José Cadalso (1741–1782) foi uma das figuras mais singulares do Iluminismo espanhol. Sua obra Noches lúgubres ocupa um lugar ambíguo: nasce no século da razão, mas antecipa a sensibilidade sombria do romantismo.
Noches lúgubres é um texto breve, inacabado, estruturado como diálogo dramático. A ação é simples e perturbadora. Tediato, o protagonista, tenta desenterrar o cadáver de sua amada para levá-lo consigo. A cena se passa à noite, em um cemitério, sob uma atmosfera de silêncio, medo e obsessão. O único interlocutor é Lorenzo, o coveiro, figura prática que contrasta com o desespero quase delirante de Tediato.
A obra se desenvolve como uma descida interior. Sem um enredo no sentido tradicional, há insistência, repetição, uma espécie de círculo emocional. O luto se transforma em fixação. A morte deixa de ser limite e passa a ser objeto de ação, como se o personagem tentasse atravessar uma porta que só se abre de um lado.
As Noches lúgubres de Cadalso, datadas de 1774, influenciaram o romantismo no Brasil e inspiraram a chamada poesia sepulcral. Publicadas pela primeira vez em 1789, alcançaram fama extraordinária no século XIX, sobretudo durante o romantismo. Na opinião do crítico Brito Broca, a obra serviu de modelo para os contos macabros de Álvares de Azevedo em Noite na Taverna.
José Cadalso y Vásquez, nascido em Cádiz e morto em Gibraltar, também teve carreira militar. No Brasil, o texto tornou-se conhecido pela tradução de Francisco Bernardino Ribeiro, publicada em folhetim na revista Minerva Brasiliense, em 1844. Isso levou à hipótese de que Álvares de Azevedo a teria lido. As primeiras edições eram compostas por três noites, sendo a última inacabada. Em 1815, publicou-se um desfecho considerado apócrifo, provavelmente o utilizado na tradução brasileira.
O livro teve numerosas edições, apesar da censura e de uma proibição passageira pela Inquisição de Córdoba. Foi acusado de conter expressões escandalosas, perigosas e de incitar o suicídio, além de críticas ao clero e à sociedade. Esse caráter escandaloso decorre da presença do macabro. A exumação é descrita em detalhes, com imagens de decomposição, e há momentos extremos, como a proposta de assassinato seguida de suicídio.
O enredo levou muitos leitores a interpretar a narrativa como autobiográfica. Difundiu-se a lenda de um Cadalso que teria desenterrado o cadáver da amada. O próprio autor, porém, indicou sua fonte literária. Inspirou-se em Night Thoughts, de Edward Young. O nome Lorenzo deriva de um personagem dessa obra, a quem o poeta dirige reflexões.
O clima macabro aproxima o texto de tradições dramáticas como as de William Shakespeare, em especial o monólogo de Hamlet. Também dialoga com a sensibilidade que mais tarde se veria em Lord Byron e E. T. A. Hoffmann. No Brasil, esses ecos chegaram com atraso, mas encontraram terreno fértil entre os românticos.
Cadalso, um “filósofo ilustrado”, escreveu uma obra marcada pela irracionalidade. O paradoxo é central. Como um cientista que sonha à noite, o autor deixa emergir conteúdos que a razão tenta conter. Esse contraste define o século XVIII. A razão conviveu com impulsos obscuros, como uma cidade iluminada por lampiões que ainda projeta sombras densas nas esquinas.
O personagem Tediato também encarna essa tensão. Desdenha dos temores supersticiosos de Lorenzo, mas sucumbe à obsessão após a perda amorosa. Sua racionalidade cede lugar a uma ideia fixa. O paralelo com Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe, é evidente. Ambas as obras, publicadas no mesmo ano de 1774, exploram a degradação da paixão em estado patológico.
A hipótese autobiográfica persiste ao menos no plano psicológico. A morte de María Ignacia Ibáñez, atriz amada por Cadalso, teria motivado o texto. A obra pode ter funcionado como catarse. Seu caráter inacabado reforça essa leitura. Cumprida a função expressiva, cessou o impulso de concluí-la.
Nesse sentido, o texto contém o germe do romantismo. Cultiva um estado de alma mórbido, marcado por pessimismo e intensidade afetiva. Mais que estilo, o romantismo aparece como necessidade. Surge como resposta a uma perda. Como alguém que procura calor após apagar-se o fogo, o espírito romântico tenta recompor, na emoção, aquilo que a razão já não sustenta.

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