Ernst Cassirer (1874–1945) encontrou nos símbolos a substância que nos faz humanos. Neokantiano de formação e atento a um horizonte amplo, ao refinar a crítica da razão pura ou da razão prática formulou uma filosofia da cultura que redefiniu o estatuto do ser humano. Em vez de homo sapiens ou animal rationale, Cassirer apresentou o homem como animal symbolicum, o ser que vive, pensa e age por meio de símbolos. Essa formulação, madura em sua obra de síntese Ensaio sobre o homem: Uma introdução a uma filosofia da cultura humana de 1944, condensou décadas de reflexão sobre linguagem, mito, arte, religião e ciência.
Cassirer partiu de uma insatisfação com as definições tradicionais da humanidade. A fórmula aristotélica do animal racional e a dualidade cartesiana entre res cogitans e res extensa pareceram-lhe insuficientes. Elas reduziram o homem a uma faculdade isolada ou a uma substância desligada do corpo. Para Cassirer, essas abordagens perderam de vista o traço característico da existência humana: a capacidade de interpor entre si e o mundo um sistema mediador de símbolos. Não vivemos diretamente no mundo das coisas, mas em um universo de significados construídos. A percepção, a emoção, o pensamento e a ação são filtrados e estruturados por formas simbólicas. Assim como um navegador depende de cartas náuticas para orientar-se no mar, nós dependemos dos símbolos para circular na realidade.
A intuição central de Cassirer afirmava que o homem não é um ser que usa símbolos, mas um ser que cria a realidade cultural por meio deles. A linguagem tem funções além de um simples instrumento de comunicação; pois organiza a experiência do espaço, do tempo e da causalidade. O mito seria irredutível a superstição primitiva porque configura sentidos, estabelece valores, origens e destinos. A arte oferece uma visão não conceitual do mundo e capta aspectos sensíveis e emocionais que o discurso lógico não alcança. A religião constrói um universo sagrado que vincula o finito ao transcendente. A ciência representa a forma simbólica mais abstrata e objetivadora; transforma a experiência em leis e relações matemáticas.
Cada uma dessas formas simbólicas possui lógica interna, gramática própria e modo particular de ver o real. Elas não seriam estágios sucessivos de uma evolução linear da consciência. Antes, funcionam como perspectivas simultâneas e complementares. O mito e a ciência não se opõem como erro e verdade. Esses discursos são maneiras distintas de dar forma ao caos da impressão sensível. Cassirer falou em funções simbólicas que atuam como elos intermediários entre sujeito e objeto, entre eu e mundo. Sem essas funções, não haveria cultura, história ou a própria possibilidade de uma vida humana desenvolvida.
A teoria das formas simbólicas apresentou implicações amplas. Na epistemologia, o conhecimento deixou de ser visto como espelho da realidade; passou a ser entendido como construção simbólica. Na ética e na política, a liberdade humana ganhou contorno expressivo. A liberdade ultrapassava um exercício da obediência a uma razão universal. Seria, antes, a capacidade criativa de expressão simbólica. A cultura tornou-se o espaço onde o homem exercia essa liberdade ao dar forma ao mundo. Cassirer atribuiu importância à diversidade cultural, pois cada povo e cada época realizou o humano por meio de configurações simbólicas próprias e revelou a riqueza do espírito.
A influência de Cassirer alcançou além da filosofia. Na semiótica, na antropologia cultural, na ciência cognitiva e nos estudos da comunicação, suas ideias ofereceram um arcabouço fértil. Susanne Langer desenvolveu a dimensão estética da teoria simbólica. Clifford Geertz, com a noção de descrição densa, recuperou a atenção cassireriana à espessura simbólica da ação humana.
A filosofia de Cassirer recebeu críticas. Alguns a consideraram idealista por priorizar o simbólico em detrimento de condições materiais e relações de poder. Outros observaram que a ênfase na mediação simbólica poderia obscurecer aspectos biológicos e instintivos que compartilhamos com outros animais. Cassirer não negava a base biológica. Entretanto, insistia que o humano emergia quando essa base era transfigurada pela atividade simbólica. Seus defensores afirmaram que sua visão oferecia equilíbrio: reconhecia o enraizamento biológico sem reduzi-lo ao biológico e afirmava a criatividade cultural sem cair em relativismo absoluto.
O ensino de Cassirer resumiu-se em uma antropologia filosófica dinâmica e processual. A humanidade não possuía essência fixa. O ser humano era o ser que permanecia em constante devir por meio da criação e da interpretação de símbolos. Essa perspectiva convidou à superação de dicotomias como natureza e cultura, razão e mito, ciência e arte. A cultura tornou-se o grande laboratório onde a humanidade experimentava possibilidades.
Em tempos de fragmentação do saber e pela proliferação de discursos que reduziram o homem a seus genes ou o dissolveram em redes de construções discursivas, a filosofia de Ernst Cassirer manteve atualidade serena. Seus ensinos lembraram que entre o estímulo e a resposta existia o símbolo e que esse intervalo simbólico abrigava a dignidade e a liberdade do ser humano.

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