Taylorismo e o Fordismo

 

O ianque Eli Whitney (1765 – 1825) era um pobre inteligente rapaz, mas mal conseguia pagar a faculdade em Yale. Tentando a sorte, foi para o Sul em 1792  juntar uns trocados como tutor privado. Na fazenda da Sra. Catherine Greene (1755 – 1814) Whitney notou que as pessoas levavam muito tempo descaroçando o algodão com as mãos ou pentes. Criativo, pensou em uma engenhoca que separava as sementes das fibras. Em uma época que nascia a automação e o uso da energia à vapor, o invento de Whitney provou-se revolucionário. O gin expandiu a monocultura algodoeira (consequentemente, a escravidão), forneceu insumos para a industrialização norte-americana e britânica (empobrecendo a produção algodoeira do Brasil, a qual curiosamente já empregava um engenho rústico desde a era colonial) e abriu caminhos para a reorganização do trabalho — e sociedade — pela produção mecanizada.[1]

Precedentes

Antes da Revolução industrial, a produção de artefatos era feita ou por artesãos — um especialista que normalmente possuía sua oficina e produzia todas as etapas — ou por manufatura — a distribuição do trabalho em diferentes oficinas e produção por lotes.  Com tal produção tão diminuta, as sociedades urbanas eram ainda dependentes do campo e da logísticas dos mercadores.

A industrialização feita pelas máquinas à vapor mudaram as tecnologias e as sociedades drasticamente. A navegação rápida, a linha de ferro e a produção em massa de armas permitiram uma nova investida colonial. Havia necessidades de novos mercados e fontes de insumos. Todavia, durante o século XIX a produção continuou organizacionalmente pouco elaborada. Predominava a maquinofatura, conciliado o fluxo de fabricação das máquinas com o trabalho manual. No começo do século XX, o mundo demandava novas tecnologia e novas formas de divisão do trabalho mudaram esse cenário.

Taylorismo 

Desde os anos 1870 consolidou-se na Europa e na América do Norte uma classe média ansiosa por imitar o estilo de vida aristocrático, com certo poder de compra, mas não disposta a pagar o olho da cara por uma porcelana Ming. Contentava-se com produtos de preços palatáveis vendidos nas grandes lojas de departamentos. As grandes feiras mundiais mostravam as maravilhas da tecnologia e de um mundo cada vez menor. As comunicações e a eletricidade faziam milagres. Nesse período de relativa paz no norte global, a demanda por produtos industrializados e crescimento das cidades fizeram alterar as fábricas para aumentar a eficácia e a produtividade. A padronização de peças intercambiáveis facilitava o fabrico de produtos padrões. Pensando que melhores máquinas atenderiam essa demanda, abundaram patentes de engenhocas mirabolantes.

Entretanto, a nova revolução industrial viria não das máquinas, mas da gestão do trabalho. Seu protagonista seria o engenheiro mecânico autodidata Frederick Winslow Taylor (1856 – 1915), um rigoroso quaker obcecado por fazer medidas e relógios. Trabalhando em várias fábricas do noroeste dos Estados Unidos, Taylor propôs uma divisão “científica” do trabalho. A ideia era simples: com uma prancheta acompanhar cada etapa de um produto, subdividir o trabalho em tarefas as mais simples possíveis, cronometrar o operário de maior eficácia, por fim, treinar e estimular outros operários a atingirem a máxima produtividade com incentivos salariais. Resumiu suas ideias do estudo do tempo e movimento no livro Princípios de Administração Científica (1911).

Fordismo

As ideias de Taylor não ocorreram em um vácuo. Adam Smith já tinha proposto esse princípio em seu exemplo do fabricante de alfinete para demonstrar a vantagem competitiva, mas Taylor foi mais convincente em fazer as indústrias a adotar o sistema. Seus contemporâneos, outros teóricos (e práticos) como Carl Barth, Jules Henri Fayol, Frank e Lillian Gilbreth e Harrington Emerson compartilharam desse ambiente e ideias, fundando a chamada escola de administração clássica. Todavia, seu expoente mais emblemático foi o industrial Henry Ford (1863 – 1947).

