Richard Boyd, “Confirmation, Semantics, and the Interpretation of Scientific Theories,”The Philosophy ofScience, eds. R. Boyd, P. Gasper and J.D. Trout (Cambridge: MIT Press, 1991): 3-35.
A filosofia da ciência trata da interpretação de teorias científicas, das condições de sua confirmação e dos limites das ferramentas conceituais usadas para descrevê-las. Richard Boyd examinou esses temas ao discutir conhecimento científico, linguagem técnica e os modos pelos quais inferimos algo sobre o mundo. O ponto de partida foi simples: toda inferência pressupõe um conjunto de premissas das quais se extrai uma conclusão. Observar um pássaro com garras afiadas e bico recurvado, por exemplo, conduz à conclusão de que ele era carnívoro. Algumas inferências pareciam mais sólidas que outras, pois dependiam da precisão das observações e da adequação da conclusão que delas se extraía.
Inferências dedutivamente válidas tornaram-se um caso especial. Nesse tipo de raciocínio, seria impossível que as premissas fossem verdadeiras e a conclusão falsa. A geometria ofereceu modelos clássicos desse procedimento, nos quais teoremas e demonstrações garantiam necessidade lógica. Para sustentar esse rigor, cientistas recorreram a hipóteses auxiliares que já tinham sido confirmadas independentemente. Esses elementos formavam uma rede de apoio que reforçava o argumento e permitia declarar como verdadeira uma afirmação dentro de um sistema teórico.
A indução seguiu caminho distinto. A partir de observações ou resultados experimentais, formulava conclusões gerais sobre fenômenos naturais. O exemplo do pássaro retornava aqui, agora como advertência. Para Hume, nenhuma inferência indutiva alcançava validade dedutiva, pois não havia garantia lógica de que casos futuros repetiriam o padrão observado até o momento. Sempre se poderia encontrar um animal com garras e bico de predador que não se alimentasse de carne. Assim surgiu um risco estrutural: não há como conhecer todas as situações possíveis. Toda previsão derivada de indução poderia falhar no futuro. A filosofia moderna tratou essa limitação como parte constitutiva do empreendimento científico.
A equivalência empírica acrescentou outra dificuldade. Duas teorias seriam empiricamente equivalentes quando produzissem as mesmas previsões observáveis, de modo que os mesmos dados sustentariam conclusões distintas. Quando isso ocorria, critérios exclusivamente empíricos não permitiam distinguir qual delas descrevia melhor a realidade.
A distinção entre afirmações analíticas e sintéticas surgiu como alternativa classificatória. Uma afirmação analítica seria verdadeira por causa do significado das palavras que a compõem. “Todo solteiro é não casado” bastou como exemplo. Em contrapartida, uma afirmação sintética dependeria de observações. Dizer que “todo solteiro é feliz” exigiria examinar casos reais. Bastaria encontrar um solteiro infeliz para derrubar a sentença. Essa distinção influenciou todo o projeto do empirismo lógico, que buscou resolver o problema da demarcação entre ciência e não ciência. O objetivo era separar teorias empiricamente testáveis de formulações metafísicas. Esse movimento formulou duas teses complementares: a verificabilidade como teoria do significado e o empirismo como critério de conhecimento.
A verificabilidade afirmava que compreender uma afirmação significava compreender as condições sob as quais ela seria verdadeira. Isso pedia procedimentos de teste claros, capazes de confirmar ou rejeitar uma proposição. Se não houvesse como testá-la, ela seria destituída de sentido. A tese epistemológica reforçava o argumento: todo conhecimento sintético seria conhecimento empírico, baseado em evidências observáveis. Assim surgia uma consequência desconfortável. Duas teorias empiricamente equivalentes não poderiam ser distinguidas ou rejeitadas por nenhum método empírico; ambas se tornariam igualmente destituídas de significado. O projeto visava eliminar compromissos metafísicos, considerados especulativos e inacessíveis ao teste.
