Cultura de massa, elite, popular e folclórica

No uso corrente, o termo cultura costuma ser empregado de forma indiferenciada para designar manifestações artísticas, hábitos de consumo ou tradições coletivas. Do ponto de vista analítico, porém, é necessário distinguir entre cultura de massa, cultura popular ou folclórica e cultura de elite (ou erudita). As diferenças entre essas categorias não dizem respeito apenas ao conteúdo simbólico, mas sobretudo à origem, às formas de produção, aos modos de difusão, ao tipo de público e à relação com o mercado, a tradição e as hierarquias sociais.

Cultura de massa

A cultura de massa refere-se às formas culturais produzidas industrialmente e distribuídas em larga escala para um público amplo, heterogêneo e anônimo. Sua origem está associada à consolidação da indústria cultural, conceito formulado de modo crítico pela Escola de Frankfurt, especialmente por Theodor Adorno e Max Horkheimer, no contexto da primeira metade do século XX.

Do ponto de vista da produção, trata-se de uma cultura comercial e profissionalizada, elaborada por estúdios, gravadoras, editoras, plataformas digitais e conglomerados midiáticos. A lógica central é a do lucro, orientada por pesquisas de mercado, tendências e previsibilidade de consumo. A difusão ocorre por meios massivos e centralizados: televisão, rádio, cinema comercial, grandes plataformas de streaming, redes sociais mediadas por algoritmos.

Formalmente, a cultura de massa tende à padronização, à serialização e à repetição de fórmulas bem-sucedidas. Seus produtos são concebidos para fácil compreensão e rápida assimilação. Exemplos incluem músicas pop de sucesso, séries televisivas de horário nobre, franquias cinematográficas, best-sellers e tendências virais digitais. A relação com o público é predominantemente vertical: o público aparece como consumidor passivo de bens simbólicos previamente formatados.

Em termos temporais, a cultura de massa é marcada pela efemeridade. Seus produtos acompanham modas passageiras e são rapidamente substituídos, garantindo a renovação constante do consumo. O conceito-chave aqui é o de homogeneização, pois particularidades regionais e locais tendem a ser diluídas para ampliar o alcance mercadológico.

Cultura popular e cultura folclórica

A cultura popular, em seu sentido antropológico, e a cultura folclórica, em acepção mais restrita, referem-se a manifestações culturais enraizadas na vida cotidiana de comunidades específicas. Embora os termos sejam frequentemente usados como sinônimos, “folclórica” costuma designar expressões mais antigas, transmitidas ao longo de gerações, enquanto “popular” pode abranger práticas vivas e em constante reelaboração.

Sua origem é comunitária e coletiva, muitas vezes de autoria anônima, com transmissão oral ou prática. Diferentemente da cultura de massa, ela não surge prioritariamente para o mercado, mas como resposta às necessidades simbólicas, rituais e identitárias de um grupo. A difusão ocorre de modo local e horizontal, por meio de festas, rituais, narrativas, aprendizado informal e convivência cotidiana.

O conteúdo está fortemente vinculado à memória coletiva, à história e ao ambiente social e geográfico. Inclui festas tradicionais, danças, músicas regionais, culinária, artesanato, provérbios, crenças e saberes práticos. A relação com o público é de participação ativa: os indivíduos não apenas consomem, mas produzem, reproduzem e transformam a cultura.

Do ponto de vista temporal, trata-se de uma cultura persistente, com mudanças lentas e cumulativas. Seu conceito central é o de tradição e identidade coletiva. Na teoria crítica europeia, especialmente na Escola de Frankfurt, o termo “popular” foi muitas vezes confundido com cultura de massa, entendida como produto imposto “de cima para baixo”. Em contraste, nos estudos latino-americanos, autores como Paulo Freire enfatizaram a cultura popular como espaço de criação, resistência simbólica e autonomia frente à homogeneização mercantil.

Cultura de elite ou cultura erudita

A cultura de elite, também chamada de cultura erudita, está associada a circuitos formais de produção simbólica e à posse de elevado capital cultural. Historicamente, vinculou-se às elites aristocráticas e burguesas, bem como aos meios acadêmicos e intelectuais.

