Sete teses equivocadas sobre América Latina

América Invertida. Joaquín Torres García (1878–1949)

O sociólogo e antropólogo mexicano Rodolfo Stavenhagen (1932–2016) publicou o ensaio Siete tesis equivocadas sobre América Latina em 25 e 26 de junho de 1965, no jornal El Día. Sua análise foi posteriormente incluída no volume Tres ensayos sobre América Latina, publicado pela editora Anagrama em 1973, ao lado de ensaios de Ernesto Laclau e Ruy Mauro Marini.

O ensaio critica as teorias da modernização, o difusionismo e as interpretações desenvolvimentistas então predominantes nas ciências sociais latino-americanas. Veio a ser uma referência clássica da sociologia e da antropologia crítica da região, sobretudo por problematizar a relação entre desenvolvimento, desigualdade e dominação interna.

Ataca a ideia de sociedade dual e o difusionismo. Segundo a tese dualista, a América Latina seria composta por um setor moderno e um setor tradicional relativamente separados; o atraso seria superado pela difusão de bens industriais, tecnologias e padrões culturais modernos. Stavenhagen sustenta o contrário: o desenvolvimento das zonas urbanas, industriais e “modernas” ocorre, em parte, à custa das zonas rurais e periféricas. Estas fornecem capital, matérias-primas, alimentos e mão de obra barata aos polos de crescimento, ao mesmo tempo em que veem aprofundadas suas condições de dependência e subdesenvolvimento. Por isso, regiões podem passar por processos de modernização sem deixar de ocupar posição subordinada na estrutura econômica e social.

As sete teses rejeitadas podem ser sintetizadas como segue:

  1. A América Latina não forma uma sociedade dual, composta por tradições e modernidades justapostas. Constitui uma estrutura única, articulada e marcada por relações de exploração entre seus setores.
  2. A entrada de produtos industriais não promove automaticamente o desenvolvimento local. Frequentemente destrói bases produtivas preexistentes, contribui para a proletarização rural, estimula o êxodo populacional e pode aprofundar a estagnação econômica das regiões periféricas.
  3. Não existe necessariamente um capitalismo nacional progressista que precise romper o atraso rural para ampliar o mercado interno. Os mercados urbanos podem ser suficientes para sustentar determinados processos de industrialização.
  4. A burguesia nacional e a oligarquia latifundiária não se opõem de modo estrutural e irreconciliável. Interesses agrários, financeiros, comerciais e industriais podem fundir-se em um mesmo grupo social, empresa ou família, tornando-se complementares.
  5. Problema da classe média latinoamericana. O conceito de “classe média” é analiticamente vago e não corresponde necessariamente a um sujeito progressista ou a um agente de transformação social.
  6. A visão otimista da mestizaje como motor de integração nacional questionável. A homogeneização cultural pode ocultar relações de dominação étnica e desigualdade, aproximando-se do problema posteriormente sistematizado como colonialismo interno.
  7. Stavenhagen questiona a suposição de uma aliança automática entre operários e camponeses, fundada em interesses comuns. As diferenças de posição, interesses e condições materiais entre esses grupos exigem análise específica.

A partir da crítica ao dualismo e ao difusionismo, Stavenhagen contribui decisivamente para a formulação latino-americana do conceito de colonialismo interno. Não se trata, porém, de uma invenção conjunta com Pablo González Casanova. González Casanova já havia desenvolvido a noção em “Sociedad plural, colonialismo interno y desarrollo” (1963) e a sistematizou em La democracia en México (1965). Stavenhagen, por sua vez, havia tratado de temas conexos em “Clases, colonialismo y aculturación” (1963) e desenvolveu a categoria de modo particularmente influente nas “Siete tesis” de 1965. O diálogo entre ambos — e também com Roberto Cardoso de Oliveira — foi central para a consolidação do conceito nas ciências sociais latino-americanas.

Segundo essa perspectiva, as relações coloniais não desapareceram com a independência política. Internalizaram-se no interior dos Estados nacionais. Neles, os centros urbanos, industriais e politicamente dominantes exercem formas contínuas de exploração e subordinação sobre periferias rurais, indígenas e regionalmente marginalizadas. O conceito articula análise de classe e análise das relações étnicas, oferecendo um instrumento para compreender a opressão étnica, a desigualdade regional e a persistência de assimetrias coloniais após a independência.

O ensaio apareceu no contexto posterior à Revolução Cubana. Eram tempos de intensa mobilização social, debates sobre revolução e desenvolvimento. Coincidia também com a expansão de regimes autoritários e ditaduras militares em partes da América Latina. A reflexão de Stavenhagen tornou-se leitura de referência para cientistas sociais da região. Contribuiu para a renovação crítica da antropologia e da sociologia mexicanas e dialogou com o desenvolvimento da teoria da dependência.

Em 2015, o Colégio do México promoveu um seminário de homenagem pelos cinquenta anos do texto, que resultou no volume Nuevas miradas tras medio siglo de las “Siete tesis equivocadas sobre América Latina”: homenaje a Rodolfo Stavenhagen.

SAIBA MAIS

Stavenhagen Rodolfo, “Siete tesis equivocadas sobre América Latina” en: Tres ensayos sobre América Latina, España, Anagrama, 1980.

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