Toyotismo

 

O pós-fordismo

O pós-fordismo foi uma reorientação dos modelos organizacionais nos países industrializados a partir dos anos 1960. Em uma época dominada pelos temores da Guerra Fria, a disputa do mercado, antes focada nacional e regionalmente, expandiu-se para um nível global. Essa expansão foi acompanhada pela fusão e aquisições entre grandes corporações. A consequência foi o enfraquecimento do poder dos monopólios nacionais de orientação fordista, abrindo espaço para outras formas de organização industrial.

Se no fordismo na aliança entre Estado e capital (especialmente capital industrial) predominavam os interesses das classes políticas, com  fim do sistema de Bretton Woods e o desemparelhamento do dólar com o padrão ouro levaram ao predomínio dos interesses das classes financeiras. O capital passou a não ter nacionalidade. Novos bancos de atuação global passaram a financiar a industrialização em locais com mão-de-obra mais baratas e proximidade com as fontes de commodities.

O setor de serviços cresceu, a economia passou a ser orientada pelo consumo e não pela produção. Ampliou-se a inserção de outros grupos no mercado de trabalho formal: mulheres, migrantes rurais no sul global, imigrantes dentro da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, negros e hispânicos americanos após a Lei dos Direitos Civis de 1964. Com a mudança do perfil do trabalhador-consumidor de IBM (Identical Blue Men) para um público diverso, emergiu uma demanda por produtos variados para os quais o sistema fordista não conseguia atender.

Com mais gente disposta a trabalhar e a industrialização do terceiro mundo, o estado de bem-estar social na Europa e América do Norte não conseguiu garantir o pleno emprego ou uma rede se segurança para os excluídos do mercado. Seria o início da reorientação keynesiana: se antes o Estado apoiava as indústrias de bens de consumo e a proteção dos trabalhadores formais, houve uma liberalização nesses setores, com o Estado apoiando o setor financeiro e complexo industrial-militar.

No Brasil foi a época áurea das aquisições dos bancos: o Bradesco, Itaú, Real e Bamerindus floresceram. Tornamo-nos uma nação urbana. O país, sob controle da ditadura militar, experimentou o milagre econômico, com financiamento da construção de infraestrutura e habitação. Mas, a bolha estourou e a dependência do capital estrangeiro fez a dívida externa (não mais em padrão ouro-dólar, lembre-se) crescer vertiginosamente. A inflação disparou e a concentração de renda, idem.

Apesar da crise do petróleo em 1973, a indústria automobilística ainda seria determinante no novo processo industrial. São tipicamente pós-fordistas o toyotismo, o volvismo e o uberismo. Em comum, apregoam uma flexibilidade: produção flexível, mediante um trabalho flexível, arranjado por uma organização flexível e direcionada para o consumidor com gostos flexíveis.

TOYOTISMO

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O Japão saiu da 2a Guerra arrasado moral e economicamente. Nunca o país tinha sido invadido, ocupado ou atacado. O efeito psicológico da renúncia da divindade do Imperador e as bombas de Hiroshima e Nagasaki foram devastadores. Porém, o país contava com alguns fatores para sua rápida recuperação, dentre elas, um sistema de organização industrial.

O toyotismo, inspirado pela montadora Toyota, é caracterizado pela produção sob demanda, controle de desperdícios, busca constante pela qualidade máxima, descentralização da produção, simplicidade com funcionalidade e estética no design.

Influenciaram o sistema do toyotismo alguns conceitos e instituições da cultura japonesa como o wabi-sabi e as corporações industriais.

A ideia de beleza singela (wabi-sabi) é fundamentada nos ideais do budismo zen. A aceitação que as coisas possuem suas imperfeições e limitações contrapõe-se à busca ritual de valorização das coisas mais simples. Dos desenhos à cerimônia do chá há o cuidado pelos detalhes, mesmo que o objeto seja assimétrico ou deslocado. Essa preocupação pelo processo, mono no aware, mesmo que efêmero, influenciaria os ideais de qualidade total.

