Metamorfoses: Ovídio e Kafka

Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo de qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.

– O que aconteceu comigo? – pensou.

RESUMO
Esse pesadelo acordado de Gregor sem motivo ou meio aparente é uma das aberturas mais chocantes da literatura. A naturalidade dessa transformação do protagonista em uma espécie desconhecida de inseto (mas tradicionalmente entendida como uma barata) causaria pânico a qualquer um. Deixou de falar, rastejava pela parede e se escondia debaixo dos móveis. Embora mantivesse a consciência humana, não demonstrava preocupação com sua nova forma. Seu incômodo aparente resultava de suas obrigações: não poderia mais trabalhar. A família encarou com asco a metamorfose, o pai atirou-lhe uma fruta que cravou no casco das costas, a irmã Grete até demonstrou piedade por um momento; mas a preocupação maior da família fora com a renda que o caixeiro-viajante Gregor não proporcionaria mais. Os pais voltaram a trabalhar e abriram o lar para receber pensionistas. Porém, o nojo pela critura era detrimental ao negócio. Pensavam em mudar para um apartamento menor, mas Gregor era um fardo e incômodo, pois não havia como acomodá-lo ou deixá-lo nessa mudança.

Confinado em seu quarto, Gregor morreu de fome pouco tempo depois.

A família, aliviada pela morte do inseto, sairam para passear. Notaram o quão bela a filha se tornara.


Antes do mar, da Terra e Céu que os cobre
Não tinha mais que um rosto a Natureza:
Este era o Caos, massa indigesta, rude
E consistente só num peso inerte.
Das coisas não bem juntas as discordes,
Priscas sementes em montão jaziam;
O Sol não dava claridade ao mundo,
Nem, crescendo, outra vez se reparavam
As pontas de marfim da nova Lua.
Não pendias, ó Terra, dentre os ares,
Na gravidade tua equilibrada,
Nem pelas grandes margens Anfitrite
Os espumosos braços dilatava.
Ar e pélago e terra estavam mistos:
As águas eram, pois, inavegáveis,
Os ares, negros, movediça, a terra.
Forma nenhuma em nenhum corpo havia
E neles uma coisa a outra obstava,
Que em cada qual dos embriões enormes
Pugnavam frio e quente, húmido e seco,
Mole e duro, o que é leve e é pesado.

RESUMO
O romano Ovídio (Publius Ovidius Naso, 43 aC – 18dC) compôs esse poema que retrata a transformação de pessoas em animais, rios e pedras. Começando com a criação com a ordem imposta ao Caos por um Deus, a narrativa concentra-se no momento das metamorfoses, não tanto nas vidas dos metamorfoseados. Escrito em latim em versos hexâmetros heroicos, traduzidos como decassílabos por Bocage, não se trata de uma antologia de mitos, mas um poema contínuo com transições abruptas nos quinze livros até a apoteose de Júlio César e a era de Augusto.

Dentre os belos mitos há o de Dafne, Júpiter e Europa, Perseu e Andrômeda, Píramo e Tisbe, Dédalo e Ícaro, Hércules, Eurídice, Jasão, Pigmaleão e Galatea, Eneias, Pitágoras Cadmo e Harmonia, Eco e Narciso, dentre outros. Essa obra foi a favorita de grandes autores como Shakespeare e Montaigne, mas infelizmente caiu no esquecimento desde a Renascença.

Com uma simetria formidável, a primeira parte (livros 1-2) relata uma cosmogonia, as fases da história, as interações do divino com o humano. A segunda parte (livros 3-6) a narrativa, que reúne mitos gregos e romanos, é mais centrada na humanidade,  foco da terceira parte (livros 6-11), na qual humanidade se transforma por suas próprias razões. Na parte final,  (livros 12-15) os humanos se tornam deuses.


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ANÁLISE
Nessas duas obras-primas do cânone ocidental há pontos comuns, como a impermanência do ser e a obviamente transformação de humanos em outros seres. Porém, cada uma é única ao tratar de temas perenes diversos.

A novela publicada originalmente em 1915 por Franz Kafka (1883-1924) retrata o absurdo, a alienação e a angústia da existência — especialmente no mundo em transformações modernizantes do fin-de-siècle industrial europeu. O autor praguense de expressão alemã do multiétnico Império Austro-Húngaro capturou os sentimentos que predominaram boa parte do século XX. Como na bizarra situação de Gregor, uma vida sem paixões ou trabalho desmotivado reduzem o ser humano a uma condição abjeta. O conto O arquivo de Victor Giudice remete a essa alienação que as obrigações sociais, sobretudo o trabalho, podem impor sobre o indivíduo.

A mensagem subjacente de Ovídio é a impermanência. Se a seres humanos, divinos ou híbridos transformam em outros animais são temas recorrentes dos folclores, mitologias e narrativas sagradas de diversos povos — desde deidades egípcias até contos de fadas com princesas beijando sapos —  Ovídio demonstra que deuses se tornam humanos e vice-versa. Desse modo, o otimismo do apogeu augustano deve ser apreciado com cautela.

Esteticamente, se a novela de Kafka evoca o nojo e desgosto, a obra de Ovídio transmite uma beleza heroica.

Ambas as narrativas possuem a moral implícita de “é melhor lidar com as mudanças”. No poema, quase não há detalhes da vida do “antes” ou do “depois” da transformação, mas sim no “durante”. Já na novela, nada se explica o processo de metamorfose, nada explica os motivos. Enquanto o rol de personagens metamorfoseados por Ovídio é gigantesco e engloba um verdadeiro mundo, o único a sofrer a mudança é Gregor Samsa na versão kafkesca. Por fim, o épico latino dá um telos, um objetivo para a história, em contraste, o escritor praguense narra o desolamento de uma história sem sentido.

Com esses temas perenes, tanto a estória de dois milênios quanto a estória de um século continuam contemporâneas apesar das muitas transformações que esse mundo passou.

 


VERSÕES SUGERIDAS

KAFKA, Franz. A metamorfose. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Tradução de Modesto Carone.

A primeira versão que li foi A Metamorfose. Clássicos de Bolso Nº20, Ediouro, s.d. Tradução de Marques Rebelo, que nunca encontrei mais. Sendo uma leitura adolescente, na época não possuía meios para avaliar a qualidade da tradução. A versão de Carone possui uma fluidez ao mesmo tempo que reproduz a voz errática de Kafka.

Para quem quiser arriscar ler o original em alemão, Die Verwandlung pode ser lido no Projeto Gutenberg alemão.
No site Domínio Público há uma versão produzida pela Universidade da Amazônia.

OVÍDIO. As Metamorfoses. São Paulo: Editora Hedra, 2000. Tradução de Manuel Maria de Barbosa du Bocage.

O texto de Bocage é clássico em língua portuguesa. Meu primeiro contato com esse livro foi The Metamorphoses, Barnes & Noble Classic Series, tradução de F.J.Miller, com boas notas e aparato de auxílio ao leitor.
Uma versão, traduzida por Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho está disponível no site da USP.
A obra completa de Ovídio está disponível em latim no The Latin Library.

daphne1

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