Com base nos estatutos e regulamentos originais (extraídos do Chartularium Universitatis Parisiensis e outros registros), listamos as leituras obrigatórias e o currículo da Universidade de Paris na Idade Média.
As listas de leituras mais detalhadas aparecem na Faculdade de Artes (a faculdade básica). A Teologia tem regras mais procedimentais, centradas na Bíblia e nas Sentenças de Pedro Lombardo, em vez de listas exaustivas de livros. Direito Canônico, Direito Civil e Medicina são mencionados apenas brevemente, remetendo aos estatutos próprios de cada faculdade. Abaixo estão todas as diferentes listas de leituras extraídas e organizadas por faculdade e estatuto.
Faculdade de Artes
1. Regras da Universidade de Paris, 1215 (Cardeal Robert de Courçon)
- Aulas ordinárias (manhã, currículo principal): livros de dialética de Aristóteles (tanto a “lógica velha” quanto a “lógica nova”) e os dois Priscianos (ou pelo menos um Prisciano).
- Priscianus maior: livros 1–6 (ou até o livro 16 em interpretações posteriores).
- Priscianus minor: livros 17–18.
- Livros proibidos (não podiam ser lecionados): Metafísica e obras de filosofia natural de Aristóteles; resumos dessas obras; escritos do mestre David de Dinant, do herege Amaury ou de Maurício da Espanha.
- Permitidos apenas em dias de festa (aulas cursórias/extraordinárias): filósofos, retórica, quadrívio (aritmética, geometria, música, astronomia), Barbarismus (livro 3 do Prisciano menor ou Donato), ética e o livro 4 dos Tópicos.
2. Chartularium Universitatis Parisiensis, Parte I, n. 246, 1254
Livros que deveriam ser lecionados pelos Mestres da Faculdade de Artes em Paris. O currículo abrange o período de seis ou sete anos desde o ingresso, ou matrícula, até o grau de Mestre.
- Lógica Antiga (Vetus Logica): Porfírio, “Isagoge” (Introdução às Categorias); Aristóteles, “Categorias” e “Perihermenias” (Da Interpretação); Boécio, “Divisões” e “Tópicos”, exceto o Livro IV.
- Lógica Nova (Nova Logica): Aristóteles, “Tópicos”, “Elencos” (Refutações Sofísticas), “Analíticos Anteriores” e “Analíticos Posteriores”.
- Ética: Aristóteles, “Ética” (a Nicômaco), quatro livros.
- Metafísica: Aristóteles, “Metafísica”.
- Astronomia: Aristóteles, “Do Céu” (De Coelo), “Meteoros” (Meteora), primeiro livro.
- Psicologia e Filosofia Natural: Aristóteles, “Física”, “Dos Animais” (De Animalibus), “A Alma” (De Anima), “Da Geração” (De Generatione), “Das Causas” (De Causis — atribuído a Aristóteles na época), “Do Sentido e do Sensível”, “Do Sono e da Vigília”, “Das Plantas”, “Da Memória e Reminiscência”, “Da Morte e da Vida”; Costa Ben Luca, “Da Diferença entre o Espírito e a Alma”.
- Gramática e Retórica: Prisciano Maior (16 livros de suas “Instituições Gramaticais”), Prisciano Menor (os dois últimos livros da mesma obra); Gilberto de la Porrée, “Seis Princípios”; Barbarismo (terceiro livro de Donato, “Ars Major”); Prisciano, “Do Acento”. (Cf. Chartularium Univ. Paris, Parte I, n. 246.)
3. Regras para as Determinações em Artes, 1252 (Estatutos da Nação Inglesa para bacharéis)
Os bacharéis deviam ter ouvido os seguintes textos (com número específico de aulas ordinárias e cursórias):
Lógica / Lógica Velha
- Praedicamenta (Categorias) e Periarmentae (Sobre a Interpretação) — pelo menos duas vezes ordinário + uma cursório.
- Seis Princípios (Liber sex principiorum) — uma vez ordinário + uma cursório.
- Primeiros três livros dos Tópicos + Divisões (de Boécio) — uma vez ordinário ou cursório.
- Tópicos e Elenchi (Refutações Sofísticas) — duas vezes ordinário + uma cursório (ou três vezes ordinário).
- Analíticos Primeiros — uma vez ordinário + uma cursório.
- Analíticos Posteriores — uma vez ordinário (pelo menos metade, se ainda estivesse assistindo).