A existência de conglomerados industriais Zaibatsu remontam da era Meiji (1868-1912). Um grupo de grandes corporações em diversas atividades— Mitsui, Mitsubishi, Sumimoto e Yasuda — dominaram a industrialização até a ocupação americana, com centenas de empresas sob o controle de cada uma. Eram organizações fundadas na lealdade recíproca e paternalista. Diferente da relação patrão-cliente dos países latinos (patrão manipulador e clientela ambígua em relação à exploração), o senso de lealdade japonesa implicava em compromissos pela vida toda e era dotada de um sentimento de honra. Tal lealdade pareceu perigosa ao general MacArthur durante a ocupação japonesa. MacArthur convenceu os Zaibatsu se dissolverem (Plano Yasuda) e forçou uma lei anti-truste. Nasceram várias novas empresas, os Keiretsu, embora com menor influência política, mas com interconectividade ampla e intensa.

A Toyota foi uma das novas empresas que cresceram em um ambienta não monopolista. Seu presidente nos anos 1960, Eiji Toyoda (1913–2013), tinha visitado as montadoras nos Estados Unidos e percebeu as desvantagens competitivas japonesas: falta de espaço e falta de insumos.

Um empregado de Toyoda, o engenheiro mecânico Taiichi Ohno  (1912–1990) também fez suas observações perspicazes em uma viagem aos Estados Unidos. Ohno percebeu que os supermercados norte-americanos não possuíam estoques, colocando seus produtos diretamente nas prateleiras para os consumidores comprarem. Também Ohno (que empresta o nome ao sistema: ohnismo), enfatizou “os três Ms” a serem evitados: a sobrecarga (muri), a inconsistência (mura) e o desperdício (muda) em seu lean production ou lean thinking. A respeito dos desperdícios sumariza os muda em sete:

  1. Desperdício de superprodução;
  2. Desperdício de estoque;
  3. Desperdício de tempo;
  4. Desperdício nos transportes;
  5. Desperdícios com processos;
  6. Desperdícios com movimentos desnecessários;
  7. Desperdícios com qualidade demandando retrabalho e perda de produtos.
  8. [Alguns textos falam de um oitavo muda: Desperdício de recursos humanos].

Com as mudanças ocasionadas pelo pós-fordismo nos anos 1970, Toyoda e Ohno implantou sua síntese de organização industrial. Diferente dos monopolistas da geração empresarial anterior, o toyotismo previa a acumulação flexível. Visava-se atender ao cliente, garantir o máximo de qualidade no fornecimento, na produção e no produto final. Para isso, admitia-se a descentralização das fases de produção, dando início à terceirização em busca de fornecedores especializados.

A linha de produção, centro do sistema fordista, foi substituída pela cadeia de suprimentos no toyotismo. A importância da logística passou a ser crucial, com o sistema kanban buscando o equilíbrio em tempo real entre demanda e oferta em um estoque mantido somente em um nível ótimo. Assim, operou-se pela produção sob demanda (just in time).

Sendo orientado pela demanda, o toyotismo permitiu maior diversidade. Enquanto o fordismo valorizava um mercado que consumisse produtos padrões, o toyotismo permite a customização. Assim, os trabalhadores não são vistos como classes, mas como faixas de consumidores, cada qual com sua versão de produtos preferíveis. A multifuncionalidade dos operários e dos equipamentos permitem que a mesma fábrica se adapte rapidamente à produção de novos produtos.

Outro aspecto do toyotismo é a busca pela qualidade total pela melhoria contínua (kaizen). Nessa perspectiva há metas de longo prazo, valorização das sugestões de fornecedores, clientes e subalternos (ringi sho), e a investigação a fundo das causas dos problemas e oferta de soluções (genchi genbutsu). Por fim, o princípio de autorreflexão (hansei) opera como um sistema de retroalimentação das informações e de assumir as responsabilidades.

O intercâmbio entre os princípios japoneses e o controle estatísticos de processos norte-americano proporcionado pelo consultor William Edwards Deming (1900-1993) consolidou o conceito de qualidade total. Deming trabalhou com Ohno, ensinando o controle estatístico da produção. Mais tarde, tornou-se o difusor dos princípios industriais japoneses no mundo ocidental.

Aliado a novas tecnologias da robótica e das ciências da informação, o sistema Toyota de produção depende de operações precisas e de informações de tempo real. Soma-se ao toyotismo as diretrizes dos “5 S”: utilização (seiri), organização (seiton), limpeza (seiso), disciplina (shitsuke) e higiene (seiketsu). Dessa forma, diminui-se a perda de tempo com produtos inferiores ou ambiente bagunçado. Os trabalhadores japoneses passaram a ser recompensados pela lealdade: os salários subiram.