Sua produção é caracterizada pela autoria individual e pela formação especializada. O artista, compositor ou escritor é reconhecido como autor, e sua obra resulta de estudo sistemático de técnicas, estilos e tradições canônicas. A difusão ocorre em espaços institucionalizados e seletivos, como museus, teatros, salas de concerto, galerias, editoras acadêmicas e universidades, frequentemente exigindo recursos econômicos ou educacionais para o acesso pleno.

Formalmente, a cultura erudita valoriza a complexidade, a experimentação e o domínio técnico. Pressupõe um público capaz de decodificar seus códigos simbólicos, o que Pierre Bourdieu descreveu como posse de capital cultural. Exemplos incluem música clássica, ópera, balé, literatura canônica, filosofia, cinema de arte e artes plásticas contemporâneas.

Sua temporalidade aspira à durabilidade e à inscrição no cânone. O conceito-chave é o de distinção, pois o gosto por esse tipo de cultura funciona como marcador social, diferenciando grupos e classes.

Em míudos

Pense em uma mesma música atravessando quatro mundos culturais distintos, sem mudar de tema, mas mudando de forma social.

O motivo é simples e recorrente: a dor da perda amorosa.

No plano folclórico, esse tema aparece nos sambas de roda do Recôncavo Baiano, onde não há autor fixo nem versão definitiva. Os versos sobre abandono e saudade são transmitidos oralmente e recriados a cada roda. A música não é “consumida”: ela é praticada coletivamente, como parte da vida social e ritual.

Quando esse mesmo universo simbólico se desloca para a cultura popular urbana, ele ganha autoria e forma estável. Um exemplo paradigmático é “As Rosas Não Falam”, de Cartola. A canção mantém a linguagem cotidiana e a experiência comum do sofrimento amoroso, mas agora circula por gravações e rádios. Trata-se de cultura popular no sentido latino-americano: enraizada na experiência social, ainda que mediada por meios técnicos.

No campo da cultura erudita, o samba e seus temas são reelaborados segundo códigos formais e institucionais. Arranjos sinfônicos de compositores como Radamés Gnattali ou a incorporação de elementos do samba na obra de Heitor Villa-Lobos deslocam o mesmo material expressivo para salas de concerto, partituras e análises acadêmicas. O tema permanece reconhecível, mas exige outro tipo de escuta, fundada em formação musical e capital cultural.

Por fim, na cultura de massa, a dor amorosa reaparece em versões padronizadas do samba-canção, do pagode romântico ou da música pop nacional, produzidas industrialmente para circulação massiva. Aqui, a repetição de fórmulas, a simplificação harmônica e a lógica do mercado transformam o tema em produto serial, destinado a um público amplo e anônimo, mediado por rádio, televisão e plataformas digitais.

O mesmo conteúdo simbólico — o amor perdido — percorre, assim, quatro regimes culturais distintos. O que muda não é o sentimento, mas quem produz, como circula, para quem se dirige e qual função social a música cumpre. É essa mudança de lógica, e não de tema, que permite distinguir cultura folclórica, popular, erudita e de massa.

Dinâmicas e interações

Essas categorias não existem de forma isolada. A cultura de massa frequentemente apropria-se de elementos da cultura popular e da cultura erudita, simplificando-os e mercantilizando-os. Ritmos folclóricos tornam-se produtos pop; técnicas vanguardistas são absorvidas pelo cinema comercial. Por outro lado, manifestações populares podem ser legitimadas como cultura erudita, ao serem estudadas academicamente ou incorporadas a museus e instituições culturais.

A cultura popular também pode operar como forma de resistência simbólica, preservando identidades locais diante da padronização massiva e da exclusividade elitista. Com o advento da internet e das redes digitais, as fronteiras entre produção industrial e difusão por contato direto tornaram-se menos nítidas, embora a lógica de mercado continue a desempenhar papel central.

Compreender essas distinções permite analisar não apenas o conteúdo cultural, mas os processos sociais que moldam a produção, a circulação e o consumo da cultura em sociedades complexas.

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