Gramática
- Prisciano menor (livros 17–18) e Barbarismus — duas vezes ordinário + uma cursório.
- Prisciano maior (livros 1–16) — uma vez cursório.
Filosofia Natural
- De anima — uma vez (ou conforme estivesse sendo ouvido).
4. Cursos em Artes, Paris, 1255 (Decreto dos Mestres sobre o calendário de aulas)
Os textos deviam ser completados até prazos fixos (a partir da festa de São Remígio, 1º de outubro). Nenhum texto podia ser terminado antes do prazo; mais tempo era permitido, mas não menos.
- Até a Anunciação (25 de março):
- Lógica Velha (Isagoge de Porfírio, Praedicamenta, Periarmentae, Divisões, Tópicos de Boécio, exceto o livro 4).
- Prisciano menor & maior, Tópicos, Elenchi, Analíticos Primeiros, Analíticos Posteriores.
- Ética (primeiros quatro livros da Ética a Nicômaco de Aristóteles): 12 semanas (se lida com outro texto) ou 6 semanas (sozinha).
- Textos curtos (Sex principia, Barbarismus, Prisciano sobre o acento): 6 semanas juntos.
- Até São João Batista (24 de junho): Física, Metafísica, De animalibus.
- Até o Dia da Ascensão: De caelo et mundo; primeiro e quarto livros da Meteorologia; De anima (se lido junto com os livros de filosofia natural).
- Até a Cátedra de São Pedro (22 de fevereiro): De generatione et corruptione.
- Textos curtos de filosofia natural (semanas exatas):
- De causis — 7 semanas
- De sensu et sensato — 6 semanas
- De somno et vigilia — 5 semanas
- De plantis — 5 semanas
- De memoria et reminiscentia — 2 semanas
- De differentia spiritus et animae — 2 semanas
- De morte et vita — 1 semana
- De longitudine et brevitate vitae — 2 semanas (listado nos estatutos de 1366).
5. Estatutos da Faculdade de Artes, 1366 (emitidos pelos cardeais)
Antes de determinar (etapa de bacharel):
- Gramática: Doctrinale e Graecismus.
- Toda a Logica vetus, Tópicos (ou quatro livros), Elenchi, Analíticos Primeiros e Posteriores.
- De anima (inteiro ou em parte).
Para a licenciatura:
- Física, Da Geração e Corrupção, Do Céu e do Mundo.
- Parva naturalia (incluindo De sensu et sensato, De somno et vigilia, De memoria et reminiscentia, De longitudine et brevitate vitae).
- Metafísica (ou pelo menos começar a ouvi-la).
- Outras obras matemáticas.
Para o grau de mestre:
- Tudo acima, mais obras morais (especialmente a maior parte da Ética).
- Meteorologia (pelo menos os três primeiros livros).
Faculdade de Teologia
Não há uma lista exaustiva de leituras como na Faculdade de Artes. O currículo girava em torno de dois textos centrais com regras procedimentais rigorosas:
- Bíblia — aulas ordinárias (os cursórios só podiam comentar um capítulo por aula, exceto os biblistas designados).
- Sentenças de Pedro Lombardo — texto principal para os bacharéis (os que lecionavam as Sentenças deviam ler o texto na ordem, explicá-lo, levantar questões teológicas e evitar digressões puramente lógicas/filosóficas).
Principais exigências (vários estatutos de 1215 a 1366):
- Idade mínima de 35 anos e 8 anos de estudo (dos quais 5 anos de aulas de teologia) antes de lecionar publicamente (1215).
- Os cursórios em teologia deviam comentar o texto e anotar as glosas importantes “segundo o método antigo”.
- Os estudantes deviam trazer sua própria Bíblia (nos primeiros 4 anos) e cópia das Sentenças (ao começar a lê-las).
- Regulamento dominicano (1228): os irmãos eram proibidos de estudar livros de gentios ou filósofos ou artes liberais (exceto com dispensa); deviam estudar “histórias e sentenças, texto e glosas especialmente”. Pelo menos 3 livros de teologia por província.
Esses estatutos evoluíram ao longo do tempo (1215 → 1252 → 1255 → 1366), refletindo a incorporação crescente de todo o corpus de Aristóteles, ao mesmo tempo que mantinham prazos rigorosos e proibições para garantir o ensino ordenado. A Faculdade de Artes servia como pré-requisito para as faculdades superiores (Teologia, Direito e Medicina).
