Inglaterra, Reino Unido, Grã-Bretanha e outras geografias confusas

— Os americanos falam um inglês muito…
— Os americanos de onde? Sou americano e sequer falo inglês.
— Está bem. Os norte-americanos possuem um sotaque…
— Norte-americanos do México, Canadá ou Groelândia?
— Arre! Os estadunidenses…
— Os estadunidenses dos Estados Unidos Mexicanos ou do antigo Estados Unidos do Brasil?
— OS ESTADUNIDENSESAMERICANOS!!!
— Ah, os yankees…o que têm eles?


Se caso já se deparou com um pedante como esse, esteja preparado para diferenciar outras geografias confusas, principalmente a de outros povos de língua inglesa.

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Inglaterra, Grã-Bretanha, Reino Unido e Bretanha

Inglaterra, País de Gales, Escócia formam a Grã-Bretanha, que somada com a Irlanda do Norte (parte da região histórica chamada Ulster) formam o Reino Unido. O Reino Unido, junto das dependências da Coroa —as Ilhas do Canal (Jérsei e Guérsnei) e a Ilha de Man —, e a República da Irlanda formam o Conselho Britânico-Irlandês, que compreendem geograficamente as ilhas Britânicas (exceto as Ilhas do Canal, fisicamente mais próxima da Normandia). Para complicar, a Bretanha fica na França e recebeu o nome porque os bretões migraram das Ilhas Britânicas para essa península entre os séculos IV e VI d.C.

Confuso, né?! Vamos por partes.

Grã-Bretanha: é uma ilha com 60 milhões de habitantes no Mar do Norte na Europa, constituída por três nações históricas: Inglaterra, Escócia e País de Gales. A ilha foi invadida sucessivamente por povos celtas, romanos (que deram o nome Britannia) e tribos germânicas — anglos, jutas, saxões, daneses — e esporadicamente por vikings até 1066, quando os normandos (vikings afrancesados) foram os últimos invasores a terem sucesso.

  • A Inglaterra legalmente existe tanto quanto o Reino de Algarves ou a Prússia. Ou seja, não existe. O que há é a região histórica, sem governo ou parlamento próprios, mas com administrações locais e regionais diretamente sujeitas ao Governo do Reino Unido. O Reino da Inglaterra existiu entre 927 d.C. e 1707, quando se uniu com o Reino da Escócia para formar o Reino da Grã-Bretanha. Além de seu time de futebol e bandeira sem graça (pano branco com um cruz vermelha), a Inglaterra tem sua religião oficial, o anglicanismo — uma mistura de calvinismo relapso com cerimônias pomposas e hierarquia do catolicismo — representado pela Church of England, cuja chefe é a rainha. Para saber mais, assista The Crown, que conta o início do reinado de Elizabeth II e o último governo Churchill.
    • Cornualha: um brinde. No extremo oeste da Inglaterra essa região que já foi um país independente tenta manter viva sua identidade, principalmente com o movimento de reavivar a língua córnica, também celta. Desde o século XI faz parte da Inglaterra, mas hoje há um governo regional, o Cornwall Council. Nas telas, a Cornualha aparece em filmes sobre o Rei Arthur ou Tristão e Isolda, legendariamente ligada ao Reino de Avalon.
  • A Escócia ou Alba é um das nações constituintes da Grã-Bretanha. Possui um parlamento e primeiro-ministro próprios. Possuem sua própria igreja, a Church of Scotlant ou the Kirk, de doutrina e regime presbiteriano. Também tem sua própria bandeira com a cruz de santo  André, a qual aparece na seleção escocesa da FIFA e é empunhada por hooligans próprios. Apesar de o gaélico ser a língua celta que evoca a identidade dos homens de kilt das Terras Altas, o inglês com sotaque gutural é o idioma mais falado, junto do scots — uma língua germânica das Terras Baixas Escocesas semelhante ao inglês. O prefixo Mac– é típico da onomástica escocesa e reflete as antigas linhagens dos clãs. A Escócia sempre se esforçou para manter sua independência em relação aos povos do sul, mas por complicações dinásticas, acabaram-se fundindo com seus vizinhos ingleses, embora haja um forte movimento separatista. Para saber mais, assista Outlander, que retrata o levante jacobino, o último ato militar escocês contra os ingleses.
  • O País de Gales ou Cymru foi o primeiro território a ser invadido pelo imperialismo inglês em 1282. Essa nação etnicamente é celta e fala uma língua cheia de perífrases, consoantes e palavras longas. Não há uma igreja estabelecida para Gales, mas as verdes colinas e vales abrigaram dissidentes e avivamentos fervorosos como Welsh Revival de 1904; por isso grupos evangélicos batistas, metodistas, presbiterianos, pentecostais e anglicanos não conformistas são ainda numericamente significantes. Tudo mundo tem um parente com o sobrenome Davis, Jones, Lloyd ou Williams. Embora adote o sistema legal inglês (Common Law), Gales ganhou autonomia política desde 1998, a devolução, assim os galeses têm seu primeiro-ministro e parlamento. Dê uma olhada em Hinterland, uma série detetivesca.

