O mundo interior de Farias Brito

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Se não sei o que sou, nem para que vim ao mundo, não posso saber uma norma de conduta

Pensador singular brasileiro, Farias Brito propôs uma filosofia do Espírito não reducionista sistematizada em seu livro O Mundo Interior.

Altos e baixos

A vida de Raimundo Farias Brito (1862—1917)  não chega ser uma historia calamitatum, mas teve poucos altos e muitos baixos.

Filho de agricultores nascido no povoado de São Benedito, na serra da Ibiapaba, no Ceará, seus pais se desdobraram para educar seu filho brilhante que estudava latim e alemão sozinho. Ainda no ensino médio, Farias Brito complementava a renda familiar com aulas particulares. A família mudou-se para o Recife para Raimundo cursar a Faculdade de Direito. O pai achou emprego como porteiro do Ginásio Pernambucano, enquanto a mãe fazia pensão e engomava roupas para estudantes e o irmão trabalhava em uma charutaria.

A Faculdade de Direito do Recife vivia uma efervescência cultural. Era a geração de Tobias Barreto, Sílvio Romero e Clóvis Bevilácqua, quando se firmou a célebre Escola do Recife de filosofia e pensamento social. Terminou o curso de direito em 1884, um ano mais cedo que seus pares.

Como jurista e intelectual viveu profissionalmente sob a espada de Dâmocles. Seu primeiro emprego foi ser promotor em Viçosa, CE, em tempos quando o ministério público era carreira desprestigiada. Começou a escrever artigos filosóficos para o jornal Libertador de Fortaleza.

A perspicácia de Farias Brito rendeu-lhe uma oportunidade quando em 1888 o presidente da Província do Ceará, Antônio Caio da Silva Prado, nomeou-o Secretário de Governo. Mas, Caio Prado faleceu um ano depois, Farias Brito ficou sem emprego. Foi ao Rio estudar matemática, mas sem dinheiro teve de retornar ao Ceará. Com a proclamação da república, inscreveu-se como candidato constituinte, mas a eleição não concretizou como esperada. Fez concurso para o Liceu Cearense e em 1891 é nomeado novamente secretário do governador do Ceará, mas a fortuna prega-lhe outra peça novamente. A crise do governo Deodoro e Floriano acabou com a remoção de vários governadores. Farias Brito perde o emprego sob bombardeio do palácio do governador e teve que se refugiar da represália florianista.

Sua vida pessoal também foi trágica. Seu primeiro casamento durou quatro anos quando faleceu sua esposa deixando uma filha infante em 1897. Em 1901 tenta viajar para Europa, mas vai ao Rio. Por fim, nesse ano volta ao Ceará para casar-se a segunda vez.

No início do século XX os bons ventos sopraram-lhe sorte. Em 1902 muda-se para Belém, onde leciona na Faculdade de Direito, faz vários clientes e é nomeado promotor público.

Animado com o sucesso como docente, decide deixar a carreira jurídica. Faz concurso para a cadeira de lógica no Colégio D. Pedro II. Passa em primeiro lugar, mas Euclides da Cunha, o candidato classificado em segundo no concurso e protegido do Barão do Rio Branco, é nomeado. Entretanto, a morte trágica de Euclides da Cunha faz-lhe insistir na vaga, sendo nomeado para a disciplina que seria extinta três anos depois em uma reforma educacional que extinguiu a filosofia e a lógica.

No Rio travou amizade com Jackson de Figueiredo (1891 — 1928). Ele em 1916 escreveria a primeira avaliação acadêmica da obra do amigo: Algumas reflexões sobre a filosofia de Farias Brito, publicada pela Revista dos Tribunais em 1919.

Tentou, sem sucesso, uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Morreu de tuberculose em 1917 aos 55 anos.

Pensamento Singular

Se a vida pública de Farias Brito teve seus reveses, construiu um sólido castelo interior. O pensamento de Farias Brito pode ser chamado de filosofia do espírito — espírito tanto no sentido de Geist quanto de psiquê.

O método de Farias Brito é sistemático. Partindo de questões fundamentais, analisa várias alternativas em filosofia, apontando suas limitações e potencialidades, para então apresentar seu pensamento original. Vale ressaltar que nesse método valoriza a introspecção e a intuição. Para o autor, a busca pela verdade é totalizante, existencial: nesse processo de busca, o sujeito é afetado.

Com uma familiaridade profunda com os textos filosóficos de seu tempo e da história do pensamento, via na filosofia a busca de sentido moral para a vida.

