Croce: Espírito e História

Benedetto Croce foi um dos raros pensadores cuja filosofia atravessou as fronteiras entre estética, história e vida pública, tornando-se ao mesmo tempo sistema teórico e guia para a ação.

Nascido em Pescasseroli, na região de Abruzzo, em 25 de fevereiro de 1866, Benedetto Croce cresceu sob a égide de uma educação religiosa, imbuído dos valores de uma família abastada e influente na sociedade italiana da época. Sua trajetória intelectual o levou a domínios vastos, com contribuições seminais para a estética e a filosofia da história. A relevância pública de Croce também se marcou pela nomeação como senador em 1910 e como ministro da Educação em dois momentos cruciais da história italiana: antes de 1922 e após 1945.

A formação de Croce em Roma foi influenciada por Bertrando Spaventa (1817-1883), de quem inicialmente absorveu correntes do positivismo. Contudo, sua filiação intelectual evoluiu e ele se reconheceu, posteriormente, como discípulo de Antonio Labriola. Em 1903, estabeleceu em Nápoles a influente revista La Critica, que se tornou importante veículo de suas ideias e do debate intelectual da época. Sua ascensão à vida pública culminou com a nomeação como senador em 1910.

Após breve adesão ao marxismo de Labriola, Croce direcionou seu pensamento para as novas nuances do hegelianismo, movimento catalisado pelo contato com a obra de Giovanni Gentile. Inicialmente ligado à nebulosa fascista nos primórdios do movimento, Croce gradualmente tornou-se um de seus mais ferrenhos opositores. Em resposta ao “Manifesto dos Intelectuais Fascistas” promovido por Gentile, Croce redigiu o “Manifesto dos Intelectuais Antifascistas”, publicado em 1º de maio de 1925, marcando ruptura definitiva com seu antigo companheiro de jornada intelectual.

A partir desse ponto, Croce consolidou-se como pensador espiritualista e defensor do historicismo absoluto. Esta posição também seria chamada idealismo realista, ao postular que a realidade é o Espírito concebido dialeticamente. Em sua análise, distinguiu o liberalismo ético ou político do liberalismo econômico do capitalismo, a que denominou liberismo. Essa distinção refletiu sua compreensão de que havia não apenas uma dialética de opostos, em que o positivo triunfa sobre o negativo, mas também uma dialética dos distintos, na qual os termos não se anulam, podendo harmonizar-se — como o belo e o verdadeiro, o útil e o bom.

Dessa perspectiva dialética, Croce desenvolveu uma concepção de graus do espírito, articulada em dois graus teóricos — a intuição e o conceito — e dois graus práticos — a volição do individual e a volição do universal —, correspondendo a quatro formas fundamentais do espírito: a artística, a filosófica, a econômica, entendida como a volição do individual e, portanto, atividade espiritual, e a ética, como volição do universal. Para Croce, o espírito possuía natureza circular, em que todas as formas se encontravam numa relação de unidade-distinção e se implicavam mutuamente. Essa visão propunha uma síntese das diferenças, em contraposição à síntese dos contrários, enfatizando um devir não linear, porém circular, e salientando a existência de um devir cósmico como manifestação multifacetada de uma única realidade: o espírito. Pense nisso como um ciclo de estações: cada estação tem caráter próprio, mas todas integram um mesmo ano.

Em sua filosofia política, Croce enfatizou que o Estado transcendeu uma mera relação utilitária ou uma síntese de força e consentimento, de autoridade e liberdade. Para ele, o Estado foi a própria encarnação do ethos humano, configurando-se como um Estado ético, ou seja, um Estado de cultura. O Estado era simultaneamente ideia e realidade econômica, ordo idearum e ordo rerum, pois, em sua concepção, a ação estatal, a ação econômica e a ação política constituíam sinônimos. Croce argumentava que a soberania não residia em nenhum dos componentes de uma relação isoladamente, mas na própria relação, e que as tentativas de localizar a soberania em algo transcendente, como Deus, a ideia ou a história, eram manifestações dessa complexidade.

A trajetória pessoal de Croce foi marcada por evento trágico em sua juventude: o terremoto de Casamicciola, em 1883, no qual perdeu os pais. Acolhido em Roma por seu tio Silvio Spaventa, permaneceu lá até 1886. Nesse período, iniciou estudos em jurisprudência, que logo abandonou em favor dos cursos universitários de ética de Antonio Labriola. Retornando a Nápoles, dedicou-se a investigações eruditas, mas logo percebeu a insuficiência da mera erudição, sentindo a necessidade de transferir seus interesses intelectuais para um plano de reflexão crítica. Marco inicial dessa revisão radical foi sua memória sobre La storia ridotta sotto il concetto generale dell’arte (1893).