Irlanda ou Eire: a segunda maior e mais populosa ilha do arquipélago britânico, com 6 milhões de habitantes. Colonizada por povos celtas desde a idade do ferro, os irlandeses sofreram ataques costeiros mas só foram efetivamente invadidos pelos ingleses no século XVIII. Desde esse século, as relações entre irlandeses, ingleses e escoceses ficaram tensas. Surgiu uma minoria rica de língua inglesa e protestante enquanto a população rural católica (e alguns de língua gaélica) ficava às mínguas. Hoje a ilha está dividida em:

  • República da Irlanda ou Poblacht na hÉireanné uma república parlamentarista, cuja capital é Dublin, com rápido crescimento econômico (e  da comunidade de imigrantes brasileiros também). Majoritariamente católica, mas sem uma religião oficial. A ilha esmeralda possui duas línguas oficiais, mas o inglês é de fato a língua corrente, exceto em algumas regiões costeiras, chamadas de Gaeltacht. De 1916 a 1949 a Irlanda passou por doloroso processo de independência. Desse essa época não querem nada com os ingleses.  Os escritores irlandeses como Swift, Joyce e Beckett colocaram a ilha na literatura mundial. Assista o filme About Time (2013) para belos cenários.
  • Ulster e Irlanda do Norte: Ulster era uma das quatros regiões históricas da Irlanda colonizada por escoceses presbiterianos. No processo de independência, alguns condados do Ulster decidiram ficar ligadas ao Reino Unido, com capital em Belfast. Nem todos concordaram. Os nacionalistas, representados pelo IRA, iniciaram uma acirrada oposição aos unionistas. Depois de uma guerra civil, a Irlanda do Norte permanece em uma paz tensa firmada no Acordo da Sexta-Feira Santa de 1998. Hoje, o governo é exercido por dois primeiro-ministros e um parlamento autônomo dentro do Reino Unido. O filme Em Nome do Pai (1993) relata esses tempos tensos e foi baseado em um caso real.

Dependências da coroa: são territórios onde a Rainha do Reino Unido é a soberana, mas possuem plena autonomia interna. Na prática, as leis britânicas precisam da aprovação dos parlamentos dessas dependências para ter vigor. O Reino Unido é responsável pela defesa e relações exteriores. Não fazem parte do Reino Unido ou da Comunidade Britânica de Nações.

  • Ilha de Man: ilha celta entre a Irlanda e a Grã-Bretanha. A língua manx está virtualmente morta, mas há uma iniciativa de reavivá-la. Possui moeda própria, como também um governo, parlamento e judiciários próprios.
  • Ilhas do Canal: arquipélagos reminiscentes da origem normanda dos ingleses. As ilhas Jersey e Guernsey constituem dois bailiados, vassalos da Rainha. Em termos práticos, são autônomos, falam inglês e uma mistureba de francês normando.

Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte: é uma monarquia parlamentar que (exceto dos irlandeses que pularam fora e do processo de devolução dos poderes regionais), mantém uma união de soberano, parlamento e governo comuns desde o Acts of Union of 1707. Do reinado da Rainha Vitória até o início da descolonização depois da 2a Guerra Mundial, o Reino Unido expandiu e dominou o mundo, com colônias em todos os mares e continentes, notavelmente o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia, a Índia, Hong Kong e a África do Sul.

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Créditos extras

  • Bretanha ou Armórica: Após a queda do império Romano, muitos da população celta dos atuais País de Gales, Inglaterra e Cornualha migraram para o continente europeu. As principais colônias foram estabelecidas na Armórica e na Galícia. No caso dessa península no noroeste da França, a Armórica, a língua bretã sobreviveu. Os bretões formaram um reino, depois um ducado autônomo até ser divido em departamentos mais tarde na Revolução Francesa.
  • Comunidade Britânica das Nações: grêmio de 52 países que um dia foram colônias britânicas (e 16 deles ainda mantém a Rainha como chefe de Estado).
  • Brexit: processo de desligamento do Reino Unido da União Europeia. Depois do fatídico referendo de 23 de junho de 2016, a maioria dos votos foi favorável a um divórcio (nada amigável) dos europeus. Os londrinos, escoceses, os emigrados e a população mais jovem não gostaram. O Reino Unido, agora sem um império como dantes, ficará sem um mercado e fonte de insumos, além de perder privilégios de livre-circulação e residência na UE.

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