Din-i Ilahi: a pequena religião de Akbar, o Grande

Akbar, o imperador mogol, realizou conquistas militares e estabeleceu uma administração eficiente. Sua inquietação religiosa o levou a fundar uma nova fé. Em 1582, de modo semelhante a Akhenaton, este soberano da Índia instituiu uma das menores religiões históricas conhecidas. Chamou-a din-i ilahi (religião divina) ou tawhid-i-ilahi (unidade de deus).

O centro dessa busca foi a casa de adoração em Fatehpur Sikri. Ali se reuniam estudiosos de tradições diversas: islam, hinduísmo, zoroatrismo, cristianismo, budismo, jainismo, sikhismo e ateísmo. O imperador ouvia os debates para identificar uma verdade comum por trás das doutrinas.

Trajetória e influências

Jalal-ud-Din Muhammad Akbar nasceu em 15 de outubro de 1542 e morreu em 27 de outubro de 1605. Governou o império mogol entre 1556 e 1605. Cresceu entre cortes persas e mestres religiosos. Era muçulmano de formação, mas analfabeto — não por descuido, mas porque sua educação fora interrompida pelo caos dinástico. Preferia ouvir a ler, debater a decretar.

Os casamentos políticos influenciaram sua visão. Ao unir-se a princesas rajputs, conviveu com tradições hindus e passou a reverenciar figuras como Rama e Krishna. Interessou-se pela não violência (ahimsa) jainista. Missionários jesuítas registraram que o imperador beijou a Bíblia e reverenciou imagens de Jesus e Maria. Akbar concluiu que nenhuma tradição possuía exclusividade da verdade.

O caminho até a nova fé

Em 1575, mandou construir o Ibadat Khana (Casa do Debate) em Fatehpur Sikri. As discussões ocorriam às quintas-feiras à noite, por vezes até o amanhecer. Inicialmente restrito a teólogos muçulmanos, o círculo expandiu-se para incluir diversas tradições. Os debates degeneraram em brigas entre sunitas e xiitas, com ulemas agressivos diante do questionamento imperial. A partir dessas discussões, Akbar concluiu que nenhuma religião singular poderia reivindicar o monopólio da verdade.

Um catalisador íntimo acelerou o processo. Em 1578, durante uma caçada, Akbar teve uma experiência mística. Os relatos apontam para um arrebatamento súbito, uma fana (dissolução do eu no divino) na terminologia sufi. Desmontou do cavalo, libertou os animais capturados e permaneceu em estado contemplativo. Retornou transformado.

Antes de criar a nova religião, tomou uma medida político-religiosa de consequências enormes: em 1579, obteve dos ulemas dóceis de sua corte a assinatura do Mahzar, documento que lhe conferia autoridade de árbitro supremo em questões religiosas. Era, na prática, um papado islâmico, o que foi recebido com horror pelos ortodoxos. Para Akbar, era a legitimação formal de uma autonomia espiritual que já exercia.

As dimensões da fé divina

A análise do sistema religioso de Akbar sob o modelo de Ninian Smart permite mapear essa religião. Esse modelo teórico examina as sete dimensões interconectadas de uma tradição. No caso da Din-i Ilahi revela uma estrutura que priorizava o comportamento e a experiência em detrimento da narrativa.

Na dimensão prática e ritual, a fé adotou o culto ao fogo inspirado no zoroatrismo e a recitação dos mil nomes sânscritos do sol, realizada quatro vezes ao dia em posições específicas. Os seguidores saudavam-se com Allahu Akbar ou Jalla Jalaluhu. A ambiguidade da primeira frase, que pode significar “deus é o maior” ou “deus é Akbar”, alimentou acusações de culto à própria pessoa. Celebravam os aniversários do imperador e dos membros do grupo. Eram proibidos de comer com pescadores e caçadores. Tais gestos rituais marcavam a fronteira social da comunidade.

