A jornada nunca termina

Há dez anos, recém-graduado, decidi botar o pé na estrada. Fiz o caminho inverso do trajeto que meu pai percorreu nos anos 1970 do Brasil rumo à América do Norte.

Com as muitas recomendações e “tem certeza de que não quer desistir?” de meus pais saí da Nova Inglaterra sem planos certos, exceto que alguma hora queria chegar ao Brasil.

Um dia, enfadado, tracei à mão livre nas costas de um papel de bandeja de fast-food o mapa dos lugares que gostaria de conhecer.  Não ficou tão mal. Mais tarde, dei uma melhorada nos contornos, adicionei uma corzinha no mar e os nomes no Paint.

mapa

Meu mapa feito à mão…

 

 

 

 

 

 

Sem GPS, sem um smartphone, com uma bússola de bolso e o mapa rabiscado percorri de cima a baixo o México, passei pela América Central e do Sul, tudo quase via busão. Alguns trechos peguei alguns voos que, acredite, ficaram mais baratos que viajar por terra.

Conheci gente incrível, das quais nunca soube o nome. Fiz amizade com um mochileiro  que só falava japonês, nada de espanhol, inglês e eu não sei bulhufas de japonês. Dormi em hostel, tomei banho em rodoviárias, descobri pueblitos paradisíacos longe das rotas turísticas. Meu vocabulário de palabrotas cresceu exponencialmente.

Viajei por linhas de ônibus cujo serviço de bordo incluía uma refeição melhor que muitas companhias aéreas (Alô, Tica Bus!). Em compensação, peguei um ônibus e só depois nos demos conta que o motorista estava bêbado e, para piorarn, o pau-de-arara quebrou no caminho.

Passei apuros: risco de ser assaltado, ser abordado por gangsters armados, falta de grana, o cartão não funcionar em um lugar no meio do nada, ser extorquido por guarda de fronteira.

Tive horas que lamentei estar sozinho. Cenários maravilhosos ou situações fantásticas que mereciam alguém próximo para compartilhar.

Reencontrei amigos, conheci a família “postiça” do meu irmão na Costa Rica.

Conheci o Museu Nacional de Antropologia do México, talvez um dos maiores do gênero no mundo. Visitei as antigas cidades das civilizações dos indígenas do México e Mesoamérica. Gastei tardes sem pressa folheando livros antigos em bibliotecas mofadas. Fiquei de boa sentado nos zócalos observando o trânsito. Comi muita comida de rua. Barganhei em mercados populares. Mergulhei nas águas frias de cenotes escuros.

Fiz pesquisa de campo, meio sem saber o que pesquisar. Mas estava interessado em religião. Visitei uma sinagoga escondida em Venta Prieta, o Santuário de Guadalupe, igrejinhas de vilarejos ou em movimentadas periferias metropolitanas, a Hermosa Provincia — a faraônica sede da Iglesia La Luz del Mundo — em Guadalajara. Bati um bom papo com um sacerdote rastafari no Belize, escutei as dicas de curas com ervas e simpatias de uma senhora que jurava pela Virgem que não era feiticeira (ué, nem perguntei…).

O resultado foi um artigo, nunca publicado e lastimavelmente agora perdido, sobre as trocas simbólicas nesses espaços cerimoniais. Algo pedante que certamente me enrubesceria hoje. Com ele ganhei a admissão ao mestrado. As experiências foram inestimáveis. Ganhei confiança, perdi nojinhos, tornei-me mais sociável. Saí um pouco mais tolerante com o diferente. A viagem que valeu para vida. Levou-me além dos lugares novos.

Mochilão

3 respostas para ‘A jornada nunca termina

  1. Querido filho,você é um exemplo de perseverança e insistência daquilo que almeja,Deus te abençoe grandemente e recompense seus esforços ao lado de sua esposa.Voce é nosso orgulho.

    Curtido por 1 pessoa

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