No século XVII, enquanto a Europa ainda se dilacerava por guerras religiosas, um grupo de cristãos holandeses começou a se reunir sem clero, sem credo obrigatório e sem a pretensão de possuir a verdade exclusiva. Eles passaram a ser chamados colegiantes — ou Rijnsburgers, por causa da vila de Rijnsburg, onde floresceram.
A proposta dos colegiantes era tanto simples quanto radical: abrir espaço para que qualquer pessoa pudesse ler, interpretar e discutir a Bíblia em comunidade. A fé não seria policiada por confissões oficiais nem mediada por sacerdotes profissionais. O que importava era a busca comum pela verdade, guiada pela Escritura, pela razão e pela consciência.

Convívio frutífero
Os Colegiantes surgiram no contexto da crise interna da Igreja Reformada dos Países Baixos. No início do século XVII, a jovem república holandesa vivia a tensão entre dois campos calvinistas: os gomaristas, defensores da predestinação rígida, e os arminianos, seguidores das interpretações mais moderadas de Jacobus Arminius.
A disputa era tanto teológica quanto política. A unidade nacional, necessária na guerra contra a Espanha, levou o Estado a favorecer a Igreja Reformada como instituição pública, mesmo mantendo um nível incomum de tolerância religiosa para a época. O conflito culminou no Sínodo de Dordrecht (1618–1619), que condenou os arminianos e expulsou cerca de 300 pastores de seus púlpitos.
Um desses pastores era Christopher Gysbert, de Warmond. Quando ele foi afastado, parte da comunidade preferiu não aceitar um substituto gomarista. Sob a liderança do erudito Gijsbert van der Kodde, decidiram continuar se reunindo — mas sem pastor. Assim nasceu o primeiro collegium.
As reuniões incluíam leituradas Escrituras (e escritos filosóficos e científicos), hinos, orações e a “profecia livre” (exercitia prophetica). Por essa prática, qualquer participante podia comentar a Escritura, compartilhar uma reflexão ou propor uma interpretação. Essa prática tinha precedentes na Reforma — entre zwinglianos, anabatistas e puritanos — mas os colegiantes a tornaram princípio permanente. Não havia liturgia fixa nem autoridade clerical. A participação não exigia adesão a um credo específico. Bastava aceitar a Bíblia como fonte de fé e estar disposto ao diálogo respeitoso.
Os colegiantes recusavam a ideia de “igreja verdadeira”. Consideravam o cristianismo histórico fragmentado e degenerado em disputas sectárias. Nenhuma denominação podia reivindicar monopólio da salvação.
Muitos membros mantinham dupla filiação, participando também de igrejas reformadas, remonstrantes ou menonitas. Suas reuniões atraíam dissidentes, espiritualistas, cartesianos, socinianos — e até judeus interessados na discussão bíblica.
Entre os frequentadores e simpatizantes estavam figuras ligadas ao nascente racionalismo e à cultura letrada holandesa. O ambiente colegiante ajudou a formar uma religiosidade sem confessionalismo, aberta à razão e à crítica.
Após sua ruptura com a comunidade judaica de Amsterdã, Baruch Spinoza aproximou-se dos Colegiantes. Ali encontrou um espaço onde a Bíblia era discutida sem coerção dogmática e onde a razão tinha lugar legítimo na vida religiosa.
Vários de seus amigos e patronos pertenciam a esse meio, como Jarig Jelles e Pieter Balling, que financiaram e divulgaram suas obras. Em 1661, Spinoza mudou-se para Rijnsburg, centro colegiante, onde escreveu textos fundamentais como o Tratado da Reforma do Entendimento e partes iniciais da Ética.
Ética prática e vida simples
A espiritualidade colegiante tinha implicações sociais claras. Defendiam:
- pacifismo;
- simplicidade de vida;
- modéstia nos costumes;
- cuidado com pobres e órfãos.
Mantinham obras de assistência, como o orfanato De Oranje Appel, em Amsterdã. Rejeitavam ambições políticas e recusavam a guerra. Seu cristianismo era menos doutrinal e mais ético. Consideravam que verdadeiro culto a Deus consistia na justiça e na caridade.
Os colegiantes mantiveram contato com quakers ingleses, que compartilhavam a prática do culto silencioso e da inspiração interior. Também dialogaram, direta ou indiretamente, com menonitas, batistas e espiritualistas europeus.
Embora como denominação teve uma história limitada, participaram do mesmo laboratório religioso que alimentou o protestantismo liberal, o racionalismo bíblico e, em sentido mais amplo, o Iluminismo.
Declínio e legado
No século XVIII, o movimento foi gradualmente se dissolvendo. A mentalidade tolerante que defendiam foi sendo absorvida por outras correntes, especialmente entre remonstrantes e menonitas. As últimas reuniões ocorreram no final do século, em meio às turbulências políticas da era revolucionária. Eles anteciparam ideias que se tornariam noteradores para tolerânica eligiosa:
- liberdade de consciência
- rejeição do autoritarismo clerical
- primazia da ética sobre o dogma
- leitura comunitária e crítica da Bíblia
- convivência entre fé e razão
Num tempo em que a ortodoxia ainda se impunha pela exclusão, os colegiantes experimentaram viver em uma comunidade religiosa sem fronteiras rígidas de crença. Mostraram que era possível conviver em pluralidade sem violência. Em um século de certezas mortais, praticaram a dúvida convivente.
SAIBA MAIS
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Atualizado em 4 de maio de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Colegiantes: Precursores da tolerância e do livre-pensamento. Ensaios e Notas, 2010. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2010/12/12/colegiantes-precursores-da-tolerancia-e-do-livre-pensamento/. Acesso em: 4 maio 2026.
