Diálogo meliano

O diálogo entre os atenienses e os mélios

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Durante a guerra fratricida entre Atenas — a potência comercial e marítima — e Esparta — a cidade-estado guerreira e pastoril, a pequena Mélia alia-se aos espartanos, ainda que estivesse próxima de Atenas e etnicamente fosse dória.

Tucídides retrata essa negociação ocorrida em 416 a.C. Os melianos apelam para a justiça e o bom-senso, enquanto os atenienses demonstram forças. Trata-se do texto clássico em que se argumenta o realismo político, teoria que prima pelos atos pragmáticos dos atores nas relações políticas.


84. No verão subsequente Alcibíades navegou para Argos com vinte naus e capturou os argivos que ainda lhe pareciam suspeitos e favoráveis aos lacedemônios, totalizando trezentos homens; os atenienses os confinaram nas ilhas próximas, pertencentes ao seu império. Realizaram também uma expedição contra a ilha de Melos? com trinta naus próprias, seis quianas e duas lésbias, levando mil e duzentos hoplitas seus, trezentos archeiros a pé e vinte montados, além de mil e quinhentos hoplitas de seus aliados ilhéus. Os mélios são colonos lacedemônios e se recusavam a obedecer aos atenienses, ao contrário dos demais ilhéus. A princípio permaneceram quietos e neutros, mas quando os atenienses passaram a devastar as suas terras numa tentativa para compeli-los a aderir, eles saíram abertamente para a guerra. Diante disto, acampando em seu território com o dispositivo militar acima relacionado, os comandantes atenienses Cleômedes filho de Licômedes e Tísias filho de Tisímacos, antes de causar qualquer dano às suas terras, mandaram emissários levando propostas para um entendimento com os mélios. Estes não levaram os emissários à presença do povo, mas lhes mandaram transmitir às autoridades locais e a outras poucas pessoas a mensagem que traziam. Os emissários atenienses disseram então o seguinte:

85. “Já que nossas propostas não serão feitas diante do povo, para evitar que a maioria se deixe levar pelo efeito de um discurso seguido, ouvindo rapidamente argumentos sedutores sem poder replicar (percebemos que nos colocais diante de poucas pessoas com esta intenção), adotai, então, vós que estais sentados aqui, um procedimento ainda mais seguro: examinai cada tópico isoladamente, evitai, vós também, o sistema de um discurso seguido e, em relação às nossas afirmações que não vos pareçam satisfatórias, replicai imediatamente após haver formado o vosso julgamento. Dizei-nos primeiro se nossa proposta vos convém”.

86. Os representantes dos mélios responderam: “A conveniência de podermos esclarecer-nos calmamente uns aos outros entre nós não inspira qualquer crítica, mas estes atos de guerra, presentes e não futuros, divergem manifestamente de vossa sugestão. Vemos, com efeito, que viestes para serdes vós mesmos os juízes do que devemos dizer, e o resultado do debate é evidente: se vencermos na discussão por ser justa a nossa causa, e então nos recusarmos a ceder, será a guerra para nós; se nos deixarmos convencer, será a servidão”.

87. Atenienses: “Ora: se fordes levantar suspeitas, por conjecturas, a propósito do que poderá acontecer no futuro, ou se tendes outro propósito além de deliberar sobre a salvação de vossa cidade à luz dos fatos evidentes diante de vossos olhos, pararemos; se, ao contrário, este último é o vosso objetivo, falaremos”.

88. Mélios: “É natural e perdoável em homens em nossa posição recorrer a muitos argumentos e suposições. Seja como for, o objetivo da presente reunião é a nossa salvação, e a discussão, se quiserdes, deverá prosseguir da maneira que propusestes”

89. Atenienses: “De nossa parte, então, não usaremos frases bonitas, dizendo que exercemos o direito de dominar porque derrotamos os persas?’, ou que estamos vindo contra vós porque fomos ofendidos, apresentando num longo discurso argumentos nada convincentes; não julgamos conveniente, tampouco, que afirmeis que não vos juntastes a nós na guerra por serdes colonos dos lacedemônios, ou que desejeis convencer-nos de que não nos ofendestes de forma alguma. Preferimos pensar que esperais obter o possível diante de nossos e vossos sentimentos reais, pois deveis saber tanto quanto nós que o justo, nas discussões entre os homens, só prevalece quando os interesses de ambos os lados são compatíveis, e que os fortes exercem o poder e os fracos se submetem”.

