Nagarjuna e o vazio: filosofia radical do budismo Mahayana

Contemple um redemoinho que se forma em um rio. Ele tem forma, parece estável por alguns instantes e pode até receber um nome. Ainda assim, não existe por si mesmo. Depende da água, do leito, da corrente e de condições que mudam sem cessar. Ao tentar apontar onde, exatamente, está o redemoinho, percebe-se que ele não passa de um padrão em fluxo. Essa imagem aproxima-se de um ensino de um sábio do budismo, Nagarjuna (c. 150 – c. 250 d.C.). Se examinarmos cuidadosamente, aquilo que tomamos como sólido e independente revela-se relacional e dependente.

A escola Madhyamaka, o Caminho do Meio, do budismo Mahayana florescia no sul da atual Índia no século II d.C.. Nagarjuna foi um de seus expoentes. Embora os nomes específicos de seus tratados não sejam detalhados de modo uniforme em todas as fontes, os fundamentos de sua filosofia se centram no conceito de vazio ou vacuidade, shunyata.

O contexto do Mahayana, o Grande Veículo, esclarece o surgimento desse pensamento. O budismo Mahayana surgiu como uma expansão missionária e doutrinária, em contraste com o Hinayana, o Pequeno Veículo. Enquanto o budismo original focava na salvação individual, o Mahayana postula que ninguém entra no nirvana até que todos estejam prontos, o que salienta a figura do bodhisattva. Nesse cenário surgem os Sutras Prajñāpāramitā, Perfeição da Sabedoria, que servem de base para a especulação filosófica de Nagarjuna sobre a natureza da realidade.

A filosofia da vacuidade constitui sua contribuição mais decisiva, formulada como uma sistematização criteriosa. A ausência de existência inerente indica que shunyata não significa nada, e sim que todos os fenômenos são vazios de uma natureza própria ou existência independente, svabhava. A interdependência descreve o modo como nada existe isoladamente, pois tudo surge em dependência de causas e condições, e compreender essa vacuidade permite superar o apego e, por consequência, o sofrimento. O Sutra do Coração, um dos textos mais concisos Mahayana, resume essa formulação ao ensinar que a compreensão da vacuidade conduz à libertação.

A análise da negação do eu, atman, aprofunda a intuição original do Buda de que o eu permanente é uma ilusão. As fontes indicam que, no budismo, apenas eventos e processos existem, enquanto o eu duradouro constitui uma ficção mental. Essa análise dos skandhas, os agregados, foi comparada pela erudição moderna à fenomenologia, pois decompõe a experiência em componentes básicos sem encontrar um núcleo substancial.

A metafísica radical de Nagarjuna opera como terapia. Diferente da tradição ocidental, que frequentemente busca estabilizar o conhecimento em substâncias, sua filosofia atua para fazer os problemas desaparecerem, de modo análogo ao que Ludwig Wittgenstein descreveria séculos depois como desatar nós na linguagem. Para Nagarjuna, visões metafísicas funcionam como armadilhas mentais. A vacuidade opera como instrumento de desconstrução de dogmas e de liberação da mente diante do que parece inevitável. A filosofia deixa de ser apenas exercício intelectual e se torna um laboratório espiritual, além de um tratado metafísico voltado à transformação interior.

O legado e a transmissão dessa filosofia se estendem para além da Índia. A tradição foi levada para a China e outras regiões da Ásia por tradutores como Kumarajiva. Na China, essa visão moldou o budismo Chan, que mais tarde se tornaria o Zen no Japão, onde o satori, a iluminação, é alcançado pela intuição direta da vacuidade, muitas vezes por meio de paradoxos como os koans.

Nagarjuna questionou a compreensão convencional da realidade. Ao demonstrar que todos os fenômenos são vazios de existência inerente, sua obra busca libertar do sofrimento causado pelo apego a conceitos fixos. Os principais pilares dessa filosofia também respondem a perguntas recorrentes sobre seu sentido e sua prática.

A origem do pensamento de Nagarjuna pode ser compreendida como resposta a uma questão prática central no caminho budista: como libertar-se do apego e, por consequência, do sofrimento, dukkha. Antes dele, as escolas Abhidharma analisavam a realidade como uma série de componentes elementares e últimos, os dharmas, cada qual com uma natureza própria, svabhava. Nagarjuna argumentou que até esses componentes são vazios, pois nada possui essência independente. A erradicação do apego ocorre pela percepção direta de que todos os conceitos são vazios.

Sua preocupação central consistia em evitar dois extremos. De um lado, o eternalismo, a crença em uma essência ou alma permanente, como o atman. De outro, o niilismo, a crença de que nada existe, o que invalidaria a lei de causa e efeito e o próprio caminho espiritual. O Caminho do Meio, Madhyamaka, constitui a via que transcende ambos.

O coração dessa filosofia é a noção de shunyata, frequentemente mal compreendida. Shunyata não equivale a nada, tampouco a inexistência. Trata-se de uma descrição da natureza interdependente da realidade. Dizer que algo é vazio, shunya, significa afirmar que não possui natureza própria, svabhava, e, portanto, não existe por si só. A vacuidade se identifica com a origem dependente. Como afirma Nagarjuna: aquilo que surge em dependência é o que se chama vacuidade; sendo dependente, constitui precisamente o caminho do meio. Um fenômeno existe em dependência de causas, condições e partes, e por isso é vazio.

As ferramentas para compreender essa visão incluem a doutrina das duas verdades, satyadvaya. A verdade convencional, samvrti-satya, refere-se à realidade da experiência cotidiana, na qual se nomeiam e se utilizam conceitos como eu, carro e causa e efeito, o que permite a comunicação, o funcionamento do mundo e o ensino do dharma. A verdade última, paramartha-satya, descreve a realidade apreendida pela análise filosófica, que reconhece todos os fenômenos como vazios de existência independente. A relação entre ambas é fundamental. A verdade última não constitui uma realidade separada ou transcendente, pois corresponde à própria natureza da verdade convencional. Ao mesmo tempo, revela o modo de existência desta, mostrando-a como vazia.

A natureza dessa filosofia se expressa por meio de negação e de uma postura de não posição. O método de Nagarjuna não consiste em propor uma nova teoria, mas em desmontar teorias. A negação funciona como método, pois sua lógica dialética conduz qualquer tese metafísica ao absurdo e demonstra que toda posição, seja ser, não ser, ambos ou nenhum, se mostra insustentável. Ele afirma que não possui tese alguma. Caso sustentasse uma proposição como tudo é vazio, transformaria a vacuidade em nova essência e incorreria no erro que procura evitar. A própria vacuidade é vazia. Afirmá-la como realidade seria como tentar comprar o nada que um mercador declarou inexistente em seu estoque.

SAIBA MAIS

Referências bibliográficas

GARFIELD, Jay L. Fundamental Wisdom of the Middle Way: Nagarjuna’s Mulamadhyamakakarika. New York: Oxford University Press, 1995.

KALUPAHANA, David J. Nagarjuna: The Philosophy of the Middle Way. Albany: State University of New York Press, 1986.

SIDERITS, Mark; KATSURA, Shoryu. Nagarjuna’s Middle Way: Mulamadhyamakakarika. Boston: Wisdom Publications, 2013.

WESTERHOFF, Jan. Nagarjuna’s Madhyamaka: A Philosophical Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2009.

Atualizado em 4 de maio de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar.


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Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Nagarjuna e o vazio: filosofia radical do budismo mahayana. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/03/17/nagarjuna-e-o-vazio-filosofia-radical-do-budismo-mahayana/. Acesso em: 4 maio 2026.

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