Aplicada a outras indústrias, o toyotismo foi responsável pelo rápido crescimento japonês. Esse sistema exportado permitiu a rápida industrialização dos tigres asiáticos e, depois de 1979, o milagre chinês.

Críticas

O sistema toyota de produção não é imune às críticas. Suas conquistas tiveram altos custos de externalidades. Cresceram a degradação ambiental e a urbanização inflada, mas focaremos em aspectos políticos e econômicos.

A perda do controle sobre organizações externas permitiu a pirataria em massa quando pequenas indústrias subsidiárias perdiam contratos e precisavam de outros compradores, especialmente na China. Em 2004 veio à tona o caso da NEC. Essa empresa japonesa possuía uma extensa rede fornecedores na China que trabalhavam tanto para a marca verdadeira quanto para uma organização inteira pirateada.

Quanto aos produtos, o sistema toyota não tolera defeitos. Desse modo, os produtos defeituosos não são reparados, mas descartados, aumentando o lixo. Como o sistema é intensamente dependente de inovação e novas tecnologias, inclui-se em seu design a pouca utilidade, mesmo que seja produto de alta durabilidade. Resulta disso a obsolescência planejada e uma frenética substituição de um modelo por outro.

Se internamente nas organizações predominavam os princípios kaizen, fora — exceto o suprimento em tempo e na forma esperada — predominam os 3K: o trabalho duro (tokitsui), sujo (kiken) e periogoso (kitanai). O Japão passou a exportar esse tipo de serviço para países asiáticos ou sujeitar imigrantes coreanos, filipinos, peruanos e brasileiros a eles.

Outro problema foi falta de segurança no trabalho, pois um contrato com o fornecedor poderia ser rompido se não cumprisse o prazo ou entregasse o produto na qualidade exigida. A obsessão pela qualidade total e just in time deixou o país vulnerável às flutuações do mercado, como o baburu keiki de 1986-1991 e a crise financeira de 1997. Também, os japoneses ficam suscetíveis à destrates naturais, pois contam com baixos estoques e poucos portos de entradas para suprimentos. Em outras regiões industriais que adotam o sistema toyota de produção há sempre a tensão que o trabalho possa ser transferido de uma hora para outra para um país diferente.

A dependência da logística toyotista fez com que as vias de transportes congestionassem. Como é um sistema flexível e de rápida implantação, onde o toyotismo chegou apareceram os congestionamentos. Isso porque geralmente não havia canais o suficiente para o transporte, estocagem e distribuição de insumos.

Adicionalmente, um efeito colateral do toyotismo é o karoshi. O crescimento econômico industrial japonês foi feito às custas do trabalho exaustivo. Horas extras longas, semanas de trabalho sem folga, redução do tempo de lazer, foram o preço que o operário japonês pagou pelo progresso de seu país. Dos anos 1950 ao começo dos anos 1990 (e depois na década de 2000) o governo japonês foi dominado pelo Partido Liberal Democrata, cuja política mantinha os regulamentos trabalhistas ao mínimo. Como consequência, muitos empregados e executivos morrem de karoshi, literalmente, morrem de tanto trabalhar.

A alienação do modelo japonês de industrialização não foi tanto econômica, mas principalmente psicossocial. Surgiram vários distúrbios de sociabilidade, de ultra-consumerismo e psicológicos. Nesse ambiente cresceram as shinshinshukyo (novas-novas religiões) e o partido comunista japonês tornou-se um dos mais fortes em uma democracia.

Com tantas exigências, as empresas adeptas de toyotismo ou similar ética acabam envolvidas — como vítimas, beneficiárias ou como causas — das ações das yakuza, a máfia japonesa. Operando em um sistema nos limites da lei, as gangues registradas (boryokudan) garantem que não haja oposição sindical, vendem “seguros” contra eles próprios (sokaiya), dominam elos de cadeias de suprimentos e integram negócios legítimos com o submundo das drogas, prostituição, contrabando e o mercado de influência política.

Em suma, as críticas ao toyotismo são a terceirização e exportação dos riscos e ônus. Enquanto há uma forte exigência para operar eticamente dentro das organizações, o sistema toyota evade-se moral e juridicamente dos impactos que causam. Assim, seu custo de externalidade é alto.

* * *

Depois de tantos termos em japonês e listas de conceitos, o próximo modelo de organização industrial, representado pela Volvo, é mais simples em matéria de teoria.

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