States of Injury: Power and Freedom in Late Modernity (1995), de Wendy Brown, uma destacada teórica política norte-americana, é uma crítica simpática ainda que incisiva à política das esquerdas no final do século XX. A obra examina uma questão incômoda: como um senso de ferimento pode tornar-se a base da identidade política e quais são os custos desse processo.

O conceito de “apegos feridos” (wounded attachments), termo cunhado por Brown, descreve uma dinâmica fundamental da política identitária. Por esse conceito, quando identidades politizadas, baseadas em raça, gênero ou sexualidade, são formadas em torno de sua lesão histórica e marginalização, suas demandas por reparação podem, paradoxalmente, vinculá-las às próprias estruturas estatais e de poder que causaram essa lesão. A luta por reconhecimento e restituição por parte do Estado pode criar uma dependência psicológica e política do “protetor”, mantendo a identidade atrelada à condição de vítima.
Essa dinâmica pode conduzir a uma cultura política movida pelo ressentimento (ressentiment), termo tomado de Nietzsche e utilizado por Brown para descrever uma concentração na culpa do vitimizador em vez da construção de um futuro novo e emancipatório. O resultado pode ser o desejo de permanecer em uma relação de vitimização para preservar uma vantagem moral, em vez de buscar ultrapassá-la.
Para substanciar seu argumento, Brown analisa a regulação estatal da pornografia, do assédio e do discurso de ódio. Esses eram debates intensos nos EUA dos anos 1990, dialogando com Catharine MacKinnon e Judith Butler.
Um dos alertas centrais de States of Injury refere-se ao Estado como espaço de libertação.
Brown sustenta que recorrer ao Estado e ao direito em busca de proteção e direitos constitui uma estratégia intrinsecamente ambígua. O alto preço da proteção institucionalizada é sempre uma medida de dependência e um acordo para obedecer às regras do protetor. Buscar proteção estatal, seja por meio da proibição do discurso de ódio, seja pela criação de novos direitos, acaba legitimando e fortalecendo o Estado, além de apresentar os protegidos como vítimas impotentes que necessitam de cuidados paternalistas.
A autora insiste que uma democracia autêntica exige compartilhamento de poder, não submissão à sua regulação, e diz respeito à liberdade, não à proteção. Demandas por intervenção estatal frequentemente reforçam o poder normalizador e disciplinador do Estado, em vez de desafiá-lo.
O livro articula diversas correntes críticas para construir seu argumento. Brown desenvolve uma crítica feminista original ao liberalismo, examinando como os ideais liberais de igualdade e liberdade na esfera pública dependem de uma esfera privada marcada pela desigualdade e pela diferença, especialmente no caso das mulheres.
A obra também investiga como lutas por reconhecimento podem produzir resultados inesperados. A conquista de direitos individuais pode apagar a identidade coletiva de um grupo, enquanto a conquista de direitos coletivos pode reforçar sua posição marginal.
A análise de Brown constitui um exemplo notável de diálogo entre diferentes teóricos. Ela reúne contribuições de Nietzsche, Marx, Weber e Foucault para diagnosticar os dilemas do poder contemporâneo. Em particular, retoma a crítica de Marx ao liberalismo em Sobre a Questão Judaica para enquadrar os impasses da emancipação baseada em identidades.
Em suma, States of Injury não condena a política identitária. A obra apresenta um alerta de que, ao transformara nossas feridas no centro de nosso ser político, podemos reforçar inadvertidamente os próprios sistemas de poder que procuramos derrubar.
Um exemplo contemporâneo dessa dinâmica analítica poderia ser pensado no debate sobre o fenômeno de emancipação feminina desacompanhado de processos de contenção do machismo ou conscientização masculina. Consequentemente, vemos o aumento paradoxal de violência contra a mulher, pois ruíram as normas cavalhereiscas do patriarcal. Alimentando o ressentimento, tornou-se ‘aceitável’ a agressão contra a mulher ao mesmo tempo que ganharam espaço jurídico e social.
Nascida em 1955, Wendy Brown obteve seu doutorado em filosofia política pela Princeton University em 1983. Teve uma carreira notável por muitos anos como professora de ciência política na University of California, Berkeley, onde ocupou a cátedra Class of 1936 First Professor. Reconhecida por sua excelência no ensino, recebeu o Distinguished Teaching Award da UC Berkeley e sua mais alta honraria, a Berkeley Citation.
SAIBA MAIS
BROWN, Wendy. States of Injury: Power and Freedom in Late Modernity. Princeton: Princeton University Press, 1995.
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Atualizado em 16 de junho de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Wendy Brown: estados de injúria. Ensaios e Notas, 2011. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2011/06/11/wendy-brown-estados-de-injuria/. Acesso em: 16 jun. 2026.

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