A graduação em Filosofia, Política e Economia

Pense como um decisor político: como resolver o eterno problema de drogas? Legalizá-las? Reprimi-las com a polícia ou com medidas educativas? A que custo? A que benefício? Apesar de muitos experts de Facebook dizerem ter a solução, resolver problemas concretos requer um raciocínio afinado, informações certas e interação com diferentes atores sociais. Embora haja formações especialistas para tratar de facetas dessa questão, todos os tópicos controversos mereciam ser analisados e discutidos por quem tem um mínimo de conhecimento multidisciplinar no assunto. Uma graduação que daria bases para esse profissional é o curso de Filosofia, Política e Economia (FPE).

Conhecer filosofia permite pensar metodologicamente com clareza, habilidade oriunda tanto do estudo da lógica quanto do debate de ideias. Adicionalmente, proporciona subsídios para discussões sobre ética.

Saber a teoria e processos políticos capacita sonhar alto com os pés no chão. Saber navegar os caminhos pouco mapeados da política para conseguir resultados requer um preparo tanto nos fundamentos jurídicos e políticos do Estado. Mensurar o impacto de opinião pública ou o impacto das propostas é outra habilidade técnica necessária. A análise política, como na econômica, ainda que imprecisa, é melhor que puros chutes ou preferências facciosas ou ideológicas.

As noções de economia permite conciliar a eficácia e a eficiência das decisões políticas. Ponderar entre meios e fins meramente sob o ponto de vista econômico seria uma frieza desumana se não considerar as dimensões éticas e filosóficas.

A filosofia (o dever-ser), a ciência política (o ser) e a economia (o melhor meio para o resultado) se complementam.

Além de cargos eletivos no executivo e no legislativo, há a carreira do formado em FPE em cargos concursados. Quem não queira se envolver diretamente com o Estado, haveria nichos para trabalhar com consultoria, palestrantes, formadores de opinião, educação, jornalismo, relações públicas, finanças, além de ser uma formação desejável a qualquer diretoria ou conselho de empresas, hospitais, bancos, universidades e ONGs.

Adicionalmente, o formado em FPE teria uma sólida base para uma segunda graduação profissional e técnica. Haveria aproveitamento de créditos e conhecimento em cursos como o direito, a economia, a antropologia, a ciência política ou mesmo áreas divergentes: um médico beneficiaria em conhecer bem sobre políticas públicas de saúde e ética; um engenheiro ganha ao ter um bom fundamento jurídico e econômico; um professor teria bases para fomentar discussões informadas entre seus alunos.

O programa de Filosofia, Política e Economia nasceu como um curso de educação liberal na Universidade de Oxford em 1920. Ainda que os britânicos mantenham o apreço por uma educação generalista (por exemplo, o atual ministro das relações exteriores, o extravagante Boris Johnson, possui um diploma no Clássicos), sentiu-se a necessidade de uma formação em temas contemporâneos especialmente para quem queira trilhar uma carreira pública. Vários primeiro-ministros britânicos e Bill Clinton obtiveram o diploma em FPE. O sucesso do programa de Oxford inspirou outros similares ao redor do mundo, principalmente em nações da Comunidade Britânica.

Os países latinos desconfiam de graduações generalistas, mas recentemente na Espanha a Alianza 4 Universidades (Universidad Pompeu Fabra, Universidad Autónoma de Barcelona, Universidad Autónoma de Madrid y Universidad Carlos III de Madrid) lançaram um programa de elite de FEP.  No Brasil, não há um programa multidisciplinar como esse. O mais próximo seriam as graduações em relações internacionais, os bacharelados interdisciplinares em humanidades e ciências sociais e o bacharelado em Ciência do Estado da UFMG. A Universidade Federal de Alfenas oferece o bacharelado interdisciplinar em ciências e economia, em seis períodos, embora esteja mais próximo ao curso de Economia Civil dos países escandinavos que ao FPE. Ainda assim, são graduações muito especializadas, salvo os BIs. Em Portugal não há uma licenciatura com essa proposta.