Compartilhou temas, influências kantianas e métodos da Escola do Recife (que por falta de opção melhor é, por vezes, classificado como integrante). No entanto, Farias Brito rejeita como reducionista o positivismo cientificista de Comte, o organicismo individual e o evolucionismo social de Spencer, o monismo de Haeckel, bem como o materialismo de Marx. A filosofia do Brasil na época era dominada por acirradas polêmicas entre leigos, bacharéis ou sacerdotes. Católicos ultramontanos como José Soriano de Souza, o espiritualismo de Gonçalves de Magalhães, o neokantismo da Escola do Recife de Tobias Barreto e o Positivismo quase oficial da nova República estavam muito ocupados em se digladiar e ignoraram as propostas de Farias Brito.

Desconfiado do progressismo otimista da virada do século, propunha que esses sistemas de pensamentos eram incompletos para reformar o homem. As mudanças deveriam não vir por ideologias ou mesmo a religião, mas por uma reforma moral interior mediante a filosofia. As questões metafísicas deveriam sim ser abordadas, sem um desprezo cientificista ou dogmático. A filosofia serviria para mediar as interações produtivas e conciliatórias entre ciência, arte e religião.

Farias Brito resgata a noção socrática de filosofia como o amor à sabedoria. A disciplina, não um mero método de compreensão do mundo, seria antes um meio de ligar o conhecimento à moral.

Após alguns artigos iniciais alinhados com a Escola do Recife, Farias Brito iniciou uma reflexão original sobre questões existenciais a vida, morte e a moral. As influências de Espinosa e Schopenhauer direcionaram sua inquirição. Analisou as propostas da nascente psicologia (fisiologistas, estruturalistas como Wundt e pragmatistas como William James). Antecede a psicologia humanista, o método fenomenológico, o pós-positivismo, a filosofia perene e o existencialismo.

Farias Brito rejeitou a crítica kantiana à metafísica. Para ele, a filosofia integrava o conhecimento pré-científico (em via elaboração, baseado na técnica) com conhecimento supercientífico (compreensão total, baseado na moral, ou seja, o que fazer com o conhecimento). Essa última forma de conhecimento seria a metafísica. Porém, como Kant, Farias Brito desassociava a moral da religião. A filosofia guiaria as decisões morais.

A realidade seria monista e espiritual. A posição de Farias Brito seria chamado panpsiquismo panteísta por ver Deus como a inteligência pervasiva na realidade.

Venturou-se na poesia (Cantos Modernos, 1889), na história (Fenícios e Hebreus, 1891), na etnologia (Homens do Ceará, 1896), mas se concentraria nos estudos filosóficos, publicados com fundos do autor.

Propôs sistematizar seu pensamento em uma série com três volumes intitulada Finalidade do mundo: ensaios de Filosofia e Teleologia Naturalista. (Título às vezes referenciado erroneamente como ‘Teologia’ Naturalista). Em 1895 sai o primeiro volume A filosofia como atividade permanente do Espírito, quatro anos depois o segundo: A filosofia moderna, em 1905 O mundo como atividade intelectual. Nesse mesmo ano sai A verdade como regra das ações. No Rio publica em 1912 A base física do Espírito. É em seu O mundo interior:  ensaio sobre os dados gerais da filosofia do espírito que apresenta seu pensamento mais maduro. Uma obra-síntese é Ensaio sobre o conhecimento (1912), manuscrito esquecido entre os papeis de Jackson de Figueiredo até 1954 e somente publicado em 2003 pelo editor português António Braz Teixeira. A quem queira iniciar-se em Farias Brito, recomendo ler esse curto ensaio, hoje incorporado como apêndice de O mundo interior, para um panorama de seu ponto de vista crítico, histórico, sistemático e moral.

O que disseram sobre Farias Brito

Seus escritos foram elogiados por quem teve o trabalho de ler sua escrita enfadonha e prolixa, ainda que clara. Entretanto, exceto a breve resenha do amigo Jackson de Figueiredo e um parecer de Silvio Romero para o concurso do D.Pedro II, sua filosofia não causou o impacto esperado durante sua vida. Tampouco fez discípulos.

A biografia publicada em 1939 por Jônathas Serrano (1885-1944) (Farias Brito- O homem e a obra. Cia Ed. Nacional)  despertou interesse pelo homem e, mais tarde, pelo seu pensamento.

