Microcontos

Microcontos

Uma mini-antologia e micro-análise de contos brevíssimos.

Brevidade é um dom. Engana-se quem acha que escrever pouco é mais fácil que escrever muito.  Mark Twain primava por clareza e concisão, tanto que certa vez reclamou ao seu editor que não conseguia escrever um conto de duas páginas em dois dias, para tal precisaria trinta dias[1].

Com elementos de narratividade, clareza e concisão, vários autores venceram a prolixidade e escreveram obras completas sem passar de uma linha impressa. Ironicamente, discuti-los, mesmo escrever uma bibliografia sobre eles ou suas micro-estórias, resultaria em textos maiores que suas próprias obras.

Adicionalmente, analisar essas micronarrativas gera um dilema jurídico: seria legal, sob doutrinas de fair use ou de citação para fins acadêmicos, a reprodução total dessas obras?

Considerando esses riscos e em boa-fé analiso alguns nanocontos sob quatro conceitos teóricos que caracterizam os microcontos:

  • Brevidade. Meio óbvio, senão não seria um microconto. O tamanho (número de caracteres, palavras, períodos) é discutível e não há um limite padronizado. Com o twitter e SMS popularizaram-se essas micronarrativas que cabem em um biscoito da sorte chinês, mas já existiam em outros meios, desde casca de noz, cartão postal e telegrama. A economia de meios é vital mais que em qualquer obra literária.
  • Narratividade. Não é uma mera vinheta, cena ou um slogan. Pode haver um punch line  ou um final aberto, porém é possível identificar elementos narrativos como personagens, problema, clímax e resolução. Como em qualquer texto, requer-se certa familiaridade com seu contexto.
  • Valor Literário.  Uma mera mensagem de celular “mãe, cheguei” ou cartão postal “Paris é fantástica” (quem ainda manda cartão postal? Postar fotos de viagens no fb e insta é mais prático ao exercício de esnobar) não são literaturas pelo simples fato de não construírem arte. Tais textos são antes pragmáticos.
  • Prosa. Alguns poemas e parlendas contém narrativas, mas os jogos de palavras que os caracterizam não seriam vernáculos em uma conversa, uma prosa.

MINI-ANTOLOGIA

Vim, vi e venci.[2]

Célebre dito de Júlio César com começo, meio e fim. É uma narrativa completa, pois pode ser lido por quem tenha uma familiaridade parcial com o romano (“seria quando passou o Rubicão e enfrentou o Senado? Seria quando venceu os gauleses?”) ou mesmo por alguém totalmente ignorante sobre o assunto, como um mero epitáfio.

Com três verbos com sujeito elíptico, nessas três sentenças curtas sobre o protagonista em 1ª pessoa que foi a algum lugar, contemplou algo e venceu há uma história total. Falta objeto — foi aonde? Viu o quê? Venceu quem?  — o que deixa a narrativa enigmática.

Na mesma linha de estilo, compus um microconto de três verbos intransitivos com sujeitos ocultos, com direito a título: Lápide.  Vivi, sorri, morri.

Ari:k  f[ez isso]

É difícil considerar pichações de monumentos, marcas de propriedade de canecas ou declarações de amor em casca de árvore como narrativas. Mas essa merece atenção. Os vikings (ou varengues) serviram como mercenários no Império Bizantino. Para horror dos gregos,  esses bárbaros deixaram grafiti escritos com runas  em monumentos. Foi o que aconteceu com a célebre estátua de mármore Leão de Pireo, levada de Atenas à Veneza em 1687 e decifrado pelo arqueólogo e diplomata sueco  Johan David Åkerblad.

Na mesquita (ou igreja) de Hagia Sofia há alguns rabiscos desses nórdicos.  Esse “Ari:k f[ez isso]” não revela muito, só tem um protagonista (Ari:k) e um ato (concedo, é uma reconstrução interpretada por Mats G. Larsson[3]). Entretanto, a língua e a paleografia em um lugar inusitado revela toda uma possível saga desses aventureiros desde a Escandinávia até a Roma do Oriente.