A dimensão experiencial e emocional baseou-se no sufismo, especialmente nas ideias de Ibn al-Arabi sobre a unidade do ser (wahdat al-wujud). Akbar incentivava a purificação da alma através do anseio por deus. A experiência de 1578 permanece como momento fundador irrepetível.

A dimensão narrativa foi a menos desenvolvida, pois a tradição não criou mitos próprios, dependendo de cosmogonias alheias. Essa fraqueza é reveladora: habitava os mitos emprestados de todas as religiões que absorvia. O imperador acreditava que o ciclo histórico de mil anos iniciado por Maomé terminara, o que justificava uma renovação espiritual. Nessa visão, posicionava-se implicitamente como reformador — não exatamente profeta, mas algo análogo.

Doutrinariamente, a fé baseava-se na unicidade de deus e na ideia de que nenhuma religião detém o caminho exclusivo para ele. O papel de Akbar era, simultaneamente, o de imperador, guia espiritual supremo e manifestação terrena do divino. Esta fusão de papéis recordava tanto o califa islâmico quanto o rei-deus hindu.

A paz universal (sulh-i kul) tornou-se o eixo da dimensão ética e legal. Sob influência de mestres jainistas como Hiravijaya Suri, Akbar restringiu o consumo de carne, alho e cebola. O código moral incluía celibato, castidade, generosidade, perdão, prudência, sabedoria, bondade e piedade. Proibia o casamento de menores e a imolação de viúvas (sati). A não-violência estendia-se dos humanos aos animais, encorajando o vegetarianismo.

Estrutura social e material

A dimensão social foi restrita à elite da corte. A adesão era um ato pessoal. O candidato prostrava-se diante do soberano, colocava a cabeça sobre seus pés e recebia um retrato do imperador, um ornamento sagrado e o título de chelah (discípulo). Era ao mesmo tempo ritual de iniciação espiritual e ato de submissão política. Essa ambiguidade tornava difícil distinguir onde terminava a devoção religiosa e onde começava a fidelidade pessoal.

O grupo contava com cerca de dezenove membros identificados, escolhidos a dedo segundo sua devoção a Akbar. Entre eles, o conselheiro Birbal, único convertido notório de origem hinduísta, e Mirza Jani Beg. Funcionava como culto à personalidade construído em torno do soberano, mais que como igreja institucionalizada.

Na dimensão material, a arquitetura de Fatehpur Sikri expressou a síntese religiosa ao fundir arcos persas, escultura hindu, cúpulas mogóis e colunatas jainistas. O mausoléu de Salim Chishti, o santo sufi cuja bênção garantira a Akbar um herdeiro, ficava no coração da cidade. Não deixa de ser um reconhecimento de que, por baixo da especulação doutrinária, permanecia a gratidão pessoal a um santo de carne e osso.

Em 1583, Akbar renomeou Prayag como Allahabad (pronunciado Ilahabad), vinculando a geografia sagrada da confluência dos rios Ganges, Yamuna e Saraswati à sua visão do divino sem denominação confessional.

Documentos e desfecho

O conhecimento sobre a din-i ilahi provém de observadores externos, já que a fé não possuía escrituras sagradas. Esta ausência deliberada que equivalia a dizer: a verdade não se confina a um texto. As fontes principais são três.

O Akbarnama de Abul Fazl, cronista oficial e principal ideólogo da corte, constrói uma filosofia do poder imperial em que Akbar figura como manifestação divina. O Ain-i-Akbari, sua segunda parte, destaca-se pela abordagem racional e empírica à governança. É a cronica apologética, cuidadosamente construída.

O Muntakhab al-Tawarikh de Abd al-Qadir Badauni é a antítese: crônica escrita por crítico feroz, que registrou os debates com horror e indignação. Paradoxalmente, por ser hostil, é provavelmente a fonte mais honesta sobre o que realmente se passava.

