Considere um meme que viraliza online: sua força reside frequentemente no reconhecimento de uma imagem preexistente, seja uma cena de filme, uma pintura clássica ou uma fotografia notória, agora recontextualizada com humor ou ironia. Ou pense numa canção popular que incorpora um fragmento melódico (sample) de outra era, evocando nostalgia ou criando um diálogo entre gerações musicais. Mesmo uma campanha publicitária que parodia uma obra de arte conhecida ou um filme de culto depende da nossa capacidade de conectar os dois “textos”. Estas ocorrências banais demonstram um princípio central da comunicação e da cultura: nenhum texto opera isoladamente. Pelo contrário, estão inseridos numa vasta rede onde se referem, respondem e se reconfiguram mutuamente.

Intertextualidade
Foi a pensadora Julia Kristeva quem, nos anos 1960, cunhou o termo intertextualidade para designar esta condição fundamental da produção de sentido. Numa tentativa de sintetizar a semiótica estrutural de Ferdinand de Saussure com o dialogismo e a heteroglossia de Mikhail Bakhtin, Kristeva propôs que a noção de intertextualidade substituísse a de intersubjetividade. Argumentou que o significado não é transmitido diretamente entre escritor e leitor, mas emerge mediado por “códigos” culturais e pela vasta rede de textos anteriores que ambos mobilizam. Como Roland Barthes exploraria de forma semelhante, o sentido de um texto reside menos nele próprio do que na complexa teia de referências ativada durante a leitura.
Partindo desta formulação inicial, que situou a produção de sentido numa teia textual pré-existente, outros teóricos desenvolveram quadros analíticos distintos para mapear como essas relações textuais funcionam. Entre os mais influentes estão Umberto Eco e Gérard Genette, cujas abordagens, embora incidindo sobre o mesmo fenómeno – a inevitável conversação entre textos –, seguiram caminhos divergentes e serão exploradas a seguir.
Umberto Eco abordou a intertextualidade não pela via psicanalítica de Kristeva, mas através da semiótica cultural e da teoria da interpretação. Em O Papel do Leitor (1979), Eco postula a figura do Leitor-Modelo – um leitor implícito que o texto pressupõe, capaz de ativar as referências intertextuais nele inscritas. A interpretação depende da competência cultural do leitor, da sua capacidade de conectar o texto atual ao seu conhecimento enciclopédico – a memória de textos anteriores. Já em Obra Aberta (1962), Eco distingue entre textos fechados, que visam um significado fixo, e textos abertos (como o Ulysses de Joyce), concebidos para múltiplas interpretações. A intertextualidade, para Eco, floresce precisamente nestas obras abertas, que convidam o leitor a navegar por camadas de referências.
Eco vê a cultura como um labirinto do “já dito”, onde cada novo texto inevitavelmente recicla e reconfigura elementos anteriores. No Pós-escrito a O Nome da Rosa (1983), ele afirma: “Os livros falam sempre de outros livros, e cada história conta uma história que já foi contada.” Ao contrário de Kristeva, focada na literatura de vanguarda, Eco estende a análise à cultura de massa, examinando, por exemplo, Casablanca como um palimpsesto de clichés. Para ele, a intertextualidade é uma gramática cultural que molda desde romances policiais a publicidade. Contudo, em Os Limites da Interpretação (1990), Eco adverte contra a semiose hermética – a deriva interpretativa que gera conexões arbitrárias e infinitas. Defende que a interpretação intertextual legítima deve equilibrar as pistas deixadas no texto (intenção do texto, se não do autor) com as convenções culturais partilhadas que tornam as referências inteligíveis, evitando tanto a sobrerinterpretação (overreading) quanto a subinterpretação (undereading). A abordagem pragmática de Eco influenciou a teoria da receção, a teoria do hipertexto e os estudos de media.
Gérard Genette, por sua vez, desenvolveu uma abordagem mais delimitada e estruturalista. Afastando-se da ênfase pós-estruturalista na indeterminação do significado, Genette focou-se na descrição sistemática das relações entre textos, visando mapear como estes funcionam dentro de sistemas, códigos e práticas culturais discerníveis. Ele propôs o termo abrangente transtextualidade para encapsular “tudo o que coloca o texto em relação, manifesta ou secreta, com outros textos”. Em obras como O Arquitecto (1992), Palimpsestos (1997a) e Paratextos (1997b), Genette distancia sua taxonomia da intertextualidade de Kristeva, subdividindo a transtextualidade em cinco categorias:
- Intertextualidade (sentido restrito): Para Genette, esta é apenas uma das formas de transtextualidade, definida como uma “relação de co-presença entre dois ou vários textos”, manifestando-se como a presença efetiva de um texto dentro de outro através de citação, plágio ou alusão. É uma relação pragmática e identificável.
- Paratextualidade: Explorada em Paratextos: Limiares da Interpretação (1997b), refere-se aos elementos que rodeiam o texto principal e controlam a sua receção – o paratexto. Este “limiar” ou “zona de transação” inclui o peritexto (elementos dentro do livro: título, nome do autor, prefácios, dedicatórias, notas, ilustrações, capa) e o epitexto (elementos fora do livro: entrevistas, correspondência, críticas, publicidade). Genette distingue paratextos autográficos (do autor) e alográficos (de editores, prefaciadores, etc.), argumentando que estes elementos, muitas vezes negligenciados, são cruciais para guiar a leitura e reassertam a importância da intenção (autoral ou editorial) na interpretação, um ponto de divergência com certas vertentes pós-estruturalistas.
- Metatextualidade: Refere-se à relação, explícita ou implícita, de “comentário” que une um texto a outro texto do qual fala, sem necessariamente o citar. É a relação crítica por excelência.
- Hipertextualidade: O foco de Palimpsestos, descreve a relação que une um texto B (hipertexto) a um texto anterior A (hipotexto), no qual se enxerta de uma maneira que não é o comentário. O hipertexto transforma, modifica, elabora ou estende o hipotexto (exemplos incluem paródia, pastiche, as obras em séries, tradução). A relação é de derivação. O hipotexto é a fonte anterior da qual o hipertexto deriva.
- Arquitextualidade: Define a relação mais abstrata e implícita de um texto com as diversas classes gerais a que pertence – os géneros (poema, romance, ensaio). Esta relação molda as expectativas do leitor e orienta a receção da obra.
Genette reconhece que estas cinco categorias de transtextualidade não são estanques, podendo sobrepor-se. No entanto, sua taxonomia oferece um quadro sistemático para analisar as múltiplas formas como os textos se relacionam, dialogam e se transformam mutuamente.
Para recapitular, partindo do conceito de intertextualidade de Kristeva, Umberto Eco e Gérard Genette elaboraram formulações substancialmente distintas para investigar as relações entre textos. Eco, através de uma abordagem semiótico-pragmática, salientou o papel do leitor, a necessidade de uma enciclopédia cultural e os limites inerentes ao processo de interpretação. Genette, por outro lado, propôs uma detalhada taxonomia estruturalista sob o termo transtextualidade, procurando mapear sistematicamente as diversas formas de vínculo textual: intertextualidade restrita, paratextualidade, metatextualidade, hipertextualidade e arquitextualidade. Embora divergentes em método e foco, ambos expandiram e refinaram o estudo das conexões intertextuais, fornecendo ferramentas conceptuais influentes para compreender a dinâmica complexa pela qual os textos dialogam, se transformam e se iluminam reciprocamente na vasta rede da cultura.
VEJA TAMBÉM

Deixe um comentário