A recepção da obra de Farias Brito ocorreu em ondas. A primeira onda inicia com Laerte Ramos de Carvalho, cuja tese A formação filosófica de Farias Brito (1951) fez parte da leva que contém obras como a Francisco Elías de Tejada y Spínola (Las doctrinas políticas de Raimundo de Farias Brito. Sevilla: EEHA, 1953) e Vitorino Felix de Sanson (A metafísica de Farias Brito. São Paulo: USP, 1951.).  A próxima onda foi no centenário do filósofo. Em um congresso no Ceará, o norte-americano Fred Gillette Sturm apresentou seu paper O Significado Atual do Pensamento Britiano. (Anais do IV Congresso Nacional de Filosofia. São Paulo/Fortaleza: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1962). Nesse mesmo ano apareceram os trabalhos de A. Nogueira (Farias Brito e a filosofia do espírito. Rio de Janeiro: Freitas Bastos) e  C. L. Mattos (O pensamento de Farias Brito. São Paulo: Helder). A próxima onda seria nos anos 1980, época de revalorização da filosofia brasileira. Agora, desde os anos 2000 consolidaram-se os estudos britianos.

Esboço esquemático

FARIAS BRITO, Raimundo. O mundo interior: Ensaio sobre os dados gerais da Filosofia do Espírito. Uberlândia: Edufu, 2014.

Estudo Introdutório (Luiz Alberto Cerqueira)
Farias Brito como expressão da vivência filosófica brasileira
Farias Brito na historiografia filosófica brasileira
Cronologia
Referências

O MUNDO INTERIOR

Livro 1 As novas tendências do pensamento

Capítulo I Necessidade de uma orientação nova

  • 1 – A situação atual
  • 2 – Caráter provisório da obra dos psicólogos modernos
  • 3 – Determinação precisa do conceito da psicologia
  • 4 – A psicologia e a arte
  • 5 – A psicologia e a metafísica
  • 6 – Sistematização geral dos estudos psíquicos

Capítulo II O renascimento da filosófica do espírito

  • 7 – O espírito novo na filosófica
  • 8 – A morte das doutrinas de demolição
  • 9 – O dogma da filosofia do desespero

Capítulo III A filosofia do espírito e as investigações mais recentes sobre o passado mais remoto do homem

  • 10 – Das origens da filosofia do espírito
  • 11 – O dogma da queda: Renouvier
  • 12 – O dogma da queda: Secretan
  • 13 – Um escritor nosso: nova luz sobre o passado

Capítulo IV Significação histórica e interpretação real do verdadeiro sentido das religiões

  • 14 – Sobre o valor da história. O espírito como centro da esfera infinita do universo
  • 15 – Atitude reacionária da ciência moderna com relação às religiões
  • 16 – A ciência das religiões
  • 17 – Religião e filosofia

Livro 2 Questão fundamental: a “coisa em si” e os fenômenos

Capítulo I A questão da “coisa em si” e dos fenômenos

  • 18 – Necessidade de uma rigorosa delimitação do conceito do espírito
  • 19 – A questão da “coisa em si” e dos fenômenos em seu desenvolvimento histórico
  • 20 – A questão da “coisa em si” e dos fenômenos na filosofia crítica
  • 21 – A “coisa em si” e a metafísica
  • 22 – As eventualidades da “coisa em si” na própria filosofia de Kant
  • 23 – A “coisa em si” na filosofia de Fichte
  • 24 – A “coisa em si” na filosofia de Schelling
  • 25 – A “coisa em si” na filosofia de Schopenhauer
  • 26 – A “coisa em si” na filosofia de Renouvier
  • 27 – A “coisa em si” na escola positivista: o conceito do incognoscível
  • 28 – A “coisa em si” na filosofia de Spencer
  • 29 – A “coisa em si” na filosofia de Hartmann: o conceito do inconsciente

Capítulo II Desenvolvimento sobre a questão da “coisa em si” e dos fenômenos: o pragmatismo

  • 30 – Influência das ideias de Schopenhauer
  • 31 – A filosofia das ideias-forças de Fouillée
  • 32 – O voluntarismo psicológico de Wundt
  • 33 – O pragmatismo
  • 34 – O pragmatismo e o critério da verdade
  • 35 – O pragmatismo e a religião

Capítulo III Ainda desenvolvimento sobre a questão da “coisa em si” e dos fenômenos: a filosofia de Bergson

