Oração fúnebre a Júlio César

Nessa versão teatral de Shakespeare o triúnviro Marco Antônio recebe a permissão de Bruto para fazer as elegias a Júlio César desde que não o implicasse no assassinato do senador. Com sarcasmo e sutileza, Marco Antônio utiliza as justificativas dos conspiradores de salvar a república para denunciar os inimigos do povo romano, reabilitar seu mentor assassinado e  reconquistar os corações do povo.

ANTÔNIO — Concidadãos, romanos, bons amigos, concedei-me atenção. Vim para o enterro fazer de César, não para elogiá-lo. Aos homens sobrevive o mal que fazem, mas o bem quase sempre com seus ossos fica enterrado. Seja assim com César. O nobre Bruto vos contou que César era ambicioso. Se ele o foi, realmente, grave falta era a sua, tendo-a César gravemente expiado. Aqui me encontro por permissão de Bruto e dos restantes — Bruto é homem honrado, como os outros; todos, homens honrados — aqui me acho para falar nos funerais de César. César foi meu amigo, fiel e justo; mas Bruto disse que ele era ambicioso, e Bruto é muito honrado. César trouxe numerosos cativos para Roma, cujos resgates o tesouro encheram. Nisso se mostrou César ambicioso? Para os gritos dos pobres tinha lágrimas. A ambição deve ser de algo mais duro. Mas Bruto disse que ele era ambicioso, e Bruto é muito honrado. Vós o vistes nas Lupercais: três vezes recusou-se a aceitar a coroa que eu lhe dava. Ambição será isso? No entretanto, Bruto disse que ele era ambicioso, sendo certo que Bruto é muito honrado. Contestar não pretendo o nobre Bruto; só vim dizer-vos o que sei, realmente. Todos antes o amáveis, não sem causa. Que é então que vos impede de chorá-lo? O julgamento! Foste para o meio dos brutos animais, tendo os humanos o uso perdido da razão. Perdoai-me; mas tenho o coração, neste momento, no ataúde de César; é preciso calar até que ao peito ele me volte.

PRIMEIRO CIDADÃO — Penso que em sua fala há muito senso.

SEGUNDO CIDADÃO — Se bem con­si­de­rar­des, procederam muito mal contra César.

TERCEIRO CIDADÃO — Sim, amigos? Temo que em seu lugar venha outro pior.

QUARTO CIDADÃO — Prestastes atenção no que ele disse? Recusou a coroa. Logo, é certo não ter sido ambicioso.

PRIMEIRO CIDADÃO — Isso provado, muita gente terá de pagar caro.

SEGUNDO CIDADÃO — Pobre alma! Tinha os olhos como fogo, à força de chorar.

TERCEIRO CIDADÃO — Em toda Roma não há ninguém mais nobre do que Antônio.

QUARTO CIDADÃO — Atenção! Ele vai falar de novo.

ANTÔNIO — Até ontem a palavra do alto César podia resistir ao mundo inteiro. Hoje, ei-lo aí, sem que ante o seu cadáver se curve o mais humilde. Ó cidadãos! Se eu disposto estivesse a rebelar-vos o coração e a mente, espicaçando-os para a revolta, ofenderia Bruto, ofenderia Cássio, que são homens honrados, como vós bem o sabeis. Não pretendo ofendê-los; antes quero ofender o defunto, a mim e a vós, do que ofender pessoas tão honradas. Vede este pergaminho: traz o selo de César. Encontrei-o no seu quarto; é o testamento dele. Caso o povo sua leitura ouvisse — desculpai-me, mas não pretendo lê-lo — correriam todos a depor beijos nas feridas do morto César e a tingir os lenços em seu sagrado sangue. Mais: viriam mendigar-lhe um cabelo, por lembrança, que, ao morrerem, seria em testamento transmitido aos herdeiros sucessivos, como rico legado.

QUARTO CIDADÃO — Desejamos ouvir o testamento. Lede-o, Antônio.

