Distinção estoica entre Lógica e Linguagem

Os estoicos estabeleceram uma distinção rigorosa entre lógica e linguagem. Os demais temas de sua filosofia se organizavam de um lado ou de outro dessa separação. A lógica, entendida como ramo da filosofia, não se identificava com a análise linguística. A linguagem, composta de sons e enunciados, pertencia à física, isto é, ao domínio corpóreo. A lógica pertencia ao domínio incorpóreo, ligado ao significado e ao som apenas de modo indireto. Essa distinção difere profundamente da semântica moderna, da filosofia da linguagem contemporânea e da tradição analítica.

A linguagem como corpórea

Os estoicos definiam a linguagem como enunciação, fala ou palavra pronunciada. A linguagem era som, vocalização. Por isso era corpórea, material e perceptível pelos sentidos, sobretudo pela audição. Pertencia, portanto, ao domínio da física, entendida como estudo dos corpos, da matéria e da causalidade. As palavras faladas eram sinais naturais de objetos naturais. A aproximação entre palavra e coisa era natural, mas Aristóteles sustentava o contrário, ao defender a convenção. Essa concepção integrava o materialismo estoico, segundo o qual apenas os corpos existem e apenas os corpos podem agir ou sofrer ação. O som, enquanto articulação fonética que o pneuma produzia, era um corpo. A fala, consequentemente, integrava o campo da física.

Os lekta e o significado incorpóreo

A lógica se situava entre os incorpóreos. Os estoicos chamavam as proposições lógicas de lekta, no singular lekton. O termo deriva do grego λέκτον e designa o “dizível”, o conteúdo que um enunciado expressa. Ele não se confunde com logos em seus outros sentidos, como razão, discurso ou palavra.

Os lekta, por serem incorpóreos, não pertenciam à física. Como subsistiam e não eram ficções, podiam constituir objeto da lógica. A lógica se tornava, assim, ciência dos lekta e do raciocínio correto.

Os lekta possuíam significado, embora lhes faltasse existência plena, já que não eram corpóreos. Subsistiam no pensamento. Entre eles estavam predicados, argumentos, silogismos e falácias. Diferentemente das palavras pronunciadas, os lekta não eram sinais naturais de objetos naturais. O som da palavra era corpóreo, mas o conteúdo significado permanecia incorpóreo. Essa distinção fornecia aos estoicos uma solução para o problema da relação entre significado e som.

Lógica estoica e semântica moderna

A separação entre linguagem sonora e significado lógico ocupa posição singular na história da filosofia. A semântica moderna costuma compreender o significado como representação mental, objeto abstrato ou prática de uso numa comunidade linguística. Os lekta antecipam certos aspectos dos sentidos de Frege, embora partam de uma ontologia distinta.

Os estoicos sustentavam que os lekta eram incorpóreos e reais. A filosofia analítica moderna tende a compreender a linguagem como convenção social. Os estoicos concebiam as palavras como sinais naturais, ligados causalmente às coisas. Essa concepção se aproxima mais do signo indexical de Charles Sanders Peirce do que do signo arbitrário que Ferdinand de Saussure formulou.

A filosofia estoica se dividia em três ramos: ética, física e lógica. A lógica se subdividia em retórica e dialética. A dialética correspondia aproximadamente ao estudo dos argumentos e do raciocínio válido.

Os sons da linguagem pertenciam à física por serem corpóreos. Os lekta, enquanto significados incorpóreos, pertenciam à lógica. O currículo estoico separava, assim, fonética e semântica. Essa estrutura não encontra paralelo claro na maior parte da filosofia antiga. Em Aristóteles, por exemplo, o tratado Da Interpretação apresenta as palavras faladas como símbolos das afecções mentais e não estabelece divisão ontológica tão radical entre som e significado.

A posição estoica levantava dificuldades filosóficas importantes. Se apenas corpos existem, como os incorpóreos podem ser objetos de conhecimento científico? Como a lógica pode constituir ciência se seus objetos não existem plenamente? A resposta estoica distinguia existência e subsistência. Os corpos existem enquanto os incorpóreos subsistem. Os platonistas criticaram essa solução e a consideraram incoerente.

Os estoicos compreendiam os silogismos como lekta e os distinguiam dos sons. O argumento existia independentemente de sua expressão verbal. O mesmo raciocínio podia aparecer em grego, latim ou linguagem de sinais. O som mudava, mas o significado permanecia enquanto lekton. A comparação com a distinção fregeana entre sentido (Sinn) e referência (Bedeutung) é frequente, embora a ontologia estoica permaneça distinta.

A. A. Long resume essa posição ao afirmar que os estoicos definiam a linguagem como enunciação sonora, corpórea e sensível, enquanto a lógica pertencia ao domínio dos incorpóreos e dos lekta, dotados de significado sem possuir existência corpórea plena.

SAIBA MAIS

ALGRA, Keimpe; BARNES, Jonathan; MANSFELD, Jaap; SCHOFIELD, Malcolm, eds. The Cambridge History of Hellenistic Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.

FINK, Jakob Leth; HANSEN, Heine; MORA-MÁRQUEZ, Ana María, eds. Logic and Language in the Middle Ages: A Volume in Honour of Sten Ebbesen. Leiden: Brill, 2013.

LONG, Anthony Arthur. Hellenistic Philosophy: Stoics, Epicureans, Sceptics. 2nd ed. Berkeley: University of California Press, 1986.

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