  • 36 – A nova doutrina
  • 37 – Filosofia e ciência
  • 38 – O ponto de vista fundamental do bergsonismo
  • 39 – Dados imediatos da consciência
  • 40 – Intensidade dos estados psicológicos
  • 41 – Multiplicidade dos estados psicológicos
  • 42 – O espaço e a duração
  • 43 – O movimento
  • 44 – O eu e sua sombra
  • 45 – Organização dos estados psicológicos: liberdade
  • 46 – O determinismo e a previsão de fatos futuros
  • 47 – O determinismo e a lei de causalidade
  • 48 – Seremos sempre livres?
  • 49 – Atitude de Bergson com relação à questão da “coisa em si” e dos fenômenos
  • 50 – Bergsonismo e pragmatismo

Capítulo IV Vista retrospectiva: evoluções do conceito da vontade – de Schopenhauer a Bergson

  • 51 – Sobre o valor da história no trabalho da investigação filosófica
  • 52 – Sobre o caso particular da questão da “coisa em si” e dos fenômenos em relação com a história do pensamento
  • 53 – O momento ontológico na evolução da teoria da vontade: Schopenhauer
  • 54 – O momento empírico: pragmatismo
  • 55 – O momento psicológico: Bergson

Capítulo V O fenomenismo absoluto: caráter vago e indeterminado de seus conceitos fundamentais

  • 56 – Fenômeno e representação
  • 57 – Aparência e realidade
  • 58 – Realidade e verdade
  • 59 – Relação e relatividade: o absoluto e o relativo; o sujeito e o objeto; o espírito e a matéria
  • 60 – Influência crescente do princípio da relatividade: a relação substituindo o absoluto

Capítulo VI Do fenomenismo ao idealismo: idealismo absoluto

  • 61 – Determinação precisa do conceito de fenômeno
  • 62 – O conceito de fenômeno na filosofia fenomenista: diversas acepções
  • 63 – Em que consiste o erro do fenomenismo
  • 64 – Influência da ilusão fenomenista
  • 65 – Verdadeira significação histórica do fenomenismo: o imaterialismo de Berkeley e o fenomenismo
  • 66 – Desenvolvimento sobre o imaterialismo de Berkeley
  • 67 – Atitude do fenomenismo em face do imaterialismo de Berkeley: insubstancialismo radical. Múltiplos aspectos do fenomenismo
  • 68 – O idealismo absoluto
  • 69 – Conclusão sobre o idealismo absoluto: a realidade do mundo exterior como afirmação permanente da consciência
  • 70 – Transição para a dedução do conceito da “coisa em si”

Capítulo VII Solução definitiva da questão da “coisa em si” e dos fenômenos: o espírito como “coisa em si”; o mundo como fenômeno do espírito

  • 71 – A natureza exterior
  • 72 – A filosofia do vir-a-ser e da mudança: de Heráclito a Bergson
  • 73 – Dedução do conceito da “coisa em si”
  • 74 – A “coisa em si” ou a existência verdadeira no homem
  • 75 – A “coisa em si” no animal e na planta
  • 76 – A “coisa em si” nos corpos inorgânicos
  • 77 – Existe a matéria?
  • 78 – O espírito como “coisa em si”: a matéria como fenômeno do espírito
  • 79 – A alma e o corpo

Capítulo VIII Primado da inteligência: caráter negativo do conceito da vontade

  • 80 – Fanatismo da vontade: a vontade e o materialismo moral
  • 81 – Preponderância do conceito da vontade na filosofia contemporânea
  • 82 – A filosofia do imperialismo: Ernest Seillière
  • 83 – A vontade como conceito negativo
  • 84 – A vontade como poder: notas e esclarecimentos
  • 85 – A vontade como sinal de imperfeição
  • 86 – A vontade como fenômeno da inteligência
  • 87 – O conhecimento ou a contemplação pura como condição de libertação
  • 88 – O valor da inteligência
  • 89 – A questão do método: significação e valor da introspecção

APÊNDICE: ENSAIO SOBRE O CONHECIMENTO

Capítulo I Por que volto a me ocupar de assuntos filosóficos

  • 1 – Da extensão do conhecimento
  • 2 – Não sou um visionário, nem um místico
  • 3 – Em meu esforço pelo conhecimento nenhum socorro me vem de fora
  • 4 – Tenho vivido para estudar e meditar uma questão única: significação de meus anteriores trabalhos

Capítulo II O ponto de vista crítico: o conceito da filosofia e sua significação fundamental como atividade do espírito

  • 5 – Posição da questão
  • 6 – Filosofia e ciência
  • 7 – Filosofia pré-científica e filosofia supercientífica
  • 8 – Perennis philosophia

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