Essa obra inaugurou um período de intensa produção intelectual que renovou profundamente a cultura italiana. Nesse empreendimento, Croce teve como companheiro por longo tempo Giovanni Gentile, até que divergências especulativas e, posteriormente, políticas romperam a colaboração entre os dois filósofos. Além de suas obras individuais, a revista La Critica, fundada em 1903, representou o principal órgão desse movimento de renovação.

A oposição de Croce ao fascismo manifestou-se de forma inequívoca após a declaração da natureza totalitária do regime em 1925 e culminou na redação do “Manifesto dos Intelectuais Antifascistas”. Esse documento consolidou sua imagem como exemplo para os intelectuais que resistiram ao fascismo. Após a queda do regime, Croce retornou brevemente à vida política ativa, servindo como ministro sem pasta no gabinete Badoglio, entre abril e junho de 1944, e no primeiro gabinete Bonomi, entre junho e julho de 1944. Presidiu o Partido Liberal até 1947 e ocupou a presidência honorária até 1948, além de ter sido consultor e deputado na Assembleia Constituinte, tornando-se senador vitalício em 1948. Sua contribuição para a vida intelectual italiana foi reconhecida com a nomeação como sócio honorário da Accademia dei Lincei em 1947, instituição da qual já havia sido sócio nacional. No mesmo ano, fundou em Nápoles o Instituto Italiano para Estudos Históricos, ao qual dedicou sua vasta e valiosa biblioteca particular.

O cerne do sistema filosófico crociano residiu no conceito da dialética dos distintos, que ele propôs como integração da dialética hegeliana dos opostos. Através dessa noção, Croce buscou reivindicar a distinção e a autonomia das diversas formas do espírito. Característica peculiar de sua atividade intelectual foi o constante paralelismo entre a obra filosófica e as investigações sobre problemas históricos, literários e políticos específicos. Sua filosofia, concebida como metodologia da história, encontrava verificação constante no concreto.

Em sua crítica ao positivismo, o jovem Croce partiu das posições espiritualistas de Francesco De Sanctis e do historicismo de Giambattista Vico, culminando no que denominou historicismo absoluto. Desde o início, Croce considerou o positivismo insuficiente para elucidar a natureza da poesia e da história, ambas entendidas como conhecimento do individual e, portanto, irredutíveis a classes de fenômenos naturalisticamente concebidos e inexplicáveis por mecanismos causais. Para Croce, a historiografia se distinguiu da ciência, embora não a negasse, podendo inicialmente ser reduzida ao conceito geral da arte. O desenvolvimento posterior de sua investigação, porém, levou-o a distinguir entre arte e história: a primeira como forma de conhecimento distinta da histórica e da científica, caracterizada pela intuição, independente do conhecimento racional, da utilidade e da moral, e identificada com sua expressão. Contudo, a estética crociana já continha em germe uma teoria do espírito, na qual, ao lado da atividade teórica, foi formulada uma teoria da atividade prática.

Croce amadureceu essa parte de seu pensamento por meio das sugestões que precederam suas reflexões sobre a arte, oriundas do estudo da filosofia de Karl Marx e da amizade com Antonio Labriola. Já nesse período, o materialismo de Marx foi contraposto, como método e teoria historiográfica, ao filologismo indiferente e estéril. Croce elucidou a essência dessa nova problemática do materialismo marxista na necessidade de determinar o lugar da atividade econômica na vida do espírito. Enquanto o marxismo concebeu a realidade econômica como condição ou estrutura, Croce elevou a economicidade a uma das formas da espiritualidade, postulando, ao lado das categorias tradicionais do belo (estética), do bom (moral) e do verdadeiro (lógica), a quarta categoria do útil (econômica). Contudo, ao aceitar o momento econômico, mas também ao limitá-lo, Croce afastou-se da influência do marxismo, que lhe pareceu erro filosófico. Essa compreensão, entretanto, permitiu-lhe retomar e sistematizar a teoria romântica da política como pura economicidade não subjugada por exigências éticas, reconectando-se, por extensão, a Nicolau Maquiavel.

Para desenvolver teoria completa do juízo estético e do juízo lógico, Croce investigou a esfera específica na qual o espírito, tornando-se autoconsciente, elaborou os predicados do juízo. Essa tarefa foi abordada em sua obra Logica, na qual introduziu a distinção fundamental entre conceitos puros e pseudoconceitos, ou seja, entre razão e intelecto. O intelecto abstrato foi relegado para fora dos limites da atividade cognitiva, para o domínio da atividade prática, em consonância com as indicações e conclusões a que a gnoseologia e a metodologia das ciências haviam chegado por outros caminhos e com outros intentos, partindo do próprio seio do positivismo. Libertando-se dos entraves dos pseudoconceitos, Croce elaborou a teoria do conceito puro, que reside no juízo. Finalmente, com a identificação do juízo existencial, ou individual, e do juízo definidor, deu o passo decisivo, revelando a irredutível historicidade de todo juízo, ponto que representou o coroamento de seu edifício filosófico e o lugar delicado em que história e filosofia operaram integração recíproca.

