Louis Hjelmslev (1899–1965), linguista dinamarquês e principal nome da Escola de Copenhague, desenvolveu a glossemática como um programa radical de formalização da linguagem no interior do estruturalismo. Em continuidade — e, ao mesmo tempo, em reformulação — do modelo de Ferdinand de Saussure, Hjelmslev concebe o signo como articulação entre dois planos autônomos e estruturalmente correlatos: o plano da expressão e o plano do conteúdo. Afasta-se, assim, da formulação que o reduz à relação entre significante e significado. Cada um desses planos possui forma e substância. A forma constitui o objeto propriamente científico da linguística, enquanto a substância permanece como domínio empírico secundário.
A glossemática parte do pressuposto de uma homologia estrutural entre esses dois planos. Isso significa que tanto a expressão quanto o conteúdo são organizados segundo princípios formais análogos, o que permite uma análise rigorosamente imanente da linguagem, desvinculada de psicologismo, historicismo ou referenciação extralinguística. Nesse sentido, Hjelmslev amplia o escopo da linguística para uma teoria geral dos sistemas semióticos e aproxima “semiótica” e “linguagem” em um mesmo horizonte teórico. A noção de semiótica conotativa desempenha papel central nesse projeto. Sistemas de segunda ordem, como literatura, mitologia ou ideologia, são concebidos como construídos sobre sistemas de primeira ordem e reutilizam suas estruturas formais.
O modelo glossemático do signo constitui, portanto, uma reformulação terminológica e uma tentativa de fundar uma ciência da linguagem baseada em relações puramente diferenciais e formais. A unidade mínima de análise, o glossema, corresponde a uma função relacional no interior do sistema, não a uma entidade substancial. Com isso, a linguagem é tratada como uma rede de dependências internas. Sua descrição exige uma metalinguagem técnica rigorosa.
Contudo, essa pretensão de ruptura foi objeto de crítica. A avaliação de Francis J. Whitfield observa que, apesar da terminologia inovadora e da ambição declaradamente revolucionária, a glossemática retoma, sob nova nomenclatura, aspectos tradicionais da linguística estrutural. Segundo Whitfield, trata-se de um sistema que, “apesar da estranheza dos termos técnicos […] é um dos tipos mais tradicionais de Linguística” (1974, p. 258). A crítica sugere que a originalidade de Hjelmslev reside menos em ruptura epistemológica do que em rearticulação formal de problemas já estabelecidos.
Essa dimensão retórica da novidade é visível no próprio vocabulário glossemático. Onde descrições anteriores recorriam a metáforas como “sol” e “planetas” para indicar relações de dependência, Hjelmslev prefere falar em “constelações”, deslocando o campo semântico sem alterar a estrutura conceitual subjacente. Tal estratégia evidencia o esforço de construir uma metalinguagem autônoma, capaz de sustentar a pretensão científica da teoria.
Em síntese, a glossemática representa um momento extremo do estruturalismo linguístico. Ao buscar uma formalização integral da linguagem, transforma o signo em função e a linguística em álgebra das relações. Ao mesmo tempo, como indicam seus críticos, essa radicalização pode ser lida como inovação ou como intensificação de tendências já presentes na tradição estrutural.
SAIBA MAIS
WHITFIELD, Francis J. A Glossemática. In: HILL, Archibald A. (Org.). Aspectos da lingüística moderna. 2. ed. Tradução: A. Pimentel Palácio et al. do original norte-americano de 1968. São Paulo: Cultrix, 1974. p. 257-265.

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