O dilúvio brasileiro

Há anos, o velho Noé dedicava-se incansavelmente a duas atividades: construir sua arca, que garantiria o escape do dilúvio, e pregar, anunciando a vinda das águas colossais sobre a grande cidade.

A arca era simples, feita com restos de caixas de frutas, madeiras de construção, tudo reciclado. Os pares selecionados por Noé pertenciam à fauna urbana: cachorros magros, gatos vira-latas, pombos e até mesmo ratos. A pregação também era simples: acúmulo de lixo, mau planejamento urbano, construções em áreas irregulares; tudo isso, somado, traria o colapso, e, quando a gota d’água chegasse, tudo seria submerso.

Muitos ridicularizavam o velho Noé. Outros se preocupavam, mas nada faziam; uns poucos se conscientizavam e iniciavam uma cruzada, mas, individualmente, estavam desprovidos de poder.

A chuva veio. Quarenta dias e quarenta noites, como no dilúvio bíblico. Córregos transbordaram, o solo saturou-se de água, bueiros entupiram, e a água corria violentamente pelas ruas. Carros boiavam à deriva, salas das casas transformaram-se em tanques, pontes ruíram, estradas cederam. A lama deslizava dos morros, cobrindo as casas em seu caminho. Vidas foram ceifadas, soterradas ou afogadas. A água da chuva fazia com que uma velha mãe umedecesse ainda mais seu rosto sofrido com lágrimas.

Há males inevitáveis. Imagine se o clima enloquecesse ainda mais e nevasse sobre São Paulo. Primeiro, a temperatura caiu drasticamente. Surpresos, alguns culpavam a poluição atmosférica, outros relembravam que já estávamos atrasados para uma glaciação; era inevitável. Os rios congelaram, as árvores perderam suas folhas, os pombos migraram antecipando o inverno imprevisto, mas os cachorros de rua amanheceram mortos, congelados. O povo penava nas casas sem aquecimento. Tubulações estouravam, e, quando improvisavam aquecedores a álcool, gás ou carvão, acidentes por intoxicações e incêndios matavam tanto quanto o frio. Quando a neve caía, alguns, maravilhados, achavam lindo, mas, pouco depois, descobriam que não sabiam dirigir sobre a neve lamacenta. Tudo ficava escorregadio. Mal dava para caminhar; carros batiam, ônibus paravam de circular, ambulâncias e viaturas policiais não conseguiam atender às demandas. Mesmo assim, os veículos não funcionavam: sem mecanismos anticongelantes, os motores já haviam sido inutilizados há tempos. Alguém ainda conseguia encontrar alegria no momento e patinava sobre os lagos congelados. O verão chegava, e os danos eram contabilizados: fora desastroso.

Catástrofes naturais como uma inesperada glaciação são quase impossíveis, mas enchentes já se tornaram rotineiras no centro-sul do Brasil, principalmente em São Paulo. Temos mecanismos para prevenir e enfrentar a estação das chuvas, mas é necessário que todos participem, por meio de vontade política, consciência ecológica e mobilização social. Enquanto isso não ocorrer, a dor e a desgraça continuarão a se repetir ano após ano, conforme a profecia do velho Noé.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Um site WordPress.com.

Acima ↑