No entanto, sistematização tão abrangente não seria totalmente inteligível sem esclarecer pressuposto fundamental: o encontro direto do pensamento de Croce com o de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, especialmente expresso em Ciò che è vivo e ciò che è morto della filosofia di Hegel (1906). Croce já sentira a influência de Hegel por meio do estudo do marxismo e da colaboração com Giovanni Gentile. Revelou-se a Croce visão da realidade que, pela concepção dos distintos, se ordena e circularmente transpassa em formas diversas e recorrentes de maneira aparentemente pacífica. Croce conciliou essa concepção com a dialética do hegelianismo, que enfatiza o momento da luta e do contraste entre os elementos que estruturam a realidade, mostrando que o momento negativo em uma forma distinta nada mais é do que a positividade de outro distinto que a substitui. Assim, a realidade não perdeu o anseio dialético nem o impulso ao devir, mas também não careceu da capacidade de se apresentar positiva e equilibrada em cada um de seus momentos. Dessa forma, uma teoria da historiografia ficou completa, impondo ao filósofo-historiador a tarefa de adequar seu pensamento e apreender seus problemas numa realidade em constante renovação.

Os eventos públicos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial levaram Croce a transformar conceitos interpretativos da realidade em preceitos e normas de vida, marcando o nascimento de seu liberalismo. Assim como antes reivindicara a autonomia da política, agora, diante de ideologias políticas violentas que conferiram sanção ética ao Estado, Croce foi levado a reivindicar, no quadro da distinção, a autonomia e a alteridade da vida moral em relação à atividade política. A reconsideração e a coloração ética dos conceitos fundamentais de seu sistema tornaram-se característica marcante dessa segunda fase da vida do filósofo, e dela emanou grande parte de sua produção como historiador, voltada para a contemplação e a exaltação das forças morais que operaram na história. Croce teorizou essa experiência na distinção entre historiografia puramente econômica e historiografia ético-política, na ideia da história como história da liberdade e da liberdade como a última religião da humanidade.

A metodologia dos estudos literários e históricos foi profundamente renovada pelos ensinamentos de Croce. O estudo da poesia, como de toda arte, deveria tender à individuação da personalidade do artista. Tudo o que lhe era externo poderia concorrer para explicá-lo, mas não o condicionou para a determinação de sua poesia. Agrupamentos históricos de artistas foram considerados ineficientes e até prejudiciais. Para Croce, uma história da arte não era possível, muito menos uma história de gêneros literários singulares, que eram abstrações de críticos e não realidades. As pesquisas caras ao método histórico foram legítimas apenas a serviço da reconstrução histórica de uma determinada cultura ou civilização, mas nunca para a verdadeira compreensão de um poeta ou artista. A história, por sua vez, foi sempre contemporânea, ligada ao presente na pessoa e no ambiente do historiador, que sempre partiu de seus próprios interesses atuais. A historiografia não foi uma crônica bruta de acontecimentos, mas reconstrução e juízo dos fatos, síntese de intuição e conceito; foi sempre ético-política, isto é, história da vida moral e civil do homem. A linguagem foi criação individual e, portanto, ato espiritual, expressão de fantasia e não de lógica, sendo sinônimo de poesia. A linguística, como tradicionalmente entendida — estudo de sons, formas, significados —, teve legitimidade como estudo de fatos sociais.

A influência de Croce estendeu-se a muitos outros campos de estudo. Em relação à prosa italiana moderna, sua escrita, límpida, precisa e despojada de excessos, representou momento de notável importância. Assim, Benedetto Croce, apesar de críticos e adversários, emergiu como figura mais relevante da vida cultural italiana na primeira metade do século XX.

Principais obras

Entre suas obras de crítica e história literárias destacaram-se: La letteratura della nuova Italia (6 vols., 1914-40), Poesia e non poesia (1923), Poesia popolare e poesia d’arte (1933) e Letture di poeti e riflessioni sulla teoria e la critica della poesia (1950).

Em filosofia, sua obra magna foi Filosofia dello spirito em três volumes (Estetica come scienza della espressione e linguistica generale, 1902; Logica come scienza del concetto puro, 1909; Filosofia della pratica, 1909), à qual se adicionou posteriormente Teoria e storia della storiografia (1917). Outras obras filosóficas importantes incluíram Breviario di estetica (1913), Cultura e vita morale (1914), Etica e politica (1931), La storia come pensiero e come azione (1939), Filosofia e storiografia (1949), Storiografia e idealità morale (1950) e Indagini su Hegel e schiarimenti filosofici (1952).

Em história ético-política, suas obras notáveis foram La rivoluzione napoletana del 1799 (1912) e Storia d’Italia dal 1871 al 1915 (1928).

Em 1951 foi publicada antologia de suas obras (Filosofia, poesia, storia), com cronologia completa, na coleção “Classici Ricciardi”, sob a curadoria do próprio Croce.

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