CIDADÃOS — O testamento! Lede o testamento de César!

ANTÔNIO — Acalmai-vos, bons amigos. Não posso lê-lo; não convém ficardes sabendo quanto César vos amava. Não sois de pedra, nem de pau, mas homens; e, como tal, se ouvísseis a leitura do testamento dele, poderíeis inflamados ficar, ficar furiosos. Conveniente não é ficardes todos sabendo que os herdeiros sois de César; pois se o soubésseis, que não se daria?

QUARTO CIDADÃO — O testamento! Lede o testamento de César, Marco Antônio! Lede-o logo!

ANTÔNIO — Não podeis acalmar-vos um momento? Fui indiscreto ao vos falar sobre isso. Temo ofender quantos honrados homens apunhalaram César. Temo-o muito.

QUARTO CIDADÃO — Homens honrados, nada! São traidores.

CIDADÃOS — São vilãos e assassinos todos eles. O testamento! Lede o testamento!

ANTÔNIO — Forçais-me, então, a ler o testamento? Sendo assim, vinde em círculo pos tar-vos ao redor do cadáver, porque eu possa apontar-vos o autor do testamento. Posso descer? Consentireis que o faça?

CIDADÃOS — Vinde para cá.

SEGUNDO CIDADÃO — Descei.

(Antônio desce da tribuna.)

TERCEIRO CIDADÃO — Estais autorizado a fazê-lo.

QUARTO CIDADÃO — Façamos um círculo.

PRIMEIRO CIDADÃO — Afastai-vos do ataúde Afastai-vos do corpo!

SEGUNDO CIDADÃO — Demos lugar para Antônio, para o muito nobre Antônio!

ANTÔNIO — Não me aperteis tanto. Afastai-vos um pouco.

CIDADÃOS — Recuai! Espaço! Recuai!

ANTÔNIO — Se lágrimas tiverdes, preparai-vos neste momento para derramá-las. Conheceis este manto. Ainda me lembro quando César o estreou; era uma tarde de verão, em sua tenda, justamente no dia em que vencera os fortes nérvios. Vede o furo deixado pela adaga de Cássio; contemplai o estrago feito pelo invejoso Casca; através deste apunhalou-o o muito amado Bruto, e ao retirar seu aço amaldiçoado, observai com cuidado como o sangue de César o seguiu, como querendo vir para a porta, a fim de convencer-se se era Bruto, realmente, quem batia por modo tão grosseiro, porque Bruto, como o sabeis, era o anjo do finado. Julgai, ó deuses! quanto o amava César. De todos, foi o golpe mais ingrato, pois quando a Bruto viu o nobre César, a ingratidão mais forte do que o braço dos traidores, de todo o pôs por terra. O coração potente, então, partiu-se-lhe e, no manto escondendo o rosto, veio cair o grande César justamente ao pé da estátua de Pompeu, que sangue todo o tempo escorria. Que queda essa, caros concidadãos! Eu, vós, nós todos nesse instante caímos, alegrando-se sobre nós a traição rubra de sangue. Oh! Vejo que chorais, que sois sensíveis à impressão da piedade. Delicadas lágrimas derramais. Mas chorais tanto, bondosas almas, só de o manto verdes do nosso César, cheio, assim, de furos? Então olhai para isto, o próprio corpo de César, deformado por traidores.

PRIMEIRO CIDADÃO — Oh espetáculo lamentável!

SEGUNDO CIDADÃO — Oh nobre César!

TERCEIRO CIDADÃO — Oh dia de luto!

QUARTO CIDADÃO — Oh celerados! Oh traidores!

PRIMEIRO CIDADÃO — Que espetáculo sangrento!

SEGUNDO CIDADÃO — Queremos vingança!

CIDADÃOS — Vingança! Vamos procurá-los! Fogo! Morte! Fogo! Matemos os traidores!

