Um credo apolítico

Os cidadãos romanos cartagineses implicaram com Tertuliano (c. 160 d.C. — c. 220 d.C.) por ele ter abandonado a toga. Esse brilhante retórico (e talvez jurista), ao converter-se ao cristianismo, deixou a vida pública. O manto (o pálio) era usado pelos filósofos enquanto a toga vestia a magistratura, o oficialato militar e os homens públicos. Como para alguns é insultante que outros não tenham as mesmas vaidades e aspirações, o hábil orador deixou esse pequeno panfleto explicando porque preferia o pálio à toga.

Tertuliano

Ego, inquit, nihil foro, nihil campo, nihil curiae debeo;  Não tenho nada a dever ao fórum, nada à praça, nada ao governo. 
nihil officio aduigilo, nulla rostra praeoccupo, nulla praetoria obseruo;  Não perco meu sono por cargo político, não faço esforço para ocupar uma tribuna, não sou candidato a cargo público.
canales non odoro, cancellos non adoro, subsellia non contundo, iura non conturbo, causas non elatro;  Não fico cheirando a corrupção; tampouco adorando as eleições; não almejo os assentos dos jurados; não infrinjo as leis.
non iudico, non milito, non regno: secessi de populo.  Não movo processos judiciais; eu não servirei como magistrado ou no serviço militar: desejo não dominar ninguém.
In me unicum negotium mihi est;  O meu único negócio concerne a mim mesmo. 
nisi aliud non curo quam ne curem.  Não dou a mínima em nem mesmo em dar a mínima.
Vita meliore magis in secessu fruare quam in promptu. É melhor aproveitar a vida separada que em serviço.
Sed ignauam infamabis: scilicet patriae et imperio reique uiuendum est.  Mas me acusam de negligência: “obviamente deve-se viver pela pátria, pelo império, pelo estado”. 
Erat olim ista sententia: nemo alii nascitur moriturus sibi. Há outra máxima: “ninguém nasce para outrem, mas morre para si. ”

 

 — Quintus Septimius Florens Tertullianus. De pallio, 5.4

A participação política é algo de foro íntimo. Em tempos de “se não pensa como eu, meu inimigo é”, mais urgente é preservar a privacidade. Quais causas ou ideais apoiar, como efetivá-los, o grau de envolvimento e o quanto publicizar esse envolvimento são decisões de consciência. Como nesse credo apolítico de Tertuliano, as convicções políticas devem ser respeitadas.

O fato de uma pessoa exercer o segredo de suas opções políticas não significa ser “isentão”. Pelo contrário, uma pessoa pode ter suas convicções, fazer ativismo por uma  política pública, denunciar injustiças e riscos coletivos — tudo sem ter de abrir seu voto.

A democracia é um dos poucos sistemas políticos que permite a existência cidadã daqueles que não querem engajar na atividade política publicamente. Ainda que no Brasil o voto seja obrigatório, ele também é secreto. Por isso, é uma atitude sã por ora mantê-lo assim.

Trata-se de um dilema do prisioneiro: abrir o voto é conclamar para si inimigos enquanto os políticos ao saberem que receberão seu voto não mais se esforçarão para conquistar-lhe. Ou seja, não se ganha nada. Por todos os lados perde.

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Como citar esse texto no formato ABNT:

Citação com autor incluído no texto: Alves (2018)

Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2018)

Referência:

ALVES, Leonardo Marcondes; TERTULIANO, Quinto Sétimo Florêncio. Um credo apolítico. Ensaios e Notas, 2018. Disponível em: https://wp.me/pHDzN-4O2 . Acesso em: 20 jul. 2020.

2 respostas para ‘Um credo apolítico

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