90. Mélios: “De qualquer modo acreditamos ser conveniente (somos compelidos a falar em conveniência, pois estabelecestes o critério de deixar de lado o direito para falar de vantagens) que não elimineis o princípio do bem comum; deveis proporcionar sempre àqueles que estão em perigo o respeito normal aos seus direitos, pois ainda que seus argumentos não sejam ótimos, poderão ser de alguma utilidade para convencer-vos. Isto não vos interessa menos que a nós, pois se alguma vez sofrerdes um revés, incorrereis num castigo mais severo, pois alegarão contra vós o exemplo que vós mesmos destes”.

91. Atenienses: ” Quanto a nós e ao nosso império, ainda que ele deva cessar de existir não olhamos para esse fim com aflição. Não são aqueles que exercem o império sobre outros, como os lacedemônios também fazem (nosso debate agora não é sobre os lacedemônios), que agem com mais crueldade em relação aos vencidos; são povos dominados capazes de atacar e vencer os seus senhores se tiverem uma oportunidade. Deixai-nos correr o risco de agir assim. Mostraremos claramente que é para o benefício de nosso império, e também para a salvação de vossa cidade, que estamos aqui dirigindo-vos a palavra, pois nosso desejo é manter o domínio sobre vós sem problemas para nós, e ver-vos a salvo para a vantagem de ambos os lados”.

92. Mélios: “Mas que vantagem poderemos ter em ser escravos, em comparação com a vossa em dominar-nos?”

93. Atenienses: “Ser-vos-ia vantajoso submeter-vos antes de terdes sofrido os mais terríveis males, e nós ganharíamos por não termos de vos destruir”.

94. Mélios: “Então vós não consentiríeis em deixar-nos tranquilos e em sermos amigos em vez de inimigos, sem nos aliarmos a qualquer dos lados?”

95. Atenienses: “Não, pois vossa hostilidade não nos prejudicaria tanto quanto vossa amizade; com efeito, aos olhos de nossos súditos esta seria uma prova de nossa fraqueza, enquanto o vosso ódio é uma demonstração de nossa força”.

96. Mélios: “A noção de vossos súditos quanto ao que é normal os leva a pôr na mesma categoria aqueles que nada significam para vós e aqueles que, sendo vossos próprios colonos na maioria dos casos, e em outros, súditos revoltados, foram reduzido à submissão?”

97. Atenienses: ” Quanto a pretensões a direitos, pensam que elas não faltam em qualquer dos dois casos, mas pensam também que aqueles que preservam a sua liberdade a devem à sua força e que não os atacamos por medo. Assim, para nada dizer quanto ao fato de aumentarmos o nosso império, trar-nos-íeis segurança graças à vossa submissão, especialmente se, como ilhéus e mais fracos que outros ilhéus, falhásseis na tentativa de mostrar-vos superiores aos senhores dos mares”.

98. Mélios: “Mas não vedes segurança na outra alternativa?'” Aqui também nos cumpre, do mesmo modo que nos forçastes a abandonar a ideia de qualquer apelo à justiça e a tentar persuadir-nos de que devemos ater-nos aos vossos interesses, dizer-vos o que nos é vantajoso e tentar persuadir-vos a aceitá-lo, se coincidentemente isto também vos for vantajoso. Como não tornaríeis vossos inimigos todos os neutros atuais, logo que eles tivessem conhecimento de nosso caso e chegassem à conclusão de que algum dia iríeis também atacá-los? Que estais fazendo nestas circunstâncias senão fortalecer os vossos inimigos atuais e atrair a hostilidade de outros que jamais teriam pensado em vir a ser vossos inimigos, mudando-lhes os sentimentos atuais?”

99. Atenienses: “Não, pois não consideramos mais perigosos aqueles que, morando em algum lugar no continente e sendo homens livres, não se apressam em tomar precauções contra nós, e sim os ilhéus, livres de qualquer dominação, como vós, bem como aqueles já impacientes com a necessidade de submissão ao nosso império. Estes são os que mais provavelmente se deixarão levar por um comportamento irracional a correr perigos imprevisíveis, arrastando-nos com eles aos mesmos.”

100. Mélios: “Certamente, então, se vós e vossos súditos correis um risco tão grande, vós para não perderdes o vosso império, e eles, que já são escravos, para se livrarem dele, para nós, que ainda mantemos a nossa liberdade, seria o cúmulo da degradação e covardia se não recorrêssemos a qualquer meio antes de nos submetermos à escravidão”.

101. Atenienses: “Não, se deliberardes sensatamente; não se trata para vós de um confronto em igualdade de condições para decidir quem é mais corajoso, para escapar a uma humilhação; vossa decisão é mais quanto à própria salvação, evitando oferecer resistência diante de quem é muito mais forte” .