 À venda: sapatinhos de bebê. Nunca usados.[4]

A lenda diz que Ernest Hemingway aceitou uma aposta de bar que conseguiria escrever uma estória completa com menos de dez palavras. A história é apócrifa, mas é bem possível que o mestre da narrativa tenha escrito essa estorieta trágica.

Se considerarmos o “usados” como adjetivo (assim traduzi o particípio “worn”) temos uma nanonarrativa sem verbos. Faz lembrar a piada: “Oi, gatinha! Você não, canhão.”

Falando de piadas:

 –Pó pô o pó?

–Pó pô.

Temos duas personagens, provavelmente fazendo café, nessa piada regionalista (digamos, de mineiros) com a façanha de usar um inventário de duas letras e três fonemas em um diálogo.

 Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.

Obra-prima da microficção pelo autor guatemalteco Augusto Monterroso. O conto completo intitula “O dinossauro”[5] e frequentemente é tido como o menor conto da literatura mundial. Outros autores de língua espanhola fizeram esses haikai em prosa. O mexicano Luis Felipe Lomelí [6]escreveu “O Imigrante”, igualmente curto, com direito a um diálogo:

–Esqueces de algo?

–Oxalá!

 Múltiplas leituras também constroem minicontos interessantes que causam impactos por serem reflexivos, divertidos ou sérios:

Queima de Livro[7]

Os viajantes que vão lá ainda podem ver no céu e ler algumas das grandes obras literárias do país.

O autor islandês Ármann Reynisson fez esta e outras pérolas com poucas palavras. Pena que seu site não esteja mais no ar.

A mulher sozinha com sua alma
Uma mulher está sentada sozinha em uma casa. Ela sabe que está sozinha no mundo inteiro: todo os outros seres viventes estão mortos. A campanhia toca.

Essa micronarrativa de  Thomas Bailey Aldrich datada de 1912 fascina porque deixa muitas interpretações. Em uma leitura: a última pessoa viva do mundo tem certeza que está só, mas quem apertou a campainha? Estaria a mulher sozinha no sentido que não há ninguém por ela e repentinamente aparece alguma esperança? Estaria ela morta também? Tem zumbi nessa história? Esse conto causa crise existencial.

 Minha namorada é tão linda que…

Microcontos podem virar filmes também. Dan Rhodes compilou uma antologia de estórias curtas, chamada Anthropology and a hundred other stories.  Falando em antropologia, achei etnocêntrico o título em Portugal: A namorada portuguesa e outras 100 histórias. A obra fez sucesso e foi traduzida em várias línguas, espero vê-la em português do Brasil. Nessa coletânea, todos os contos — um pouco maior que os microcontos acima — são sobre uma namorada linda mas despercebida de sua beleza. Veja os vídeos no youtube.

* * * 

Tem alguma micro-estória? Poste-a nos comentários.

Aos que acham difícil a arte da concisão narrativa, considerem a frase atribuída tanto a Jean Cocteau e a Mark Twain. Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.


[1] Essa anedota é por si mesma um microconto telegráfico:

“NEED 2-PAGE SHORT STORY TWO DAYS”. “NO CAN DO 2 PAGES TWO DAYS. CAN DO 30 PAGES 2 DAYS. NEED 30 DAYS TO DO 2 PAGES”.

[2]  Segundo Plutarco. “Vita Iulii Caesaris” 50.3 Julio teria proferido tal sentença quando ganhou de um rei do Ponto, Farnaces II, em uma guerra relâmpago.

[3] Larsson,  Mats G. “Nyfunna runor i Hagia Sofia”, Fornvännen 84 (1989), 12-14

[4] Atribuído a Hemingway. For Sale, Baby Shoes, Never Worn.

[5] Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí. Moteroso, Augusto. Obras completas (y otros cuentos). Tegucigalpa, 1959.

[6] ¿Olvida usted algo? -¡Ojalá! Lomelí, Luis Felipe. Ella sigue de viaje. México, 2005.

[7] Bókabrennan

Ennþá geta ferðamenn sem þarna fara um og lyfta höfði til himins lesið tilkomumiklar bókmenntir þjóðarinnar. Acessado em Vijettur III. s.d.

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