ANTÔNIO — Parai, concidadãos!

PRIMEIRO CIDADÃO — Silêncio! Ouçamos o nobre Antônio.

SEGUNDO CIDADÃO — Queremos ouvi-lo; iremos para onde ele for; queremos morrer com ele!

ANTÔNIO — Bons e amáveis amigos, não desejo levar-vos a uma súbita revolta. Os autores deste ato são honrados. Ignoro as causas, ai! particulares que a este extremo os levaram; mas são sábios, todos eles, e honrados, e decerto vos dariam razões do que fizeram. Não vim aqui roubar-vos, meus amigos, o coração. Careço da eloqüência de Bruto. Sou um homem franco e simples, como bem o sabeis, que tinha o mérito de amar o seu amigo, o que sabiam perfeitamente quantos permitiram que eu viesse falar dele. Pois é fato: não tenho espírito, valor, palavras, gesto, eloqüência e a força da oratória para inflamar o sangue dos ouvintes. Contento-me em falar tal como falo, simplesmente, dizendo-vos apenas o que todos sabeis, e ora vos mostro as feridas do nosso caro César — pobres bocas sem fala! — concitando-as a falarem por mim. Se eu fosse Bruto, sendo ele Antônio, agora aqui teríeis um Antônio capaz de levantar-vos o espírito e em cada uma das feridas de César uma voz pôr, que faria revoltarem-se as pedras da alta Roma.

CIDADÃOS — Revolta, sim! Revolta!

PRIMEIRO CIDADÃO — Queimaremos logo a casa de Bruto.

TERCEIRO CIDADÃO — Então partamos sem demora. Peguemos os traidores.

ANTÔNIO — Concidadãos, ouvi-me. Vou falar-vos.

CIDADÃOS — Que fale Antônio, o muito nobre Antônio!

ANTÔNIO — Sabeis, amigos, o que estais a ponto de realizar? Em que mereceu César ser a tal ponto amado de vós todos? Ah! não o sabeis. Preciso, então, contar-vos. E o testamento, já vos esquecestes, de que falei há pouco?

CIDADÃOS — É certo! É certo! O testamento! Ouçamos a leitura do testamento!

ANTÔNIO — Aqui vo-lo apresento, com o selo ainda de César. César deixa para cada romano em separado setenta e cinco dracmas.

SEGUNDO CIDADÃO — Nobilíssimo César! Vamos vingar a morte dele!

TERCEIRO CIDADÃO — Oh real César!

ANTÔNIO — Ouvi-me com paciência.

CIDADÃOS — Olá! Silêncio!

ANTÔNIO — Além disso, deixou-vos seus passeios, caramanchões privados e os recentes jardins por ele feitos neste lado do Tibre. Sim, deixou-vos, para sempre, para vossos herdeiros, como pontos de diversão comum, porque pudésseis passear e distrair-vos. Foi um César, realmente! Outro igual, quando teremos?

PRIMEIRO CIDADÃO — Nunca! Nunca! Sigamos para a praça sagrada, a fim de o corpo ali queimarmos, e com os tições as casas incendiemos de todos os traidores. Carreguemos o corpo.

SEGUNDO CIDADÃO — Trazei fogo.

TERCEIRO CIDADÃO — Derrubemos os bancos.

QUARTO CIDADÃO — Derrubai logo janelas, cadeiras, o que for.

(Saem os cidadãos, com o corpo de César.)

 

(Saem.)

SHAKESPEARE. A tragédia de Júlio César. Ato III, cena II. 1599.

Vincenzo_Camuccini_-_La_morte_di_Cesare

Vincenzo Camuccini. Morte di Giulio Cesare. 1804-1805. Óleo sobre tela,

SAIBA MAIS

Original em inglês: http://www.shakespeare-navigators.com/JC_Navigator/JC_3_2.html#speech30

Edição em português de Nélson Jahr Garcia disponível em http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/cesar.html#jcat32

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