Essa ambição ficou evidente na discussão sobre fenômenos inobserváveis. A ciência recorria com frequência a entidades que os sentidos não captavam. A metafísica fazia o mesmo. Fenômenos desse tipo não eram nem analíticos nem sintéticos. Uma teoria que incluísse tais entidades conviveria com uma quantidade ilimitada de teorias alternativas, contraditórias entre si e empiricamente equivalentes. Havia quem argumentasse que o teísmo possuía previsões testáveis, como a existência de vida criada por Deus. A réplica dizia que se poderia produzir uma formulação ateísta igualmente compatível com a observação. Assim, nenhuma delas superaria a outra pelo critério empirista. Os instrumentalistas responderam que o conteúdo significativo de uma teoria se exauria em suas previsões observáveis. O empirismo lógico levou essa lógica ao limite e concluiu que não haveria conhecimento possível sobre entidades inobserváveis, já que sua verificação estava fora de alcance. Uma afirmação desse tipo seria, portanto, destituída de sentido.
A reconstrução racional buscou aplicar o verificacionismo a sistemas teóricos completos. Nesse processo, elementos metafísicos seriam descartados. As consequências observacionais de uma doutrina eram determinadas como um conjunto, pois dependiam das hipóteses auxiliares selecionadas, dos termos observacionais usados e dos termos teóricos que referiam entidades inobserváveis. O operacionalismo tentou relacionar propriedades a procedimentos de medição, mas falhou. Cientistas frequentemente ajustavam métodos, abandonando a rigidez que o operacionalismo exigia. A realidade experimental era mais flexível que o programa filosófico.
O debate sobre causalidade revelou outra tensão. Definir causa como simples conjunção constante entre eventos fracassou, pois padrões observáveis não garantiam ligação necessária. Outra proposta definia causa como previsibilidade dedutiva: um evento seria causa de outro quando este pudesse ser deduzido do primeiro, com apoio de leis naturais e condições antecedentes. A imagem lembrava engrenagens antigas observadas por um relojoeiro; nada acontecia sem que uma peça pressionasse outra. Entretanto, a ciência real costumava funcionar de modo mais complexo.
O falsificacionismo de Popper introduziu nova tentativa de resolver a demarcação. Para ele, observações não confirmavam teorias gerais; apenas as rejeitavam quando as contrariavam. Uma teoria seria científica se fosse possível descrevê-la de modo que certas observações a refutassem. A ciência avançaria pelo abandono de hipóteses derrotadas, e não pela acumulação de confirmações definitivas.
O realismo científico interpretou teorias “ao pé da letra”, como se realmente descrevessem entidades inobserváveis existentes independentemente do observador. Haveria uma realidade externa que não dependia de nossas teorias ou percepções. Essa perspectiva retomava a confiança clássica em um mundo ordenado, semelhante a um mapa que existe mesmo quando ninguém o consulta.
O construtivismo social, associado a Kuhn, ofereceu outra imagem. Em períodos de ciência normal, uma tradição teórica orientava métodos e perguntas. Quando anomalias persistiam, iniciava-se a ciência revolucionária. Teorias rivais tornavam-se incomensuráveis, pois seus defensores não compartilhavam critérios aceitos por ambos os lados. Uma vez que um novo paradigma ganhasse adeptos, tornava-se o quadro de referência dominante. Em certo sentido, o próprio “mundo” científico mudava, pois a comunidade adotava novas práticas, novos problemas e novas formas de avaliar resultados.
Essa tensão entre realismo, empirismo e construtivismo fez da filosofia da ciência um campo de debates contínuos. Cada posição tentava capturar a relação entre teorias, observações e a estrutura do mundo. A discussão mostrou que compreender a ciência exige mais que listar métodos: exige interpretar o que significa observar, inferir, confirmar e rejeitar. A história intelectual do século XX expôs a complexidade dessa tarefa e deixou aberta a pergunta que Boyd retomou: o que exatamente significa interpretar uma teoria científica.

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