
O alemão Georg Simmel (1858–1918) foi um pensador brilhante. Interdisciplinar, esteve situado na intersecção da sociologia e da filosofia. Dele veio uma análise perspicaz das formas de interação social e dos efeitos da modernidade sobre a experiência individual.
Apesar de uma carreira académica cheia de dificuldades e marginalização, suas ideias sobre a vida urbana, o dinheiro, os grupos sociais e a cultura são uma originalidade e uma presciência notáveis. Frequentemente contrastado com os grandes teóricos de sistemas como Durkheim ou Marx, Simmel privilegiou a análise micro-sociológica das relações e formas sociais, estabelecendo-se como um fundador da sociologia da vida quotidiana.
Nascido em Berlim numa família judia, Simmel estudou filosofia e história na Universidade de Berlim. Contudo, apesar de seu brilhantismo reconhecido em círculos intelectuais -– incluindo associações com Max Weber -–, enfrentou obstáculos em sua progressão académica, em parte devido ao antissemitismo institucional. Somente em 1914, já no final de sua vida, obteve uma cátedra plena na Universidade de Estrasburgo, onde faleceu em 1918.
A contribuição central de Simmel para a sociologia talvez seja no conceito de Sociologia Formal. Em vez de analisar conteúdos sociais específicos (política, religião, economia), Simmel propôs que a sociologia deveria focar nas formas sociais –- os padrões abstratos e recorrentes de interação que estruturam a vida social, independentemente do conteúdo. Exemplos dessas formas incluem a competição, o conflito, a cooperação, a troca, a subordinação e a superordenação. Sua análise da dinâmica grupal, como a distinção fundamental entre a díade (um grupo de dois, caracterizado pela intimidade e instabilidade) e a tríade (um grupo de três ou mais, onde surgem fenômenos como mediação, coligações e uma maior estabilidade estrutural), ilustra essa abordagem formal.
Simmel foi também um analista agudo da modernidade e de seus efeitos sobre a psique individual. Em seu ensaio clássico A Metrópole e a Vida Mental (1902), argumentou que a vida urbana moderna, com sua intensidade de estímulos nervosos, rapidez e multiplicidade de interações fugazes, produz uma atitude blasé. Esta atitude, uma forma de indiferença e reserva emocional, funcionaria como um mecanismo de defesa do indivíduo contra a sobrecarga sensorial e psicológica da metrópole. Simmel conectou esta experiência urbana à crescente predominância da economia monetária, tema central de sua monumental obra “A Filosofia do Dinheiro” (1900). Nela, analisou como o dinheiro transforma as relações sociais, reduzindo qualidades a quantidades, tornando as interações mais calculáveis e impessoais, e promovendo simultaneamente a liberdade individual e a alienação.
Outra faceta importante do pensamento simmeliano é a análise de tipos sociais, figuras que encarnam formas específicas de interação social. O exemplo mais célebre é O Estrangeiro (1908), definido por sua posição paradoxal de ser simultaneamente próximo (fisicamente presente na comunidade) e distante (não pertencendo originalmente a ela). Esta posição liminar conferiria ao estrangeiro uma objetividade particular. Simmel também analisou a dinâmica da moda, vendo-a como um campo onde se manifesta a tensão dialética entre duas pulsões sociais básicas: a imitação (necessidade de pertença e coesão social) e a diferenciação (desejo de distinção individual).
Por fim, Simmel desenvolveu uma visão melancólica do desenvolvimento cultural moderno através do conceito de tragédia da cultura. Ele postulou um crescente descompasso entre a cultura subjetiva (a criatividade, o espírito e o desenvolvimento do indivíduo) e a cultura objetiva (as formas externalizadas e reificadas da cultura, como a tecnologia, a ciência, a arte institucionalizada, o direito). A cultura objetiva, com sua lógica própria e expansão contínua, acabaria por oprimir e alienar a cultura subjetiva que a gerou.
Tal como Gabriel Tarde, Simmel foi, em certa medida, marginalizado durante sua vida pelos teóricos focados em macro-estruturas. Contudo, sua influência póstuma foi vasta e crescente. Sua ênfase nas interações quotidianas tornou-o um precursor da micro-sociologia e do interacionismo simbólico (influenciando figuras como Erving Goffman). Suas análises da vida urbana foram fundadoras para os estudos urbanos, impactando a Escola de Chicago e teóricos posteriores. Seus pensamentos sobre grupos e relações sociais anteciparam aspetos da moderna teoria de redes. Sua visão fragmentada e ambivalente da modernidade ressoou com pensadores pós-modernos. Sua relevância moderna persiste em debates sobre socialidade digital, globalização e a tensão entre individualismo e cultura de massa.

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