A aspiração humana por asas representa uma constante antropológica, uma tensão permanente entre a nossa biologia terrestre e a vastidão do cosmos. Muito antes de o primeiro motor de combustão romper a barreira do som, a mente humana já havia colonizado a Lua e estabelecido impérios em Marte. Esta pré-história da exploração espacial revela que a viagem imaginária atuou como o andaime intelectual sobre o qual a ciência real foi construída.
A geografia do divino e o choque de galileu
Nos alvores da história registrada, o voo pertencia exclusivamente ao domínio do sagrado. No folclore chinês, o Imperador Shun — uma figura lendária dos primórdios da civilização — desceu dos céus em um protótipo de paraquedas. No Japão do século X, O Conto do Cortador de Bambu narra a origem celestial da Princesa Kaguya, que retorna à Lua em uma carruagem luminosa enviada por seu povo, estabelecendo uma das mais antigas ligações literárias entre a humanidade e um lar extraterrestre. Na Bíblia, o profeta Elias subia aos céus em uma carruagem de fogo, enquanto o mito grego de Ícaro estabelecia o voo como uma metáfora para os limites da ambição. Para os antigos, o céu permanecia como uma esfera metafísica, povoada por deuses e formas ideais.
Platão concebeu a viagem cósmica como ascensão da alma, descrita no Fedro pelas carruagens aladas e no Mito de Er, no qual a ordem celeste revela estrutura moral e inteligível. Séculos depois, Cícero transformou essa herança em forma literária com o Somnium Scipionis. Nele, o cosmos é contemplado em sonho. A visão das esferas reduz a importância das ambições humanas e estabelece o modelo clássico da revelação cósmica como experiência visionária, acessível quando a mente se desprende do corpo e contempla a harmonia universal como ordem inteligível que orienta destino e conhecimento de toda existência finita diante da imensidão eterna.
Na tradição cristã medieval, essa geografia espiritual adquiriu arquitetura cosmológica precisa. Na Divina Comédia, concluída por Dante Alighieri em 1320, o Paraíso é uma ascensão literal através das esferas planetárias — Lua, Mercúrio, Vênus e além — cada uma correspondendo a um grau de perfeição espiritual. O cosmos ainda era teológico, mas já possuía estrutura e estratificação, como se aguardasse futura cartografia científica.
A linhagem do absurdo cósmico encontra o seu progenitor em Luciano de Samósata, um retórico sírio-grego do século II cuja obra Uma História Verdadeira é considerada a primeira grande sátira de ficção científica da humanidade. Luciano transporta os seus marinheiros para a Lua através de um redemoinho colossal, descrevendo uma guerra interplanetária entre o Rei da Lua e o Rei do Sol por questões de colonização — um texto que não pretendia prever o futuro, mas ridicularizar os historiadores antigos que apresentavam fantasias como fatos.
Essa percepção ganhou contornos científicos em março de 1610, com a publicação do Sidereus Nuncius (O Mensageiro Estrelado) de Galileu Galilei. Ao apontar seu telescópio para o firmamento, o astrônomo pisano extinguiu a ideia da Lua como uma esfera de perfeição etérea. Ele observou um mundo áspero e desigual, repleto de montanhas e vales. Esta revelação converteu a Lua em um lugar físico, uma extensão da geografia terrestre que exigia novas formas de logística e engenharia mental.
Os pioneiros da ficção planetária
Três figuras do século XVII estabeleceram os alicerces do que hoje compreendemos como especulação científica. O primeiro foi Johannes Kepler, o matemático imperial alemão responsável pelas leis do movimento planetário. Em sua obra póstuma Somnium (1634), Kepler descreveu a astronomia lunar com um rigor sem precedentes, detalhando as variações extremas de temperatura e o ciclo de catorze dias de sol escaldante. A viagem ocorre em sonho, mediada por entidades demoníacas, mas o ambiente lunar é tratado como objeto de investigação física — o primeiro precedente sistemático de realismo em mundos alienígenas.
Logo em seguida, o bispo inglês Francis Godwin publicou The Man in the Moone (1638). Godwin introduziu o personagem Domingo Gonsales e seu servo Diego, que alcançava o satélite em uma liteira puxada por gansos selvagens treinados. Apesar do mecanismo fantástico, Godwin demonstrou uma intuição brilhante ao descrever a imponderabilidade, o momento exato em que a atração da Terra cessava e o viajante passava a flutuar no vazio do espaço.
Complementando essa tríade, John Wilkins, um dos fundadores da Royal Society de Londres, publicou A Discourse Concerning a New World no mesmo ano. Wilkins escreveu um manifesto técnico e filosófico sobre a colonização lunar, propondo carruagens voadoras e argumentando que o voo espacial seria um dia tão rotineiro quanto a navegação oceânica.