O livro Dabestan-e mazaheb (século XVII), ou “Escola das Religiões”, inclui um capítulo sobre os “Ilahiyas”. Esse panorama das religiões da época constitui um dos únicos registros das crenças do grupo após a morte do fundador.

Após 1605, a tradição perdeu força. Jahangir, filho e sucessor, tornou-a inoperante, afastando-se das políticas religiosas paternas. O desmonte sistemático ocorreu sob Aurangzeb, bisneto de Akbar, que restaurou a ortodoxia islâmica, restabeleceu o jizya (imposto sobre não muçulmanos) e destruiu templos hindus. A pluralidade religiosa cultivada durante cinquenta anos foi sistematicamente desmantelada.

Legado

Há uma leitura cínica e uma generosa dessa herança. A cínica — articulada pela Encyclopaedia Britannica — vê o din-i ilahi como culto de personalidade, instrumento de consolidação do poder pessoal de Akbar, cuja tolerância era indistinguível da pragmática imperial de quem precisava dos hindus, rajputs, jainistas e sufis para manter um império que nenhuma força religiosa sozinha unificaria.

A generosa reconhece que, seja qual for a motivação, Akbar criou por algumas décadas algo genuinamente raro: um espaço onde o debate entre tradições era não apenas permitido mas incentivado, onde um ateu podia sentar-se ao lado de um bispo jesuíta e de um monge jainista sem que nenhum fosse convidado a converter o outro.

O caso do din-i ilahi é um limite útil no estudo das religiões: uma tradição que deliberadamente esvaziou a dimensão narrativa (sem mitologia própria), aboliu a dimensão institucional (sem clero, sem hierarquia), e recusou a dimensão escritural (sem textos sagrados). O que ficou foi quase puramente dimensão experiencial e ética. Assim, era uma religião-programa de aperfeiçoamento moral para cortesãos sofisticados que já não acreditavam que uma única tradição lhes bastasse.

Temia, sobretudo, a cristalização. Temia que a verdade, uma vez escrita, se tornasse prisão. O que é ao mesmo tempo sua maior fraqueza. Sem texto, sem clero, sem rito obrigatório, a fé não sobrevive ao fundador.

SAIBA MAIS

Beveridge, H. “Akbar’s House of Worship, or Ibadat-Khana.” Journal of the Royal Asiatic Society 49, n. 4 (outubro de 1917): 715–722.

Chandra, Satish. Medieval India: From Sultanat to Mughals. Vol. II. Nova Delhi: Haranand Publications, 2007.

Eraly, Abraham. Emperors of the Peacock Throne: The Saga of the Great Moghuls. Nova Delhi: Penguin Books India, 2000.

Habib, Irfan. “Two Indian Theorists of the State: Barani and Abul Fazl.” Indian History Congress, Patiala, 1998.

Khan, Iqtidar Alam. “Akbar’s Personality Traits and World Outlook: A Critical Reappraisal.” Social Scientist 20, n. 9/10 (setembro–outubro de 1992): 16–30.

Rezavi, Syed Ali Nadeem. “Religious Disputation and Imperial Ideology: The Purpose and Location of Akbar’s Ibadatkhana.” Studies in History 24, n. 2 (2008): 195–240.

Rizvi, S.A.A. Religious and Intellectual History of the Muslims in Akbar’s Reign, with Special Reference to Abul Fazl (1556–1605). Nova Delhi: Munshiram Manoharlal, 1975.

Roy Choudhury, Makhan Lal. The Din-I-Ilahi, or the Religion of Akbar. Nova Delhi: Munshiram Manoharlal, 1997 [1941].

Richards, John F. The Mughal Empire. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.

Streusand, Douglas E. The Formation of the Mughal Empire. Delhi: Oxford University Press, 1989.

Tennyson, Alfred Lord. “Akbar’s Dream.” Em The Death of Oenone, Akbar’s Dream, and Other Poems. Londres: Macmillan, 1892. [Poema que celebra o Ibadat Khana como símbolo de tolerância.]

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