102. Mélios: “Sabemos que a sorte na guerra é sujeita freqüentemente a imprevistos, independentemente do número dos combatentes. Para nós, ceder imediatamente é perder toda a esperança, mas agindo ainda podemos esperar manter-nos de pé”.

103. Atenienses: “A esperança é um estimulante para o perigo, e para aqueles que dispõem de outros recursos, embora possa prejudicá-los ela não os leva à ruína, mas para quem arrisca tudo num só lance – a esperança é pródiga por natureza – seu verdadeiro caráter só é percebido quando o desastre já aconteceu; quando finalmente se revela a sua precariedade, ela não oferece à sua vítima qualquer oportunidade para precaver-se após essa revelação. É isto que vós, fracos como sois e sós num dos pratos da balan­ça, deveis evitar; não imiteis a maioria que, quando ainda é possível a salva­ção por meios humanos disponíveis, logo que a desgraça chega e lhe fogem todas as esperanças reais se entrega às irreais – vaticínios, oráculos e outras semelhantes – que se juntam a tais esperanças para levar os homens à ruína”.

104. Mélios:” Nós também – não duvideis – achamos difícil lutar contra a vossa força e contra a sorte (salvo se ela for imparcial); apesar disto confiamos, com vistas à sorte, em que graças ao favor divino não estaremos em desvantagem, pois somos homens pios enfrentando homens injustos; quanto à força, confiamos em que a aliança lacedemônia nos socorrerá no que for necessário, pois ela terá de ajudar-nos, se não por outras razões, por nossas afinidades étnicas e por uma questão de honra. Logo, nossa confian­ ça não é totalmente irracional”.

105. Atenienses: “Quanto à benevolência divina, esperamos que ela também não nos falte. Realmente, em nossas ações não nos estamos afastando da reverência humana diante das divindades ou do que ela aconselha no trato com as mesmas. Dos deuses nós supomos e dos homens sabemos que, por uma imposição de sua própria natureza, sempre que podem eles mandam. Em nosso caso, portanto, não impusemos esta lei nem fomos os primeiros a aplicar os seus preceitos; encontramo-la vigente e ela vigorará para sempre depois de nós; pomo-la em prática, então, convencidos de que vós e os outros, se detentores da mesma força nossa, agiríeis da mesma forma. Logo, no tocante ao favor divino é compreensível que não receemos estar em desvantagem. Quanto à vossa opinião a respeito dos lacedemônios e à vossa firme confiança em que, por uma questão de honra, eles certamente virão socorrer-vos, embora apreciando a vossa ingenuidade nós não invejamos a vossa insensatez. Devemos reconhecer que, quando se trata deles mesmos e das instituições locais, eles praticam a virtude ao máximo; sua conduta em relação aos outros, porém, embora seja possível falar longamente sobre o seu procedimento diremos apenas, resumindo o essencial, que nenhum povo, entre todos aqueles com os quais convivemos, considera de maneira mais ostensiva bom o que lhe agrada e justo o que serve aos seus interesses. Ora: tal atitude não é favorável à vossa esperança irracional de ser salvos por eles agora”.

106. Mélios: “Mas exatamente nisto encontramos as razões mais fortes de confiança: em seu próprio interesse os lacedemônios não quererão trair os mélios, seus colonos, para não incorrerem na desconfiança de todos os helenos agora simpatizantes deles, além de ao mesmo tempo ser úteis aos seus inimigos”.

107. Atenienses: “Não percebeis, então, que o interesse próprio anda lado a lado com a segurança, enquanto é perigoso cultivar a justiça e a honra?” (Em geral os lacedemônios se atrevem o mínimo possível a enfrentar este perigo.)

108. Mélios: “Cremos que mesmo tais perigos eles estariam dispostos a correr por nossa causa, e que se considerariam menos expostos a eles do que se os corressem por outros, pois estamos de certo modo perto do Peloponeso e isto lhes facilita os meios de agir, enquanto as afinidades étnicas nos tornam mais confiáveis que outros”.

109. Atenienses: “Mas a homens prestes a empenhar-se em combate, o que lhes inspira confiança não é obviamente a boa vontade dos que lhes pedem ajuda, e sim a nítida superioridade em forças que eles possam ter (a isto os lacedemônios estão mais atentos que quaisquer outros). Seja como for, eles confiam tão pouco em seus próprios recursos que sempre se associam com numerosos aliados quando vão atacar os seus vizinhos; logo, não é provável que eles embarquem para uma ilha enquanto dominarmos os mares”.