Ainda no século XVII, o tema adquiriu uma dimensão pedagógica. Bernard de Fontenelle, em Entretiens sur la pluralité des mondes (1686), apresentou em forma de diálogo a ideia de que cada planeta poderia abrigar formas de vida próprias, traduzindo a astronomia emergente em linguagem acessível. O cosmos deixava de ser apenas destino imaginário e tornava-se sistema habitável, sujeito à diversidade.
Sátira e o voo da razão
A viagem cósmica converteu-se, então, em instrumento privilegiado de crítica intelectual. Cyrano de Bergerac, em Histoire comique des estats et empires de la lune (1656), multiplicou as máquinas de ascensão — foguetes de artifício, frascos de orvalho capturando a luz solar — para zombar das ortodoxias filosóficas de seu tempo. Seus habitantes lunares consideram a Terra um satélite inferior, invertendo o antropocentrismo europeu. Em States and Empires of the Sun (1662), obra póstuma que amplia o universo iniciado em sua viagem lunar, Cyrano de Bergerac desloca o centro da especulação para a própria fonte de luz do sistema planetário. Aqui, a jornada já não é apenas uma sátira das convenções sociais terrestres, mas um experimento filosófico sobre hierarquias cósmicas. Se a Terra podia ser relativizada pela Lua, o que aconteceria quando o viajante se aproximasse do astro que sustenta toda a ordem física? O Sol de Cyrano não é apenas um lugar, mas um princípio — um domínio de inteligência superior que reconfigura a posição humana no cosmos.
Athanasius Kircher, em Itinerarium Exstaticum (1656), descreve o herói Theodidactus em uma turnê cósmica conduzida por um guia angelical. A obra combina erudição científica, teologia e misticismo, situando o viajante entre planetas e esferas celestes enquanto contempla leis naturais, hierarquias angelicais e a vastidão do universo
Daniel Defoe, em The Consolidator (1705), imaginou uma máquina voadora capaz de viajar entre a China e a Lua, usada para observação política à distância. A viagem extraterrestre tornava-se uma lente para examinar instituições humanas.
Jonathan Swift elevou essa tradição ao ápice em Gulliver’s Travels (1726). A ilha flutuante de Laputa, mantida no ar por um gigantesco magneto, representava uma crítica ferina aos cientistas que Swift considerava excessivamente abstratos. No entanto, o autor demonstrou uma presciência científica notável ao descrever as duas luas de Marte e seus períodos orbitais com uma precisão que só seria confirmada pela astronomia real um século e meio depois.
Em A Voyage to Cacklogallinia (1727), publicado sob o pseudônimo Capitão Samuel Brunt, a viagem à Lua serve de pretexto para uma sátira econômica da Bolha dos Mares do Sul. O protagonista alcança o satélite em um palanquim transportado por pássaros, misturando absurdo logístico com crítica social. A obra exemplifica o uso da exploração espacial como metáfora para os excessos humanos: comércio especulativo, ganância e ingenuidade financeira são transpostos para um cenário cósmico
Voltaire, em Micromégas (1752), ampliou a escala do imaginário. Um gigante vindo de Sirius e seu companheiro de Saturno visitam a Terra e observam a humanidade através de um microscópio improvisado. O ponto de vista desloca-se definitivamente: o ser humano passa a ser objeto de estudo do viajante interestelar.
O Barão de Munchausen, imortalizado por Rudolf Erich Raspe em 1785, levou o impulso satírico ao delírio. Subindo por um pé de feijão ou carregado por um furacão, o Barão transforma a viagem lunar em espetáculo de impossibilidade consciente — uma ponte entre a mitologia e o absurdo moderno.
No início do século XIX, uma obra anônima intitulada A Voyage to the Moon (1805) retoma o motivo clássico da viagem lunar, mas sob um espírito já moldado pelo racionalismo iluminista. A Lua deixa de ser apenas cenário de maravilhas e converte-se em modelo social alternativo. O viajante não encontra apenas criaturas estranhas, mas instituições, costumes e sistemas morais que refletem — e corrigem — os defeitos da Terra. A narrativa pertence à tradição das utopias comparativas: observar outro mundo para diagnosticar este. O satélite torna-se, assim, um espelho político. Diferentemente das fantasias barrocas do século anterior, a ênfase recai menos no mecanismo de transporte e mais na organização do mundo alcançado. A viagem é apenas o método; a finalidade é a reflexão sobre a ordem humana.
O milagre do vácuo e a tragédia da tecnologia
A evolução técnica da ideia de voo deve muito a Francesco Lana de Terzi, que em 1670 projetou um navio aéreo sustentado por esferas de cobre evacuadas. Embora impraticável, foi o primeiro conceito de aeronave baseado em princípios físicos e o primeiro a antecipar a guerra aérea.
