A diferença entre versão e tradução

divina

No sentido leigo, empregado até mesmo por tradutores profissionais e burocratas desinformados, tradução seria transpor um texto de uma língua estrangeira ao português. E a versão, para essas pessoas, seria passar um texto do português para a língua estrangeira. Porém, tal diferenciação simplista joga fora toda a teoria textual e de tradução.

Sem contar que para um tradutor com fluência nativa essa distinção não faz sentido algum. Para esse tradutor não haveria diferença entre passar um texto do idioma A para o idioma B ou vice-versa.

O tradutor, teórico da tradução e germanista teuto-brasileiro Erwin Theodor (nome autoral, seu sobrenome é Rosenthal)  explica bem essa diferença:

É corrente, provavelmente devido ao uso consagrado nas escolas, o engando segundo o qual a passagem de um texto estrangeiro para o português deve ser chamado de tradução, sendo versão – consoante aquele costume – a transferência do texto vernáculo para outro idioma qualquer. Manuseando entretanto dicionários de sinônimos, encontramos versão como correspondente a tradução, translação, traslado e variante e realmente não se reveste aquele hábito, adquirido na escola secundária (ensino de segundo grau), de nenhuma razão de existência[1]. Adotaremos aqui outra distinção, aproximada daquela frequentemente apontada em obras europeias e norte-americanas:

  • Tradução: trabalho consciente e exato de transposição de um idioma para outro, entretanto desprovido de cunho artístico.
  • Versão: trabalho de transposição, exato e artístico.
  • Recriação: trabalho de passagem de um texto para outro idioma, artístico, mas pouco exato.

O ponto de referência para estabelecermos o que seja exato, consciente é, evidentemente, a obra original. Considerada assim, a tradução é um trabalho baseado na correspondência natural ou relativa das palavras. A versão tem, ao mesmo tempo, de conservar a harmonia do todo, transportando para o outro idioma, assim como as suas qualidades estéticas e, em se tratando de poesia, procurará aproximar-se, inclusive em métrica e rima, do original. E aquela tradução que se esmera em observar a fidelidade semântica, a situação contextual e as propriedades estilísticas, sem atentar contra as boas normas do idioma II. A recriação tenta combinar a expressão original com a maior liberdade possível no idioma que utiliza. (THEODOR, 1976, p.88)

Em outras palavras (e terminologia), a tradução seria uma equivalência formal, cuja preocupação, normalmente, é enfocar na língua-fonte. Por outro lado, a versão seria a equivalência dinâmica, geralmente enfocada na língua-alvo, mas não menos precisa que a tradução. Por fim, a recriação seria a equivalência parafrástica, totalmente centrada na língua-alvo e na cultura de seus leitores.

Pode parecer uma picuinha escolástica, mas não é. Informar o leitor do caráter da tradução é ético e relevante. O clássico “versão brasileira Herbert Richers” escutado em tantos filmes antigos expressava bem essa distinção. Ao verter textos para dublagem ou legendas, a empresa de Herbert Richers declarava ao público uma transposição artística dos scripts em outros idiomas. Uma tradução minuciosa de um texto legal deve ser assim explicitada. Já As Mil e Uma Noites do Júlio César de Melo e Sousa, o célebre Malba Tahan, é uma bela recriação em português dessa obra-prima da literatura mundial, como também esse autor recriou em prosa O Inferno de Dante. A versão  literária de sir Richard Burton de Os Lusíadas ao inglês revela o quanto difícil é fazer essa transposição com um texto poético em outra língua. Se tivesse feito uma tradução, perderia o sentido da poesia.

Obra citada

THEODOR (ROSENTHAL), Erwin. Tradução: Ofício e Arte. São Paulo: Cultrix / EDUSP, 1976.


 

[1] Dicionário de Sinónimos. Tertúlia Edípica. Lisboa.

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