110. Mélios: “Mas eles poderiam mandar outros; além disto, o mar de ereta é vasto e portanto a captura de uma frota inimiga pelos senhores do mar será mais difícil do que a travessia em segurança por quem quiser passar despercebido. Se a tentativa falhar eles poderão voltar-se contra o vosso território e contra o resto de vossos aliados que Brasidas não conseguiu atacar; neste caso teríeis de esforçar-vos não por conquistar um território que nunca vos pertenceu, mas por preservar a vossa própria aliança e até a vossa própria terra”.

111. Atenienses: “Alguma dessas hipóteses poderia materializar-se, mas elas não seriam novidade para nós, e não ignorais que jamais os atenienses levantaram um cerco sequer por medo de qualquer outro povo. Não podemos deixar de observar, a esta altura, que depois de dizer-nos?’ que deliberaríeis sobre a vossa própria salvação, não apresentastes nesta já longa discussão uma única idéia aproveitável por homens que esperam salvar-se. Ao contrá­rio, os fundamentos mais sólidos para vossa confiança se limitam a meras esperanças, relativas ao futuro, enquanto vossos recursos presentes, comparados com aqueles já preparados contra vós, são insuficientes para justificar qualquer expectativa de sucesso. Demonstrareis uma disposição de espírito muito irracional se somente após deixar-nos ir embora chegardes a uma decisão mais sensata. Não deveis refugiar-vos nesse sentimento que leva freqüentemente os homens à ruína quando se vêem diante de situações perigosas claramente visíveis e aparentemente humilhantes: o temor da humilha­ ção. Muitos homens, com efeito, embora ainda possam prever os perigos para os quais estão deslizando, são dominados pela força de uma palavra enganadora – a chamada humilhação – até que, vítimas de uma palavra, afundam realmente, por sua própria atitude, em calamidades irreversíveis e assim incorrem numa humilhação ainda mais vergonhosa, pois se associa à insensatez e não ao infortúnio. Evitareis essa desgraça se deliberardes sabiamente, e não considerardes humilhante reconhecer-vos inferiores à cidade mais poderosa, que vos oferece condições moderadas – tornar-vos seus aliados, conservando o vosso território embora sujeitos ao pagamento de tributos – e, quando vos é dado escolher entre a guerra e a salvação, não vos apegardes obstinadamente à alternativa pior. Aqueles que não cedem diante de seus iguais, que agem como convém em relação aos mais fortes, e são moderados diante dos mais fracos, procedem corretamente. Refleti uma vez mais, então, após a nossa partida; atentai muitas vezes, durante vossas deliberações, para o fato de que está em jogo a salvação de vossa pátria, vossa única pátria, e de que de uma única decisão, boa ou má, dependerá o seu destino”.

112. Em seguida os atenienses se retiraram das negociações; os mélios, ficando sós, tomaram uma decisão condizente com os princípios defendidos antes e responderam o seguinte: “Nossa opinião, atenienses, não é outra senão a que tínhamos desde o início, e não iremos num instante privar de sua liberdade uma cidade habitada há setecentos anos; confiando na boa sorte que, com o favor divino, a preservou até agora, e na ajuda dos homens, principalmente dos lacedemônios, tentaremos salvar-nos. Propomo-vos ser vossos amigos, sem ser inimigos de qualquer lado; retirai-vos de nosso território após concluirmos um tratado que seja conveniente para ambas as partes”.

113. Assim responderam os mélios; os atenienses, encerrando então as negociações, disseram: “A julgar pelo resultado de vossas deliberações, parece-nos que sois os únicos a considerar os eventos futuros mais certos que os presentes diante de vossos olhos; vossos desejos vos fazem ver o irreal como se já estivesse acontecendo. Estais arriscando tudo ao depositar vossa confiança nos lacedemônios, na sorte e em esperanças, e perdereis tudo”.

114. Os emissários atenienses regressaram ao local onde estavam as tropas, e como os mélios não deram ouvidos a coisa alguma, seus generais iniciaram imediatamente as hostilidades e levantaram uma muralha em torno de MeIos, distribuindo as obras entre as tropas das várias cidades. Em seguida, deixando alguns de seus soldados e dos de seus aliados para ficarem de guarda por terra e por mar, partiram com o grosso de suas tropas; as que permaneceram lá mantinham a cidade sitiada.

Tucídides. História da guerra do Peloponeso. II.84-114. Tradução de Mário da Gama Kury.


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