Com Willem Bilderdijk, em A Short Account of a Remarkable Aerial Voyage and Discovery of a New Planet (1813), a ascensão aérea passa a dialogar diretamente com a tecnologia contemporânea. O balão — símbolo máximo da conquista do ar no século XVIII — torna-se instrumento de descoberta planetária. Não se trata mais de criaturas sobrenaturais, pássaros gigantes ou forças mágicas, mas de um artefato mecânico plausível. O céu deixa de ser domínio mitológico e torna-se espaço explorável por engenharia.
A descoberta de um novo planeta durante essa ascensão marca uma mudança conceitual importante: o cosmos já não é apenas visitado, mas expandido. A ficção acompanha a astronomia na multiplicação dos mundos possíveis. O viajante não parte para um destino conhecido; ele revela um que ainda não existia na cartografia humana. A viagem torna-se descoberta científica antecipada — literatura como extensão especulativa do telescópio.
No século XIX, a imaginação passou a incorporar sistematicamente problemas técnicos concretos. Edgar Allan Poe, em A Incomparável Aventura de um tal Hans Pfaall (1835), descreveu uma viagem à Lua em balão, incluindo a necessidade de dispositivos para regenerar o ar em atmosferas rarefeitas. A engenharia tornava-se parte da narrativa.
Jules Verne consolidou essa virada em Da Terra à Lua (1865), substituindo a fantasia pela balística e calculando a velocidade necessária para escapar da gravidade terrestre.
Mas a expansão do imaginário não foi apenas europeia. Em 1875, o brasileiro Augusto Emílio Zaluar publicou O Doutor Benignus, obra que combina exploração científica e visão onírica: o protagonista sonha com um habitante do Sol que celebra o progresso humano, inscrevendo o Brasil na tradição da especulação cósmica.
A Voyage to the Moon (1827), publicado sob o pseudônimo Joseph Atterley — identidade literária de George Tucker — representa a entrada decisiva dos Estados Unidos na tradição da ficção planetária. Aqui, o impulso utópico europeu combina-se com uma sensibilidade prática e observacional característica do novo século. O texto demonstra preocupação crescente com plausibilidade física, organização social coerente e descrição sistemática do ambiente extraterrestre.
O viajante não apenas visita a Lua; ele a estuda. Costumes, linguagem, economia e instituições são apresentados com método quase etnográfico. A obra marca a transição entre a viagem imaginária e a proto-antropologia cósmica. Outros mundos deixam de ser meramente alegóricos e passam a ser tratados como civilizações completas, passíveis de comparação científica. A ficção começa a imitar o procedimento das ciências humanas emergentes.
Com Paul Aermont Among the Planets (1873), a literatura finalmente realiza algo que a astronomia já sugeria havia séculos: o sistema solar como um circuito de destinos sucessivos. Pela primeira vez, um viajante percorre múltiplos planetas em sequência, transformando a exploração espacial em um verdadeiro grand tour cosmológico.
Cada mundo visitado representa um estágio distinto de desenvolvimento civilizacional. Júpiter abriga sociedades avançadas; Vênus apresenta estruturas sociais alternativas; Marte surge como variante próxima da Terra; Saturno revela formas ainda mais complexas de organização. A viagem deixa de ser encontro isolado e torna-se comparação sistemática entre mundos. O cosmos converte-se em laboratório de sociologia comparada.
Essa estrutura revela uma ideia profundamente característica do século XIX: a evolução como princípio universal. Assim como espécies e sociedades terrestres poderiam progredir ao longo do tempo, também os planetas poderiam representar diferentes idades da inteligência. A distância do Sol transforma-se em metáfora de maturidade cósmica. O universo inteiro é reinterpretado como uma escala de desenvolvimento.
Outros autores avançaram ainda mais na física imaginária. Percy Greg, em Across the Zodiac (1880), introduziu a “apergia”, uma forma de antigravidade que permite a viagem tripulada a Marte, acompanhada da invenção de uma língua marciana. John Jacob Astor IV, em A Journey in Other Worlds (1893), projetou viagens futuras a Júpiter e Saturno por meio de forças apergéticas, antecipando o imaginário da exploração interplanetária sistemática.
H. G. Wells coroou esse processo em Os Primeiros Homens na Lua (1901), imaginando não apenas o transporte, mas uma ecologia social alienígena complexa — uma civilização selenita organizada como colmeia subterrânea.
O círculo da imaginação
O que esses viajantes buscavam era o autoconhecimento. Ao projetar esperanças e medos em mundos distantes, a literatura permitiu que a humanidade compreendesse a fragilidade do seu próprio lar. Em julho de 1969, quando a missão Apollo 11 pousou na Lua, o evento carregava o peso de milênios de especulação. A ciência finalmente deu corpo ao sonho de Godwin, à matemática de Kepler e aos alertas de Francesco Lana. A verdadeira fronteira, conforme demonstrado por esses pioneiros, reside na capacidade da mente de conceber o impossível antes mesmo de possuir as ferramentas para realizá-lo.

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