceito provinham do próprio contexto histórico em que foi formulado.
George Marcus abordou os desafios da etnografia num sistema-mundo cada vez mais integrado. O modelo clássico pressupunha comunidades isoladas. As transformações econômicas e políticas desmontaram essa suposição. Marcus propôs a etnografia multi situada, capaz de seguir conexões e deslocamentos. O método respondia ao caráter transnacional da vida moderna.
Michael Fischer tratou da formação da identidade étnica por meio de narrativas e memórias. A etnicidade aparecia como arte pós-moderna, voltada à recomposição de passados fragmentados. Fischer ressaltou o caráter criativo dessas práticas, sempre aberto a novas leituras.
Paul Rabinow discutiu as distinções entre modernidade e pós-modernidade. Para ele, a modernidade buscava fundamentos universais, enquanto a pós-modernidade valorizava a contingência. Representações passaram a ser vistas como fatos sociais que mereciam estudo próprio. Elas não serviam como janelas transparentes.
No texto de encerramento, Marcus refletiu sobre as condições institucionais que moldavam carreiras e práticas de escrita. Questões como avaliação acadêmica, padrões disciplinares e tipos de audiência interferiam diretamente nas formas de produção do conhecimento. O autor conectou teoria e cotidiano da profissão, lembrando que a escrita dependia tanto de reflexões conceituais quanto de escolhas práticas.