Uma proposta grade curricular

Em tempos de excesso de informação, não há razões para ter um curso generalista de longo período. O foco seria desenvolver a capacidade de filtrar e processar informações. Para isso, um programa curricular de três anos seria suficiente para um curso de FPE. Dentre as disciplinas propostas, algumas delas poderiam ser eletivas ou opcionais.

Comunicação Produção de texto
Retórica
Debate
Produção audio-visual
Marketing político
Mídias Sociais
Formação Geral Optativas de ciências sociais ou humanas
Teoria da Administração
Estatística
Matemática Financeira
Análise de Rede
Teoria Geral do Direito
Direito Constitucional
Filosofia Introdução à Filosofia
Lógica
Ética
Epistemologia
Filosofia Política
História do Pensamento Político
Leitura dirigida dos clássicos do pensamento político
Eletivas de Filosofia
Política Teoria Política
Teoria do Estado
Eleições e Partidos Político
Gestão Pública
Ideologias Políticas
Organização do Estado
Opinião Pública e Grupos de Pressão
Teoria das Relações Internacionais
Políticas Públicas
Análise Política
Eletivas de Política
Economia Introdução à Economia
Macroeconomia
Microeconomia
História do Pensamento Econômico
História Econômica do Brasil
Orçamento Público
Econometria
Socioeconomia e Geopolítica
Economia Política
Eletivas de Economia
Monografia Final

Ganhos públicos com a Filosofia, Política e Economia

No caos de informações confusas, complexas e imprevisíveis atividades políticas, dilemas éticos, urgência para tomar decisões que afetarão a economia por décadas é desesperador ver que cargos eletivos e na alta administração pública sejam dominados por especialistas na jogatina política em detrimento das necessidades públicas. Recordem-se de Chernobil, cujo desastre foi causado por um burocrata que queria impressionar a cúpula política.

Em geral o serviço público carece ainda de uma profissionalização dos altos cargos da administração pública. Uma falha é a ausência de um cadre de profissionais tecnicamente capacitadas, politicamente responsáveis e experimentadas em gestão; ausência que privilegia a distribuição de cargos-chaves comissionados a apadrinhados. Outra deficiência é o patrimonialismo — questão que dá muito a ser discutido. Entretanto, falta uma formação superior específica para atrair pessoas brilhantes para carreiras destinadas às posições superiores da administração pública.

Nos países de língua portuguesa várias graduações preparam para vida pública: direito, ciências sociais, antropologia, ciências políticas, serviço social, gestão pública, economia, relações internacionais, administração, dentre outras. Essas formações proporcionam a admissão a cargos técnicos de titulação específica. Normalmente, são cargos sem uma real força para decidir na execução de políticas públicas, ainda que alguns desses cargos técnicos detém posições decisórias (magistratura e ministério). Pouca oportunidade há para educados em uma formação generalista, exceto a diplomacia, a auditoria fiscal e do trabalho.

Por um lado é bom. Ter uma porteira única de ascensão como no mandarinato chinês e na École Nationale d’Administration francesa acarretaria em um elitismo autoperpetuante e uma tecnocracia. Sendo  uma formação generalista e com o objetivo de formar líderes públicos, a graduação em Filosofia, Política e Economia abriria oportunidades em diferentes estratos sociais, pois seria ministrado por várias instituições de ensino públicas e privadas.  Um graduado em FPE poderia sem contestação por incapacidade técnica ser ministro da Justiça, da Fazenda, das Relações Exteriores, da Defesa ou da Cultura — minando o corporativismo dos formados em direito ou economia em diversos postos-chave. Ter alguém nesses cargos com capacidade para ponderar com ética, efetividade além de consciente das prescrições legais e impactos políticos seria um vislumbre de que as coisas podem dar certo.

SAIBA MAIS

Philosophy, Politics, and Economics – Oxford University

PPE: the Oxford degree that runs Britain

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