Três religiões dominam a história espiritual em grande parte do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islã. Juntas, reúnem mais da metade da população mundial. Embora seus conflitos sejam históricos e suas doutrinas divergentes em pontos fundamentais, essas três tradições compartilham uma origem comum, um conjunto de estruturas teológicas semelhantes e uma visão de mundo que as distingue coletivamente de outras grandes religiões. Examinar o que têm em comum é uma maneira de entender a própria lógica do pensamento religioso monoteísta.

O ponto de partida é Abraão. As três tradições o reconhecem como patriarca fundador e constroem em torno dele genealogias tanto biológicas quanto espirituais. Para o judaísmo, Abraão é o antepassado do povo de Israel, com quem Deus estabeleceu uma aliança inscrita na circuncisão e renovada em Moisés. Para o cristianismo, Abraão é o modelo da fé que precede a lei, o pai espiritual de todos os que creem, conforme argumentou Paulo na Carta aos Romanos. Para o islã, Abraão, chamado Ibrāhīm, é o primeiro muçulmano no sentido pleno, aquele que se submeteu inteiramente à vontade divina antes que qualquer revelação posterior fosse dada. A figura de Abraão funciona, assim, como um nó que une três ramificações de uma mesma árvore genealógica religiosa.
O monoteísmo é a característica mais imediata e mais consequente que as três tradições compartilham. Cada uma afirma a existência de um único Deus, criador de tudo o que existe, eterno, onipotente e pessoal, ou seja, um Deus que se relaciona com os seres humanos, que ouve, que responde, que julga. Essa concepção distingue o monoteísmo abraâmico do panteísmo, do politeísmo e das cosmologias em que o divino é uma força impessoal. O Deus abraâmico tem um nome, uma vontade e uma história de intervenção no mundo. Ele chama, e o ser humano responde; ou o ser humano chama, e Ele responde. Essa reciprocidade é o fundamento da vida religiosa nas três tradições.
Ligada ao monoteísmo está a ideia de revelação. As três religiões afirmam que Deus se comunicou com os seres humanos por meio de profetas e que essa comunicação foi registrada em textos considerados sagrados. A Torá para o judaísmo, a Bíblia para o cristianismo e o Alcorão para o islã são textos que, cada um a sua maneira, pretendem ser a palavra de Deus mediada pela linguagem humana. A discussão sobre como essa mediação funcionou, se a palavra divina foi ditada literalmente ou expressa por meio das capacidades de um autor humano, gerou séculos de hermenêutica em todas as três tradições. O debate é interno, mas a premissa é compartilhada. Presupõem que exista uma revelação, ela está escrita, e interpretá-la corretamente é uma obrigação religiosa.
A revelação, por sua vez, implica uma ética. As três tradições entendem que Deus criou o mundo e prescreveu como os seres humanos devem viver nele. O monoteísmo abraâmico é fundamentalmente ético, pois a relação com Deus exige uma conduta moral no mundo. Os Dez Mandamentos no judaísmo, o Sermão da Montanha no cristianismo e os cinco pilares do islã são expressões diferentes da mesma convicção de que adorar a Deus e tratar bem o próximo são inseparáveis. Essa dimensão ética distingue o monoteísmo abraâmico de religiões em que o culto tem função primariamente cosmológica ou ritual, sem implicar necessariamente um código moral aplicado à vida cotidiana.
Imagine três cidades construídas sobre a mesma fonte de água subterrânea. Cada cidade desenvolveu seu próprio sistema de aquedutos, seus próprios reservatórios, suas próprias leis sobre o uso da água. As cidades podem até disputar os direitos sobre a fonte. Mas sem ela, nenhuma das três existiria. O monoteísmo ético enraizado na figura de Abraão é essa fonte. As diferenças doutrinárias, litúrgicas e jurídicas entre judaísmo, cristianismo e islã são os sistemas de distribuição, cada um com sua engenharia própria, alimentado pela mesma origem.
A concepção de história linear é outra característica comum. As religiões abraâmicas entendem o tempo como uma narrativa com começo, desenvolvimento e fim. O mundo foi criado, a humanidade caiu, Deus intervém para redimir ou guiar, e haverá um julgamento final. Essa visão escatológica, presente nas três tradições com variações significativas, contrasta com as cosmologias cíclicas predominantes em outras culturas religiosas. A história tem um sentido, e esse sentido aponta para um horizonte além do tempo presente. Tal convicção moldou a historiografia ocidental muito além do âmbito religioso, contribuindo para a ideia moderna de progresso, que é, em certo sentido, uma escatologia secularizada.
O pecado e o arrependimento formam outra estrutura partilhada. As três religiões reconhecem que o ser humano é capaz de ser incompleto de cumprir a vontade divina e que essa falha tem consequências, tanto na relação com Deus quanto na relação com a comunidade. Cada tradição desenvolveu mecanismos próprios de reparação, Há no judaísmo, a teshuva, o retorno a Deus por meio da contrição e da mudança de conduta. Por sua vez, ocorre no cristianismo, a confissão e a graça redentora. Por fim, no islã, o istighfar, o pedido de perdão que pode ser feito diretamente a Deus sem intermediários. As formas diferem, mas a premissa é de que a ruptura com Deus pode ser reparada.
Jerusalém ocupa um lugar simbólico único nas três tradições. Para o judaísmo, é o local do Templo, o centro da presença divina na terra e o símbolo da esperança messiânica. Para o cristianismo, a cidade é o cenário da paixão, morte e ressurreição de Jesus, o coração geográfico da narrativa salvífica. Para o islã, Jerusalém é a qibla original da oração e o destino da viagem noturna do profeta Maomé, descrita no Alcorão. O fato de que uma única cidade concentre tanta carga simbólica para três religiões diferentes explica, em parte, por que o conflito sobre ela é tão intratável. Disputar Jerusalém é disputar o centro do universo religioso de metade da humanidade.
A oração estruturada e dirigida a Deus é prática universal nas três tradições. O judeu ora três vezes ao dia voltado para Jerusalém. O cristão ora em nome de Jesus Cristo, muitas vezes com fórmulas herdadas das Escrituras Hebraicas. O muçulmano realiza o salat cinco vezes ao dia, com gestos e palavras prescritos, voltado para Meca. As formas são distintas, mas a função é a mesma: manter aberto o canal de comunicação entre o ser humano e Deus, reconhecer a dependência da criatura diante do criador e reorientar a vida cotidiana em torno do sagrado.
Seria um erro apagar as diferenças entre essas tradições. A natureza de Jesus, o papel da lei mosaica após o advento de Jesus e do islã, a questão da profecia após Maomé são pontos de divergência que as tradições levaram muito a sério. São temas que produziram séculos de debate, conflito e perseguição mútua. Reconhecer o que compartilham não significa ignorar o que as separa. Significa, antes, perceber que a divergência ocorre dentro de um espaço comum, que o debate é travado numa linguagem que todas as três entendem, porque todas beberam da mesma fonte.
A história das religiões abraâmicas é, uma história da humanidade tentando articular sua relação com o sagrado.
SAIBA MAIS
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