O fordismo foi a aplicação dos princípios da administração clássica na linha de montagem. O conceito não era novo, já no século XIV o célebre Arsenal de Veneza fazia rapidamente navios em seu estaleiro onde o navio em construção movia de etapa em etapa, com artesão especializados em cada uma delas. O diferencial de Ford foi ampliar a produção de massa, redução de custo e foco em alcançar todo mercado possível. Aproveitava tábuas das caixas dos suprimentos em seu popular Ford Modelo T.

Outra característica foi a padronização: o verdadeiro mantra do fordismo. A padronização de componentes, a padronização de processos e a padronização dos produtos tornaram os bens de consumo baratos e acessíveis para várias classes sociais. Como bens padronizados demandavam peças e componentes padrões, nasceram as normativas que regulamentavam a produção (ISO, ABNT). Assim, peças e componentes intercambiáveis padronizados facilitaram o surgimento da indústria de suprimentos. Também, essas peças substituíveis permitiam o reparo rápido.

O conluio do fordismo com o Estado resultou na atuação pública para criar cadeias de suprimentos e mercados para as grandes indústrias: os estados assumiram o ônus de educar a mão-de-obra, fazer estradas, montar a matriz energética e direcionar o consumo com campanhas públicas. O consumidor não tinha muita opção, mas havia algumas marcas para cada produto. Em épocas dos grandes monopólios, o sistema visava dominar toda a cadeia de produção. Tal desejo moveu Ford a construir uma utopia capitalista na Amazônia: a Fordlândia.

Críticas

Falando em utopias, o escritor russo Eugênio Zamyatin criticou a obsessão pela eficácia mecanizada em Nós (1924), obra que inspirou outra distopia, O admirável mundo novo (1932) de Aldous Huxley, na qual há até linha de montagem para humanos e o afeto sumiu. O fordismo representou a alienação clássica descrita por Marx: cada vez mais os trabalhadores estavam se distanciados de controlar os meios de produção. O homem reduzia-se a uma peça na grande máquina.

Outro crítico dessa abordagem mecanicista e positivista de organizar a vida social foi Max Weber. O sociólogo alemão conhecia bem a síntese da eficácia da organização prussiana com a eficiência da industrialização renana, além de ter visitado a costa noroeste dos Estados Unidos bem no auge das propostas de Taylor. Weber previu, até como inevitável, que a modernidade seria pautada pela racionalização das atividades e gerida pela burocracia. A impessoalidade e a justificativa da eficácia e eficiência determinariam as relações de produção e a própria sociedade.

Apesar da mitigação proposta pelas leis trabalhistas, especialmente depois da Crise de 1929 (ela própria resultante da superprodução desfreada do modelo taylorista-fordista sem aumento de mercados), o modelo clássico continuou dominante em várias indústrias até os anos 1970. A mecanização do campo, a ascensão dos fast-foods [2] a persistência da gestão burocrática cada vez menos ineficiente (ao contrário do sentido atribuído por Weber ao termo ‘burocracia’), o crescimento da indústria cultural (TV, rádio, revistas, gibis), aumento do setor de serviços e a globalização não comportavam a produção em massa monopolizante de uma única marca. Com isso, emergiriam outros modelos de organização do trabalho nas sociedades industrializadas.

Tempos modernos (1936): filme de Charles Chaplin retratando o fordismo e taylorismo.

Próximas postagens sobre modelos de organização industrial

NOTAS

[1]A história de Whitney é um dos mitos fundantes da Revolução Industrial. Como nas narrativas similares, não fez fortuna com o invento. Tampouco o crédito deve ser todo dele: a sra.Greene tornou o invento eficaz e viável. A expedição do luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira (1756 — 1815) pela Amazônia em 1783 registra um descaroçador manual de algodão em um desenho feito por José Codina. O mesmo modelo continua a ser usado nos rincões do Nordeste e da Amazônia. Na África e Índia já havia outros descaroçadores. Quem garante que Whitney não roubou a ideia de um africano em Savannah?

[2] Se a produção em massa de alimentos permitiu crescer a população sem graves crises de fome, os fast-foods e a agroindústria funcionam pela lógica do neotaylorismo, assista ao Fome de poder (2017).

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