Morin e a Complexidade

O pensador Edgar Morin examinou a complexidade ao desenvolver a ideia de pensamento complexo, uma forma de raciocínio que buscou superar os limites da ciência clássica e de seu método reducionista.

A divisão dos fenômenos em partes isoladas produziu, segundo ele, uma inteligência cega, incapaz de perceber as ligações, interações e incertezas que sustentam o próprio real. A fragmentação destruiu o objeto de estudo, pois eliminou aquilo que lhe dava vida. Por isso, Morin propôs outra atitude intelectual, uma espécie de mudança de foco semelhante ao gesto de quem abandona a lente de aumento e passa a observar o tecido inteiro de um bordado. Os pontos continuam ali, mas só ganham sentido quando vistos em conjunto.

Esse pensamento se organizou em princípios articulados. O primeiro foi o princípio dialógico, que manteve juntas lógicas contraditórias ou antagônicas como partes inseparáveis de um mesmo fenômeno. Ao contrário da lógica clássica, que excluiu a contradição, o pensamento complexo preservou a relação dialogal entre ordens e desordens ou entre a dupla natureza da luz. Morin citou Bohr para ilustrar essa convivência de opostos: o contrário de uma verdade profunda é sempre outra verdade profunda.

O segundo princípio foi o da recursão organizacional. Ele ultrapassou o simples esquema de causa e efeito e descreveu um circuito gerador em que produtos e efeitos também foram produtores e causas. A relação entre indivíduo e sociedade exemplificou esse movimento. Indivíduos produziram a sociedade por meio de suas interações, enquanto a sociedade, como totalidade emergente, produziu a humanidade de seus indivíduos ao fornecer linguagem e cultura.

O terceiro princípio foi o hologramático. Em certos sistemas, a parte está no todo e o todo está na parte. A célula biológica tornou essa ideia concreta. Ela compôs o organismo, mas carregou em si o patrimônio genético completo desse organismo.

Morin distinguiu ainda duas acepções do termo complexidade. A complexidade geral, que pertenceu ao campo da filosofia e da epistemologia, buscou criar um paradigma capaz de ligar, contextualizar e aceitar a incerteza. A complexidade restrita, ligada à ciência, foi a criação de ferramentas metodológicas para estudar fenômenos específicos como colônias de formigas, economias ou circuitos cerebrais por meio de modelos matemáticos e simulações. A primeira procurou reformar o modo de pensar e fornecer à ciência um fundamento mais amplo. A segunda resolveu problemas localizados dentro das disciplinas existentes. Morin não tratou essas abordagens como forças rivais. A complexidade geral funcionou como um recipiente epistemológico que recolocou em conjunto os avanços da complexidade restrita.

O pensamento complexo foi também uma lente para agir no mundo. A ação foi concebida como aposta que sempre escapou às intenções do agente. Em razão da não linearidade do real, estratégias tornaram-se mais importantes que programas rígidos, pois resultados dependem de interações imprevistas. Morin dialogou com a cibernética, a teoria da informação e a teoria dos sistemas, mas levou essas contribuições na direção de uma ciência da autonomia. Sistemas vivos ou sociais agem além de ser autorregulados. Agem de forma autônomia, inseridos em uma ecologia eco e re-organizadores. Em razão disso, autoproduziram-se, dependeram de seu meio e puderam reorganizar-se. Essa perspectiva sustentou análises que atravessaram questões biológicas, empresariais e políticas.

A complexidade, enfim, incorporou a incerteza. O pensamento complexo foi um movimento contínuo entre separar e ligar, entre ordem e desordem, entre parte e todo. Morin afirmou que se pode ser o João Batista do paradigma da complexidade e anunciar sua chegada sem pretender ser seu Messias. Seu objetivo foi o de preparar o terreno para uma transformação profunda do modo de pensar.

Deixe uma resposta

Um site WordPress.com.

Acima ↑

Conteúdo licenciado para IA via RSL Standard. Uso comercial e treinamento sujeitos a tarifação.

Descubra mais sobre Ensaios e Notas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading